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Bandana vira acessório indispensável do BBB e causa revolta nas redes sociais

Moda é, na verdade, anterior a esta edição do reality, e vem ganhando espaço em tempos de ativismo e de crise econômica

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Belo Horizonte

Uma multidão indignada protesta virtualmente contra a proliferação de bandanas no Big Brother Brasil. Nas redes sociais, os desgostosos querem saber quem é o culpado.

Alguns deles levantam hipóteses —cabelos sujos, apliques indiscretos, raízes pedindo uma recalibrada de Koleston? Outros setores mais afáveis da internet optam por assentir e reproduzir a tendência em seus respectivos confinamentos.

Mas a moda, claro, é anterior ao BBB deste ano. Na verdade, ela já vinha voltando há alguns anos.

Um importante vetor de propagação aconteceu no Marrocos, em 2019, um pouco antes do coronavírus tomar o mundo. A italiana Maria Grazia Chiuri apresentou em Marrakech uma coleção da Dior repleta de lenços enfeitando as cabeças das modelos. Chiuri, ela própria, fechou o desfile usando uma bandana cobrindo o cocuruto.

Dentro do universo fashionista, aquilo “causou um burburinho”, diz Dario Caldas, sociólogo e diretor do Observatório de Sinais, escritório especializado em diagnosticar tendências.

Outro fator que contribuiu para a moda é o fato de que o diretor criativo da Gucci, Alessandro Michele, já vinha apostando nos lenços na cabeça pelo menos desde 2017, lembra Mariana Santiloni, da WGSN, maior birô de tendências do mundo.

“É um acessório cíclico, está sempre por aí, não chega nunca a desaparecer completamente. Vira e mexe, está de volta ao palco”, diz Caldas.

A bandana tem origem na Índia, com forte influência persa. Ela vem de um tempo antigo em que panos em cabeças femininas tinham a função pudica de cobrir os cabelos das mulheres, historicamente considerados eróticos em diversas culturas, conta João Braga, professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado, a Faap.

Com o tempo, a peça foi se alastrando pelo mundo e ganhou novos significados à medida que as mulheres ocupavam novos espaços. No oeste americano do século 19, era usada como proteção da poeira do deserto. Na primeira metade do século 20, com as mulheres indo para as fábricas por causa das guerras, a bandana servia de proteção e ganhou um siginificado de força feminina —não é a toa que mulher do cartaz “We Can Do It” usa a peça, lembra Braga.

Cartaz 'We Can Do It', da Segunda Guerra Mundial, com a personagem Rosie the Riveter - AFP

Até que chegam os hippies, que nos fim dos anos 1960 solidificam o imaginário que a bandana tem hoje no Ocidente. O modo de vestir daqueles jovens americanos que se opunham à Guerra no Vietnã era marcado pela valorização do artesanal e da simplicidade e pela ligação com a cultura indiana.

Logo a bandana passou a incorporar um imaginário de rebeldia e ativismo, que perdura até hoje, fruto dessa geração paz e amor. “Nos anos 1990 e 2000, ela perdeu um pouco dessa conotação e virou mais um objeto de moda jovem e nem tanto ligado a rebeldia”, afirma Caldas, o sociólogo fashionista. "E é justamente essa faceta rebelde que é retomada agora.”

Não por acaso, já que “a grande marca dos anos 2010 é o ativismo, com os movimentos feministas e antirracistas". "É nesse caldo de cultura em que a bandana volta com mais força.”

Mas no BBB 21, uma edição marcada pela presença do discurso ativista, não são as participantes mais assumidamente militantes que têm aderido à moda. Um exemplo é a atriz Carla Diaz, que levou cinco lenços para seu confinamento em Curicica, no Rio de Janeiro. Ela inclusive tirou suas fotos oficiais de divulgação do programa usando uma bandana.

Keh Correia, stylist de Diaz, diz que a atriz sempre teve lenços e bandanas no armário. O estilo da ex-chiquitita não tem muito a ver com o ativismo dos hippies, porém. "Carla sempre fez mais o estilo moderninha chique", conta Correia. “Ela sempre falou que são as peças mais democráticas que as mulheres podem ter. Sem falar que é um acessório acessível. Você encontra em qualquer lugar até por R$ 5.”

Por isso, há também quem associe o uso do adorno com a economia desacelerada em que vivemos. Para João Braga, o aspecto artesanal da peça tem a ver com o momento de crise —econômica e de saúde mental— em que vivemos. “Fazer uma bandana pode ser inclusive uma forma de terapia ocupacional e uma forma de ganhar um pouco de dinheiro com artesanato.”

Para provar seu ponto, Braga resgata outra tendência. “Antes da bandana, a moda desse verão foi o tie-dye”, tecidos tingidos de forma artesanal e que têm um aspecto psicodélico, ou seja, em total sintonia com a moda hippie.

Mariana Santiloni, da WGSN, lembra do chamado “efeito batom”, que é definido como a disposição de consumidores para comprar, durante retrações econômicas, produtos de beleza mais baratos, mas com maior impacto visual. “Durante a crise de 2008, o cinto foi o item. Agora durante a pandemia os lenços ganharam esse destaque.”

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