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Clima de 'vai que' guia teoria da conspiração do podcast 'Wind of Change'

Produção busca elo entre a música, hino do fim da Guerra Fria composta pela banda Scorpions, e um plano da CIA

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Wind of Change

  • Onde Disponível no Spotify
  • Produção Crooked Media

Hino da reunificação alemã e do fim da Guerra Fria, “Wind of Change” foi escrita num caderninho estampado com o Mickey Mouse pelo vocalista dos Scorpions, Klaus Meine, depois de uma viagem da banda a Moscou, em 1989. Pelo menos, essa é a história oficial, contada há mais de 30 anos pelo cantor alemão de heavy metal. Mas e se a canção na verdade tiver feito parte de um plano da CIA para acelerar a queda da URSS?

“Isso soa estúpido”, diz uma jornalista russa quando confrontada com a teoria de conspiração que guia o podcast "Wind of Change", do jornalista americano Patrick Radden Keefe.

Integrantes da banda Scorpions, durante show do Festival Rock in Rio, no Rio de Janeiro (RJ), em 1985 - Renata Falsoni/Folhapress

A história é a seguinte –o repórter ouviu de um amigo, que ouviu de um ex-agente da CIA, que ouviu de outro agente, durante seu treinamento, que a música foi composta pela agência de segurança americana.

No primeiro episódio, que é um apelo de Radden Keefe para que o ouvinte acredite que ele não é doido nem terraplanista por cogitar que uma agência de inteligência possa ter seus próprios compositores e letristas de heavy metal, o repórter diz que quando ouviu a história pela primeira vez, reagiu como a colega russa.

Mas aí ficou pensando. E se?

É esse clima de “vai que” que permeia toda a narrativa, em que a busca pela verdadeira origem de “Wind of Change” é o pano de fundo para histórias mais interessantes sobre a Guerra Fria, o funcionamento da CIA e a vida atrás da Cortina de Ferro.

Em oito episódios, Radden Keefe entrevista ex-agentes da agência americana, vai à Ucrânia assistir a um show da banda alemã, conta a história do insólito festival de rock organizado por um ex-traficante de drogas —que levou à Moscou soviética um lineup que misturou Bon Jovi, Black Sabbath, Mötley Crue e, claro, os Scorpions—, vai a ex-clube de rock montado pela KGB e explica detalhadamente como funciona a vida de quem deixa a CIA.

No caminho, vai elencando pistas, digamos assim, sobre a tese original. O que significa o fato de um colecionador de bonecos de ação ter publicado na internet que os Scorpions ajudavam a CIA durante shows no leste europeu? E por que a agência respondeu aos pedidos do Freedom of Information Act, equivalente americano à Lei de Acesso à Informação, sobre seu relacionamento com a banda com “não podemos confirmar ou negar”?

Um dos pontos altos da produção é a interação em estilo “good cop, bad cop” de Radden Keefe com o amigo Michael, a fonte original da tese sobre a CIA. Enquanto o jornalista oscila entre acreditar e concordar com a fixer russa achando aquilo tudo uma maluquice, Michael passa o podcast pilhado, insistindo que a história que ouviu de uma fonte da CIA há uma década é verdade.

Em seus 348 minutos, o podcast lembra uma versão espelhada da série “The Americans”, contada do ponto de vista de agentes da KGB. Isso é um elogio, mas às vezes o ponto de vista americano pesa negativamente.

Disponível apenas em inglês, "Wind of Change" é claramente feito pensando apenas nos ouvintes dos Estados Unidos. Em vários momentos, o narrador trata como exóticos os fãs da banda, que é relativamente pouco conhecida nos Estados Unidos. “Sério?”, pergunta em tom incrédulo à produtora russa quando ela diz que, claro, conhece os Scorpions, grupo que vendeu mais de 100 milhões de discos ao redor do mundo.

E apesar de falar sobre métodos pouco ortodoxos da CIA para obter informações, Radden Keefe trata a teoria de conspiração como algo que, se verdadeiro, seria positivo para a imagem da CIA. Quando a russa diz que ele pode estar na verdade fazendo propaganda da KGB é que ele cogita a possibilidade de que talvez a história não pegue tão bem assim.

A qualidade da narrativa, porém, não chega a ser comprometida por essas passagens. "Wind of Change" só tem um outro probleminha para quem não for fã da balada que Radden Keefe chama de cafona no começo do podcast. É que é impossível ouvir os episódios e não passar as duas semanas seguintes cantarolando baixinho, forçando um leve sotaque alemão, “I follow the Moskva, down to Gorky Park/ listening to the wind of change”.

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