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Anna Virginia Balloussier

Reduzir Karol Conká a monstro mostra miopia de parte da esquerda

Canceladores das redes sociais preferem repetir os erros cometidos dentro do BBB a aprender com eles

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Hannah Arendt criou o conceito de banalidade do mal ao perceber que os autores dos crimes mais bárbaros podiam ser homens banais, pessoas como eu e você —e não o bicho-papão que gostamos de projetar neles. Porque monstrualizar essas figuras vira uma barreira sanitária: só uma criatura maléfica comete tamanha vilania, enquanto você, do outro lado da corda, seria incapaz disso.

Com a exceção de que, dependendo do contexto, a maioria de nós poderia, sim, estar do lado errado da história. Não nos tocaríamos disso na hora, é claro. Mas quando todos a nossa volta se comportam da mesma forma, é mais fácil do que admitimos nos deixar levar pela manada.

Pois é, a que ponto chegamos —começar um texto sobre o BBB 21 evocando a filósofa judia que tentou entender como um batalhão de pessoas comuns pôde compactuar, no mínimo com seu silêncio cúmplice, com algo que nos parece tão evidentemente perverso quanto o nazismo. Valeu, Boninho. Exatamente o tipo de entretenimento escapista que o Brasil precisava.

Karol Conká e Lucas Penteado - Fabio Rocha/Globo

Antes que alguém me enquadre na Lei de Godwin: não, não vou comparar ninguém da "casa mais vigiada do Brasil" a Hitler. Pelo contrário.

A turma liderada por Karol Conká vem acumulando mais erros do que estalecas nesta edição, da xenofobia contra a paraibana Juliette ao bullying inclemente contra Lucas, o ex-brother que pediu pra sair. Ganharam, aqui fora, o apelido de gabinete do ódio. Mas reduzi-los a monstros —e o tanto de memes em que Conká é retratada como o belzebu em pessoa não me deixam mentir— mostra que parte da esquerda não tem espelho em casa.

Uma novidade para o universo BBB é esse comportamento intolerante partir de uma galera alinhada a lutas progressistas e que age como se fosse a fada mais sensata do condado.

Quando começaram a cancelar Lucas, apegaram-se à ideia de que ele fez por merecer. Lucas, afinal, havia proposto uma aliança dos participantes negros para excluir os brancos, o que de cara incomodou aquele que tinha por ídolo lá dentro, Projota.

O rapper foi até ele o aconselhar sobre "os papos tortos": como homem negro filho de uma mulher branca, casado com outra branca, pai de uma criança branca, preferia pregar "a busca pelo respeito por nós, pela igualdade". Não aplicou o próprio discurso com Lucas, tornando-se um de seus carrascos no confinamento.

Conká, a princípio uma aliada, também se irritou quando Lucas bebeu demais numa festa e fez mais de uma sister chorar: “Você não vai encurralar as meninas na parede, não vai desestabilizar as meninas". Dali em diante, faria de tudo para ela própria encurralar e desestabilizar o colega.

A sanha canceladora do grupo, contudo, logo se voltou contra ele. Cenas do Lucas excluído, fragilizado, ridicularizado até por um suposto bafo ("esse mau hálito é de ruindade", disse-lhe Conká) o reposicionaram na posição de vítima.

Se não fosse o ranço que meia casa nutria pelo brother renegado, teria a psicóloga Lumena o acusado de orquestrar um golpe de marketing ao beijar Gil, incapaz de enxergar ali um irmão que se assumiu bissexual num Brasil hostil a corpos pretos LGBTI? A má vontade seria a mesma se o beijo partisse de Projota ou Nego Di?

Veio de João Luiz, um dos competidores mais discretos desta temporada, um lampejo de lucidez. "Falei para ninguém julgar em menos de 20 minutos o que acabou de acontecer", ele disse depois de Lucas ser cobrado pelo romance com Gil.

Não é o que as redes sociais mais fazem? Julgamentos sumários realizados num curtíssimo espaço de tempo, com base em algumas cenas recortadas para escancarar o pior de uma pessoa? Vale lembrar que Lucas foi alvo da fúria popular antes, pelo que disse dentro da casa e pelo que foi acusado fora dela —uma ex-namorada registrou um boletim de ocorrência contra ele por uma suposta violência doméstica que ele teria praticado em 2020, episódio pouco evocado agora que ele é um herói, e não convém apontar quaisquer fissuras nessa imagem.

Cancelar os canceladores, e para isso recorrer ao mesmíssimo expediente deles, virou a alegria de viver de muita gente. É aí que mora o perigo. A banda lacrativa da esquerda falha ao reproduzir o senso de superioridade moral que Conká e companhia ostentam no jogo. Poderia usar o BBB 21, uma vitrine de tudo o que há de podre na tal cultura do cancelamento, como uma bem-vinda autocrítica. Mas não: prefere eleger vilões e, assim, afastar qualquer possibilidade de se ver refletida neles.

Claro que existe um regozijo muitíssimo humano em ver o apontador de dedo ter o dedo apontado para ele. Também é razoável esperar que atos tenham consequências, o que no caso do reality show se traduz na rejeição do público e, sobretudo para participantes famosos, na perda de contratos polpudos.

Humanizar alguém não significa passar pano para atitudes condenáveis. Daí a transformar o BBB num duelo entre o bem e o mal é exatamente a matéria-prima do cancelamento.

Ninguém precisa tatuar o nome de Karol Conká no antebraço para conceber que ela também carrega marcas que, se não justificam, ajudam a explicar a mulher que o Brasil hoje ama odiar. Cantora e mãe solo de um rapaz de 15 anos, ela contou a Gil que sua mãe passava um dia inteiro sem falar com ela. Deu a entender que era uma espécie de corretivo. “Um dia, oito horas excluindo e ignorando ele [o Lucas] é bom, porque aí o cara pensa. Eu já fui ignorada por horas, minha mãe me ensinou assim", contou na primeira semana do programa, num papo que tiveram na despensa.

Só que adicionar nuances à sua história não é conveniente para a narrativa da "Karol Kobra", a "Karol sem Koração". Não há margem para dúvidas, só certezas.

Conká ganhou do público o apelido Jaque Patombá, um trocadilho com sua música "Tombei", na qual canta o verso "já que é pra tombar, tombei". É a ruína dela que a massa raivosa deseja agora. Amanhã, o monstro pode ser você. Se organizar direitinho, todo mundo tomba no fim.

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