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'O Consentimento' mostra como pedofilia de escritor passou impune na França

Livro de Vanessa Springora mexeu com as bases do mundo literário francês ao narrar abusos sofridos por ela

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boneca realista com o corpo completamente desconstruído; a cabeça solta, a perna esquerda sobre os dois braços, a perna direita com o joelho dobrado

'E por que Haverias de Querer Minha Alma na Tua Cama', obra da artista Monica Piloni Divulgação

São Paulo

Vanessa Springora causou um terremoto no mundo literário francês, e também fora dele, em janeiro do ano passado, ao lançar seu primeiro livro, “O Consentimento”, que chega agora ao Brasil.

É a história dos abusos sofridos por ela nos anos 1980 numa relação com o escritor Gabriel Matzneff. Ela tinha 13 anos quando o conheceu, e ele, 50. Matzneff era então, e pelo menos desde os anos 1970, uma celebridade, lançando livros todos os anos e sendo convidado para programas de televisão dedicados à literatura —que têm grande público na França.

Determinante para a decisão de escrever sua história foi o prêmio Renaudot, um dos mais importantes da França, dado a Matzneff por um ensaio em 2013.

“Foi uma das coisas que me deram coragem. Sempre houve a vontade de escrever esse livro, mas também o medo das consequências sobre a minha vida profissional e pessoal. O prêmio foi decisivo, mas não somente, contribuiu também o fato de eu ter me tornado mãe, e ter acompanhado a adolescência de meu filho e de minha enteada”, diz ela, em conversa por vídeo.

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A escritora e editora Vanessa Springora, autora de 'O Consentimento' - JF Paga/Divulgação

O livro é escrito em primeira pessoa e no presente, mas Springora consegue rememorar seu estado de espírito na adolescência. Ela conta que as primeiras versões da história surgiram como um romance, uma ficção baseada em sua experiência em que buscava maquiar sua identidade e a do escritor.

Foi em 2014 que ela passou a escrever em primeira pessoa e conseguiu, segundo ela, se mostrar. “Até então não considerava que aquela era a minha história e acho que foi esse tom, mais justo e sincero, que tocou as pessoas. Era também mais coerente com meu projeto, que era me reapropriar de minha história, voltar a ser um sujeito depois de ter sido transformada em objeto pelas mãos e pelos escritos daquele homem.”

Hoje com 84 anos, Matzneff dedicou romances, ensaios e seus diários, que também eram publicados ano após ano, a falar de suas relações com meninos e meninas, incluindo viagens às Filipinas nas quais se beneficiava da prostituição infantil abusando de garotos de 11 anos. Ele chegou mesmo a publicar, em 1974, o ensaio-panfleto “Os Menores de 16 Anos”, no qual escreve “o que me cativa não é um sexo determinado, e sim a extrema juventude, a que se estende do décimo ao 16º ano”.

Springora, assim como outras garotas com as quais ele se relacionou, se tornou personagem de seus livros e era mencionada, sem sua autorização, em seus diários, lembrada como Vanessa S. ou V. S.

homem idoso usando casaco para chuva em cima de uma pedra com mar ao fundo
O escritor francês Gabriel Matzneff, na Itália, para onde foi após o lançamento do livro de Springora - Andrea Mantovani/The New York Times

Em “O Consentimento”, ela usa o mesmo método, e Matzneff aparece só como G. ou G. M. “Ele está perfeitamente reconhecível no livro, a ideia não era o esconder, mas usar o mesmo procedimento que usou comigo, que invisibiliza as vítimas. Ele usava meu nome, mas quando narrava coisas que eram maiores delitos perante a lei, usava apenas minhas iniciais”, diz ela.

“Foi uma forma de devolver na mesma moeda, porque é uma arma hipócrita, eu sabia que se tratava de mim ali e as pessoas ao meu redor também, isso não fazia com que me machucasse menos, mas permitia que ele escapasse da polícia.” Além disso, o fato de ele não ter um nome, diz, permite que seja visto como um personagem universal, que poderia ser qualquer outro, já que sua história não é a única do tipo.

O nome do livro veio em 2017, conta ela, depois que um tribunal francês aceitou as alegações levantadas pela defesa de um homem de 28 anos, acusado de estuprar uma menina de 11, segundo a qual a garota havia consentido com a relação. A pena dele, que poderia chegar a 20 anos, acabou sendo reduzida. “Foi escandaloso e revoltante”, diz. A França hoje discute a criação de uma lei que marque uma idade de consentimento sexual, abaixo da qual qualquer relação sexual seja tida como criminosa.

