Acidente que matou músicos dos Mamonas Assassinas acontecia há 25 anos

Membros da banda que sacudiu o bom-gosto nos anos de 1990 sofriam com queda de avião em 2 de março de 1996

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Rio de Janeiro

Há exatos 25 anos, em 2 de março de 1996, aconteceu o acidente que matou os integrantes dos Mamonas Assassinas, a banda que sacudiu o bom gosto.

O grupo, formado pelos músicos Alecsander Alves, Sérgio Reoli, Alberto Hinoto, Julio Rasec e Samuel Reoli fez sucesso na década de 1990 e se tornou um dos nomes mais famosos da música brasileira. Os músicos morreram juntos, após um acidente aéreo na Serra da Cantareira, em São Paulo, que chocou o país.

No texto abaixo, escrito pela jornalista Anna Virginia Balloussier, da Folha, em 2016, há a trajetória do grupo e o que levou os Mamonas a fazerem tanto sucesso mesmo após seu fim.

Oito meses. A carreira dos Mamonas Assassinas durou só isso, interrompida pela morte precoce de sua trupe, num acidente de avião há 20 anos.

Por que falamos deles até hoje? Quem viveu na década de 1990 sabe que a trupe liderada por Alecsander Alves, o Dinho, com roupas que homenageavam de “Chapolin” a “Star Trek”, encarnou com maestria o espírito de escracho de um país saído só dez anos antes da ditadura militar.

O primeiro e único disco, que tinha apenas 39 minutos e oito segundos e trazia a banda sob o desenho de grandes seios —já voltaremos a eles—, vendeu 3 milhões de cópias. Os cinco garotões na casa dos 20 anos, a maioria ex-office boy em Guarulhos, em São Paulo, estavam por todos os cantos, seja convidando o Brasil "para uma tal de suruba", no punk-fado "Vira-Vira", seja tomando as dores do ciborgue de “andar erótico” que se transforma num “ato cirúrgico”, na sci-sofrência de “Robocop Gay”. Ambas onipresentes nas festinhas infantis. Ah, anos 1990.

O ano em que estouraram, 1995, foi também o primeiro de Fernando Henrique Cardoso na Presidência. Bill Gates lançava seu Windows 95, e a Globo batia recordes de audiência com “A Próxima Vítima”. “Era impossível pensar que os Mamonas conseguiriam fazer sucesso neste grau”, diz Carlos Lombardi, que assina o roteiro da série de TV.

Se não impossível, no mínimo improvável. Afinal, Dinho, Júlio (o ruivo), Bento (com ascendência japonesa e cabelo rastafári) e os irmãos Sérgio e Samuel não tinham pedigree musical. Cresceram num conjunto habitacional de Guarulhos, o parque Cecap.

A aposta de que decolariam com o primeiro projeto musical, batizado Utopia, não passou disso aí. Venderam mal, uns cem discos. Em 1992, conheceram Rick Bonadio, produtor que também revelaria outras máquinas de hits, como Charlie Brown Jr. e CPM 22 no topo.

Após cogitarem se chamar Os Cangaceiros do Teu Pai e Tangas Vermelhas, o grupo foi de Mamonas Assassinas do Espaço —nome depois reduzido. Chegaram rápido ao topo.

Cobravam R$ 70 mil por show, uma fortuna para a época. Tocaram em 24 estados e Brasília (menos Acre e Tocantins). Ganharam o Troféu Imprensa de melhor música em 1995. “Sabão Crá-Crá” foi tema de André Marques, que fez o Mocotó, em “Malhação”, na segunda temporada do novo fenômeno da Globo.

Após o acidente, o pai de Dinho, Hildebrando Alves, leiloou por R$ 95 mil a famosa Brasília amarela que aparece no clipe de “Pelados em Santos”, declaração à “pitchula” do cabelo “da hora”. “Me arrependi, porque a pessoa não cuidou direito”, diz.

Em 2016, recomprou peças do carro –que, segundo ele, foi desmontado num ferro-velho. Então as Incorporou numa nova Brasília, estacionada em sua chácara.

O modelo original pertencia ao avô de uma ex-namorada de Dinho. Corretor de imóveis que precisava pegar muita estrada, Hildebrando sempre gostou da marca. “E, sabe como é, carro preto sujava muito, branco ninguém queria, prata não existia. A [cor] mais cheguei era a amarela.”

Já a origem de outro totem mamonesco, os peitos na capa do álbum, é incerta. A modelo Mari Alexandre, de 41 anos, conta que os Mamonas disseram a ela que seriam inspirados numa foto sua da Playboy. “Vou te falar, são iguais aos meus. Fiquei honrada.”

Amigo da banda “desde moleque”, André Oliveira, o Ralado, 43, defende que o busto era de outra. “Os peitos de que você está falando são da Nereide [Nogueira, ex-auxiliar de Milton Neves na TV].”

Outra polêmica envolve Marco Feliciano. Hildebrando ameaçou entrar na Justiça contra o pastor e deputado, do PSC, o Partido Social Cristão, de São Paulo. Ele o queria acionar por um vídeo de 19 anos atrás, em que o evangélico diz que “Deus fulminou aqueles que tentaram colocar palavras torpes na boca das nossas crianças”. Desistiu porque “Feliciano tem foro privilegiado”, afirma.

“A vida e a morte são atos de Deus”, disse o pastor, em 2016. O troco, para Hildebrando, veio quando Feliciano foi abordado por jovens num avião, que cantaram “Robocop Gay” para protestar contra projeto de lei para legalizar a “cura gay”, defendido pelo parlamentar. O vídeo dessa cena, de 2013, fez barulho na internet.

Evangélica da Assembleia de Deus, a mãe de Dinho lembrou em testemunho na igreja (gravado e publicado na internet) que o filho faria 25 anos três dias após a tragédia. “Na passagem do ano de 1995, [o filho] cumprimentou a todos, afastou-se e por mais de 40 minutos e, com as mãos erguidas, buscou ao Senhor em oração”, narra Célia Alves.

Na contracapa, os Mamonas dedicam o CD a Deus, famílias, amigos, Gozales (“mexicano clandestino que arrumava nossos quartos no hotel”) e Santos Dumont, “que inventou o avião, senão a gente ainda tava indo mixar o disco a pé”.

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