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Exílio de Niemeyer em Paris detonou a fase alienígena do arquiteto por trás de Brasília

Livro mostra como política e cultura ajudaram a estabelecer trajetória internacional do modernista durante a ditadura

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Auditório da sede do Partido Comunista Francês, em Paris, obra de Oscar Niemeyer

Auditório da sede do Partido Comunista Francês, em Paris, obra de Oscar Niemeyer Leonardo Finotti

São Paulo

Mais conhecido e celebrado arquiteto do país, Oscar Niemeyer teve uma carreira prolífica também no exterior. De 1962 em diante, já consagrado por Brasília, Niemeyer começa a desenvolver projetos internacionais —no Líbano, nos Estados Unidos, em Israel— e se torna uma espécie de porta-estandarte do modernismo brasileiro.

Mas é em 1965 que o salto se alarga. Naquele ano, após ver a Módulo, revista que fundou e na qual veiculava suas ideias políticas e seu trabalho, proibida pelos militares, Niemeyer apontou para a França.

Porém, se um fato parece motivar o outro, isso é só em parte verdadeiro. O país europeu acolheu o arquiteto comunista assumido, mas quem chegou a Paris não foi um militante pego de surpresa. Antes de ser impelido a deixar o Brasil, aos 57 anos, no auge do reconhecimento, ele já vinha preparando o terreno.

Os arranjos que fez para ampliar seus domínios, acionando contatos no meio político e cultural, são narrados em “Oscar Niemeyer en France - Un Exil Créatif”. O livro, como indica o nome, centra a atenção na trajetória do arquiteto na França, uma “plataforma importante” para os planos de Niemeyer, como afirma Vanessa Grossman.

Brasileira, a arquiteta e pesquisadora assina com o historiador Benoît Pouvreau a publicação, que sai agora pelas Éditions du Patrimoine. Por ora, em francês.

O primeiro grande movimento de Niemeyer para se estabelecer na França foi conceber e financiar uma exposição de sua obra no Museu de Artes Decorativas —então conhecido pelo nome de Ucad, a União Central de Artes Decorativas—, que ficava numa ala do Louvre.

Em junho de 1965, a mostra “Oscar Niemeyer, Architecte de Brasília” foi inaugurada, mostrando não só a capital de Juscelino Kubitschek —que no vernissage representou o arquiteto, impedido de viajar por um acidente— mas também projetos que vinha desenvolvendo no exterior.

O momento seguinte de sua entronização deveria muito ao acaso. Niemeyer chegou a Paris no fim de agosto, poucos dias antes da morte de Le Corbusier. A coincidência estabeleceu para o brasileiro um lugar de sucessor do papa franco-suíço do modernismo, observam Grossman e Pouvreau no livro.

foto preto e branca mostra Le Corbusier (à esq.) e Niemeyer; os arquitetos trabalharam juntos em projetos no Brasil e nos EUA; Le Corbusier usa paletó e gravata borboleta, é calvo e tem óculos redondos, enquanto Niemeyer, bem mais jovem, usa camisa com paletó sem gravata; ao fundo vê-se um avião
Le Corbusier (à esq.) e Niemeyer; os arquitetos trabalharam juntos em projetos no Brasil e nos EUA - Reprodução

Munido de uma autorização excepcional para exercer a arquitetura no país —concedida pelo governo francês em 1967, com o intermédio do escritor e crítico de arte André Malraux, que era ministro da Cultura—, manteria um escritório parisiense de 1972 até 1981. Ele se tornou então "um expatriado voluntário e solidário, poupado, no entanto, das durezas do exílio", como escrevem os autores.

O estudo do “capital simbólico” amealhado por Niemeyer permeia a obra. Os projetos —realizados ou não— do arquiteto na França são apresentados em relação à conjuntura histórica que os fundamenta. O contexto político é bem explicado e, assim, embora haja um notável trabalho de arquivo embasando a publicação, ela vai bem além do portfólio arquitetônico.

Boa parte da análise passa pela ligação de Niemeyer com o PCF, o Partido Comunista Francês, ao qual é assimilado com o auxílio de relações pessoais, como editores de revistas especializadas e outros arquitetos ligados ao partido.