“Eu não tinha a ideia do consentimento enquanto estava com G. M., porque foi só entre meus 15 e 25 que comecei a ter a consciência de que havia sido vítima de abuso sexual. Eu pensava que havia consentido e que eu era a responsável, e não ele”, diz. “É preciso se interrogar sobre o consentimento, porque não dizer não não é a mesma coisa que dizer sim, e não é possível pôr em pé de igualdade uma criança e um adulto.”

O que fica claro, porém, no relato de Springora, é que todas as pessoas que podiam ter ajudado foram omissas ou mesmo concordaram com a relação, como sua mãe. À certa altura, ela chama o meio cultural e a época em que cresceu de complacentes. Houve, segundo ela, no espírito pós-Maio de 68, uma confusão na revolução dos costumes e no espírito libertário que possibilitou que oportunistas como Matzneff passassem impunes.

Além disso, o fato de os artistas serem vistos como semideuses, diz, faz com que nunca sejam julgados pelas leis. “Nós idealizamos os artistas, como se eles estivessem acima dos humanos e pudessem fazer coisas que nos são proibidas.”

O tempo que leva para que uma vítima de abuso se reconheça como tal é o que a impede, muitas vezes, de levar o caso à Justiça. Com Springora não foi diferente. “Não escondo que estava apaixonada e que tudo se passou sem violência física, mas foi um longo trabalho de terapia para entender as coisas”, diz. “Meu objetivo não é colocar Matzneff na cadeia hoje, mas promover uma reflexão sobre tudo o que se passou. Este livro é uma reparação histórica pela literatura, porque confronta os livros dele. É a minha forma de o denunciar.”

No dia seguinte à chegada do volume às livrarias, a polícia de Paris abriu uma investigação contra o escritor e lançou uma busca pública por vítimas e testemunhas de outros casos de abusos de Matzneff. Springora conta que, ao ser ouvida pela polícia na ocasião, disse a eles que chegaram atrasados 30 anos. “Quando eu tinha 14 anos, eles não fizeram seu trabalho”, diz. No livro, são narrados alguns momentos em que a polícia recebe denúncias sobre a relação da jovem com o escritor, e que não levam a nada.

Além disso, ele será julgado em setembro deste ano por apologia da pedofilia por uma corte especializada em assuntos de imprensa e liberdade de expressão em processo movido por uma associação de defesa de vítimas.

Como os fatos narrados em seus escritos já prescreveram, eles não servem como prova, senão apenas como contexto. A queixa se baseia nas declarações do escritor após o lançamento do livro na imprensa. Apesar disso, Springora diz que espera que a reprodução de trechos de suas obras por ocasião do julgamento possa relembrar às pessoas o que ele já disse.

“Nunca caracterizei como pedofilia a relação que tive com ele, porque eu tenho muito respeito pelas vítimas crianças e eu não era mais uma criança, embora não tivesse a maioridade sexual. O que vai ser interessante vai ser as pessoas lerem os trechos sobre suas viagens a países como Filipinas, onde tinha relações com crianças de 11 ou nove anos, o que ele conta, a forma como ele narra e os descreve.”

Suas obras, que continuavam a ser reeditadas por grandes editoras francesas, como a Gallimard, foram recolhidas das livrarias, um movimento com o qual Springora, que é editora, não concorda. “Sou contra a censura e, nesse caso, é um revisionismo, faz parecer que esses livros nunca existiram. Como editora, se eu recebesse aqueles escritos, jamais os publicaria, mas é uma escolha pessoal, ética, eu consideraria como apologia da pedofilia”, diz.

"Não me incomoda um personagem pedófilo em um romance, isso pode existir. Mas aqui não é uma questão moral, mas legal, a pedocriminalidade [nome dado ao crime da pedofilia na França] é condenada pela lei e o que ele faz é apologia de um crime", diz ela, para quem a chave autobrigráfica dos livros de Matzneff deixa claro não se tratar de ficção.

“Mas retirar os livros de circulação agora, depois de 30 anos, é hipócrita, tira do leitor a chance de ir a seus escritos para conferir por si o que conto no meu livro e exime os editores de assumirem sua culpa.” Ela diz que o ideal seriam edições comentadas dos livros, com prefácios e notas que os expliquem e os contextualizem. “É preciso lembrar que isso aconteceu. Talvez depois que ele morrer alguém se interesse em fazer edições históricas de sua obra, que serão aberrantes vistas com recuo.”

O Consentimento

  • Quando Lançamento dia 22/3
  • Preço R$ 44,90 (288 págs.)
  • Autor Vanessa Springora
  • Editora Verus
  • Tradutora Maria Alice Araripe de Sampaio Doria
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