Grossman, que é professora no departamento de arquitetura na TU Delft, estudou em profundidade os elos de arquitetos com o PCF —nomes como Jean Deroche e Paul Chemetov, que trabalhariam com Niemeyer na nova sede do partido, encomendada ao brasileiro em 1966.

Naquele momento, o PCF “começava a questionar o dogma do stalinismo”, afirma Grossman, e Niemeyer representava a mudança. O correligionário vindo dos trópicos carregava, ao mesmo tempo, a linguagem universal do modernismo e o olhar regional. A combinação, plasmada em seu traço singular, significava o meio-termo que o partido queria assinalar em seus próprios rumos.

A longa aventura do arquiteto com a sede do PCF —que teve três etapas e só se concluiu em 1980— foi um dos capítulos da tese de doutorado de Grossman na Universidade Princeton e originou um livro independente em 2013, ainda sem publicação em português.

Segundo a pesquisadora, a sede é "um alienígena" no entorno parisiense. "Uma das primeiras coisas que ele notou era que Paris não tinha prédios modernos, não tinha arranha-céus", e ele leva, para esse projeto e outros na França, uma noção constante em sua obra, que é a de criar "vazios em volta".

Mas não só vazios. No projeto em questão, Niemeyer parece ter mesmo honrado a tal marca alienígena, elevando à última potência os arroubos futuristas que só ensaiava na época de Brasília. O auditório ali, com uma cúpula forrada de lâminas metálicas que refletem o verde do carpete, entradas e saídas emolduradas por arcos de concreto e fileiras de mesas que reverberam as famosas curvas do arquiteto, se tornou espaço cult a ponto de figurar em filmes de corte fantástico, como "A Espuma dos Dias", de Michel Gondry.

Outro aspecto importante relativo à sede do PCF e destacado no livro é que, ali, foi a primeira vez que Niemeyer se dedicou a projeto de mobiliário, criando poltrona e pufe que repousam sobre uma lâmina de aço inox.

Niemeyer trabalhou de graça no projeto do partido, mas foi contratado para outros no departamento de Seine-Saint-Denis, coração da “banlieue rouge”, o cinturão vermelho na periferia de Paris. A Bolsa do Trabalho de Bobigny, capital do departamento, é um dos edifícios dessa lista, que inclui também a sede do jornal L’Humanité.

Mas a conexão comunista garantiria a Niemeyer trabalho em outras regiões, como em Le Havre, cidade portuária onde projetou a Casa de Cultura conhecida como “vulcão” por sua forma.

vemos uma rampa curva que sobe em direção à borda superior esquerda da foto; ao fundo, uma construção circular, branca
Centro cultural projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer na cidade portuária de Havre - Silvio Cioffi/Folhapress

Sua proximidade com a esquerda operária, no entanto, não afastou convites vindos de outras direções. Um dos capítulos do livro é dedicado às casas que Niemeyer projeta na Côte d’Azur, como a Villa Mondadori, para o proprietário do grupo editorial italiano, cuja matriz, em Milão, também conceberia.

Da mesma forma, a obra aborda edifícios comerciais, como a sede da Renault em Boulogne-Billancourt encomendada ao arquiteto em 1968. Ele conseguiria, como frisa Grossman, trabalhar ao mesmo tempo para os patrões e para aqueles que organizavam as greves.

Mas a história do “exílio criativo” de Niemeyer não é apenas de sucessos. “Niemeyer teve uma série de frustrações com os projetos”, resume Grossman.

Muitos deles ficaram no papel, entre os quais os de habitação social, tipo de projeto que Niemeyer não desenvolveu no Brasil e que também merecem um capítulo da obra.

Quando Niemeyer é convidado para desenvolver ZUPs e ZACs —zonas de urbanização prioritária e de desenvolvimento planejado, segundo os acrônimos em francês—, já não se admitiam soluções padronizadas, replicáveis a despeito da história do território.

Ascendia a sociologia urbana, com o nascimento do termo “direito à cidade”, cunhado por Henri Lefebvre. É a época da crítica dos “grands ensembles”, os conjuntos habitacionais feitos em massa para as massas.

Grossman defende que a visão de Niemeyer é muito distante da “concepção abstrata “ dos “grands ensembles”, levando em consideração a paisagem e contemplando equipamentos de cultura e lazer.

Nada disso serviu para que ele escapasse aos críticos, que associavam os edifícios em lâmina dos conjuntos habitacionais ao credo funcionalista —cujo grande nome era, como se sabe, o de Le Corbusier.

Da mesma forma como herdara o trono, diz a pesquisadora, Niemeyer “herdou esse fado”. “Foi uma janela que se abriu e se fechou”, diz ela.

Oscar Niemeyer en France - Un Exil Créatif (Oscar Niemeyer na França - um exílio criativo)

  • Quando Lançamento em 4 de março; à venda em sites de livrarias francesas
  • Preço € 25 (208 págs.).
  • Autor Vanessa Grossman e Benoît Pouvreau
  • Editora Éditions du Patrimoine.

Projetos menos conhecidos de Oscar Niemeyer na França

Selecionados e comentados por Vanessa Grossman.

Realizados

  • Residência Mondadori, 1968 (encomenda), 1971-1972 (realização)

Em Saint-Jean-Cap-Ferrat (a leste de Nice), Niemeyer concebeu uma residência originalmente encomendada pelo casal Giorgio e Nara Mondadori através da colaboração com o arquiteto Pierre Goujon, o renomado paisagista italiano Pietro Porcinai e, uma vez mais com Athos Bulcão.

Partindo do desejo de preservar o “magnífico terreno" no sul da França, a solução formal propõe uma forte separação dia-noite através de espaços dispostos sob uma laje esbelta e sinuosa ecoando a piscina, evocando o seu projeto para a Casa das Canoas.

  • Bolsa Departamental do Trabalho de Bobigny, 1967 (encomenda), 1972-1978 (realização)

A Bolsa de Bobigny é um dos projetos encomendados a Niemeyer pelos comunistas franceses, simbólico pois visa a representar o trabalho na chamada "banlieue rouge" de Paris.

É um programa cuja origem se inscreve na história do movimento sindical francês desde o fim do século 19 como um instrumento de organização da classe operária.

Como em seu projeto para a sede do partido comunista francês em Paris, a solução consiste em dois edifícios, que em Bobigny são separados podendo se associar, mesmo tendo acessos independentes.

Em alusão à plasticidade e ao dinamismo da concha acústica abrigando a sala de conferência, o conjunto ficou conhecido em Bobigny como “albatroz.”

Não realizados

  • Zona de Urbanização Prioritária do Plateau Napoléon, Grasse, 1966-1972

Desenvolvida a partir de 1965, a ZUP foi o primeiro projeto do tipo que Oscar Niemeyer projetou em território francês.

Apoiada pelos então Ministérios da Construção e de Assuntos Culturais, esta ZUP “excepcional” proposta ao prefeito de Grasse logo atraiu a atenção de diferentes instâncias administrativas.

Em 1966, Niemeyer apresentou um anteprojeto no qual se podia ver a influência de sua proposta para o Negev (1964), em Israel, seguindo princípios de “vida compacta” e de “integração programática,” através do projeto de edifícios residenciais em altura.

Para Grasse, Niemeyer reciclou até mesmo tipologias em arcadas e diagramas de deslocamento ideais para o pedestre propostos para o Negev.

A preeminência dada à circulação de pedestres define um partido urbanístico que Lauro Cavalcanti qualifica como “anti-Brasília”: complexos urbanos onde a natureza tem seu lugar, mas não o automóvel.

A premissa se traduziu em três blocos curvos de apartamentos de 16 andares “que se harmonizam plasticamente entre si criando uma área comum, um parque, no qual se situam equipamentos diversos (creches, escolas, clubes, e centros esportivos) e residências unifamiliares de férias.

Iniciou-se então uma longa revisão por várias comissões, que levantaram muitas questões, incluindo a natureza mista da operação, entre habitação social e sazonal. Mais preocupado com a renovação do centro antigo da cidade de Grasse, o prefeito confiou, num ato de pragmatismo, o plano de urbanismo ao arquiteto Claude Harlaut, que já era o arquiteto associado a Niemeyer para essa operação.

  • Sede da Régie Renault, 1969-1972

No outono de 1968, Pierre Dreyfus, diretor geral da Régie Nationale des Usines Renault, fez uma visita a Niemeyer. A empresa ainda não tinha sedeA e em Boulogne-Billancourt.

Conhecida como “fortaleza dos trabalhadores” desde o período pós-Guerra, a Régie continuou sendo um importante local de agitação político-laboral mesmo após 1968.

A esse projeto se associaram Claude Renard, responsável pelo departamento de “pesquisa, arte e indústria” da empresa desde 1967, e o arquiteto Pierre Vigneron, autor de numerosas filiais da empresa em toda a França.

Além da sede da empresa, o programa original compreendia um hotel, um salão de exposições, um museu automobilístico, um auditório, um restaurante para funcionários e “garagens-silo.”

Em 1969, o projeto tomou a sua forma final, compreendendo somente dois edifícios: a sede, com 25 pavimentos, e o hotel, com 18. As duas entidades consistiam em blocos curvos, revestidas por envidraçamento escuro, marcados pela verticalidade de colunas longas, brancas e destacadas.

Além de uma lagoa ligando os edifícios, Niemeyer projetou uma rede rodoviária que, segundo o arquiteto, deveria conferir “esse aspecto dinâmico que caracteriza o automóvel e a sua presença na vida moderna.”

Niemeyer desenvolveu assim o tema da rampa, que lhe é caro, e cujo resultado apresenta certa afiliação programática com Lingotto (1922), um ícone pioneiro do gênero, projetado em Turim para a Fiat pelo arquiteto Giacomo Mattè Trucco.

Porém a descentralização industrial da região parisiense acabou mudando os rumos do projeto. Diante da dificuldade em obter a autorização para a construção da nova sede segundo a proposta de Niemeyer, a Régie acabou atribuindo o projeto a Pierre Vigneron, que concebeu, sem a participação do arquiteto brasileiro, uma solução mais simples, a partir de um programa bastante reduzido.

  • Torre em La Défense, 1971-1974

Marcado pelo Plan Voisin de Le Corbusier, Niemeyer se dizia surpreso pela ausência de arranha-céus na Paris dos anos 1960.

A oportunidade de ser o autor de um deles surgiu na época em que o seu projeto para a Renault estava sendo descartado. A torre de Cités Unies em La Défense lhe foi encomendada graças à sua rede de colaboração comunista.

A ideia da torre surgiu a partir de 1972, da intenção da Federação Mundial de Cidades Unidas [FMVJ, no acrônimo em francês] de construir uma nova sede. Fundada em Paris em 1957, a federação era uma associação de autoridades locais de mais de 80 países da Europa, África e América Latina.

No programa da torre, a entidade ocuparia apenas 1 dos seus 45 andares, sendo o restante do espaço destinado a restaurantes, bancos, cinemas, e especialmente a salas de escritório para aluguel ou compra por outras organizações.

Os estudos preliminares de Niemeyer, de julho de 1972, já revelavam a ideia de uma torre tripartite com terraços intermediários apoiados por dois núcleos laterais concentrando as circulações verticais, em seguida desenvolvida em uma maquete exibida em exposição da obra de Niemeyer no Centre Pompidou em 1979.

A inspiração veio possivelmente do arranha-céu da Bolsa de Valores de Montreal, composta de quatro partes distintas, projetada por Pier Luigi Nervi, já que Niemeyer consultou, para o projeto, o renomado engenheiro italiano no final de 1972. Mas Niemeyer já havia desenvolvido um partido análogo no seu projeto para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 1965.

A crise do petróleo de 1973 acabou por comprometer a realização do projeto em La Défense, que jamais saiu do papel. Ainda assim, a sua repercussão talvez tenha atravessado fronteiras temporais e geográficas: duas torres concebidas por Norman Foster —a sede do Commerzbank em Frankfurt (1991-1997) e a Torre Cepsa em Madri (2004-2008)— apresentam grande afinidade com o projeto de Niemeyer.​

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