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Poeta faz resgate lírico da força de ancestrais de sua América Latina

Obra do costa-riquenho Ignacio Carvajal resulta potente a partir do mix do inglês, espanhol e da língua maia k'iche'

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Marilene Felinto

​A poesia de Ignacio Carvajal, jovem costa-riquenho radicado nos Estados Unidos, surpreende como resultado de uma potente mixagem de três idiomas: inglês, espanhol e k'iche', língua maia de um dos povos nativos da Guatemala.

Ele estudou também português em uma universidade norte-americana. Munido de ferramentas tão funcionais para um poeta de talento —os tantos idiomas que aprendeu—, desenvolveu sua técnica poética na coletânea quase trilíngue "Plegarias" (2019).

A palavra espanhola "plegaria" significa "prece" ou "oração" em português. A verdade dos poemas de Carvajal é expressa mesmo pela estrutura ritmada, recurso de ladainhas, de litanias que repetem palavras e versos como reforço à invocação.

O escritor Ignacio Carvajal
O escritor Ignacio Carvajal - Divulgação

"Pray with me, mother,/ for the forgiveness that we need not/ for we're good people/ we're good people/ we're good people/we're good people" (reze comigo, mãe/ pelo perdão de que não precisamos/ porque somos gente boa/ somos gente boa/ somos gente boa/ somos gente boa).

A verdade de sua poesia encontra-se no chamamento em defesa do imigrante, do estranho em terra alheia, da gente não desejada, daqueles que falam baixo para que "não lhes ouçam a língua" clandestina, para que "não lhes retirem a bandeira e o tempo".

Carvajal, 34, conta que vive nos Estados Unidos por um acaso: "Meu pai veio para estudar, e eu acabei ficando para a faculdade e depois para a pós-graduação. Inglês não era uma escolha, mas uma necessidade. Cada vez mais entendo, porém, como o imperialismo teve tudo a ver com isso".

O poeta, que confessa em verso não ter fé nem crença em divindades —"y yo, que fe no tengo, ni deidades"—, faz, no entanto, um apelo à força da ancestralidade, da mais presente (a mãe, a irmã) à mais antiga, aos entes sagrados criadores do universo e também às entidades maléficas do mundo das superstições.

Transita de um idioma para o outro com naturalidade —modo de romper, com sua linguagem poética, as fronteiras criadas pela perversa geopolítica do mundo desenvolvido contra o indivíduo rechaçado, assombrado pela discriminação e ameaça de expulsão.

Conheci Ignacio Carvajal em um festival de literatura latino-americana em Houston, no Texas, onde a beleza e a força de seus poemas, espécie de apelo anticolonialista, premiados na ocasião, chamou a atenção.

Como exemplo, mostro aqui trechos do poema "Tukur", que tem o título mantido assim em k'iche', e que significa "coruja", mas escrito em espanhol e publicado na revista literária The Acentos Review.

Traduzi o poema como um exercício livre de tradução, cujo resultado o próprio Carvajal leu e aprovou. A partir da tradução, fui surpreendida com as semelhanças ortográficas e sonoras entre o termo "tukur", do k'iche', e "murutucu", sinônimo de "coruja" em português. Optei por traduzir "tukur" por "tucuruja".

"De um galho cinza no bosque

a tucuruja lança os faróis

de seus olhos sobre esta casa

onde moramos nós

e um persistente medo

de que nos ouçam a língua

de que nos tirem os cachorros

de que nos retirem

a bandeira e o tempo.

tucuruja

-ave-magia-agouro-palavra

(...)

intercede por nós

pede aos céus que nos concedam

um tempinho mais

nesta terra."

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, as variantes "murutucu", "murucutu" e "murucututu" são derivados do tupi "murukutu'tu" e dão nome a uma espécie de coruja que ocorre do México à Argentina, além de no Paraguai e em grande parte do Brasil.

Assim o poeta, de lá de sua mesa de sons ancestrais, operou sem saber a mixagem milagrosa, unindo via linguagem, em síntese poético-geográfica, pontas da América Latina: do México maia ao tupi-português do Brasil.

A esta "constelação geográfica", dos que compartilham o pão e o antiquíssimo milho, Carvajal se refere em sua "Plegaria#6", no original espanhol: "Esta constelação geográfica/ --de nomes e sobrenomes/ de rostos confiáveis/ de bocas com as quais/ dividir o pão/ de tetos que acolhem/ --a quem poderíamos chamar/ de família/ espalha-se cada vez mais/ por todo o continente".

José Ignacio Carvajal Regidor é também professor assistente da Universidade do Kansas em Lawrence (EUA), onde pesquisa o ensino de línguas indígenas, literaturas e culturas mesoamericanas.

Este espaço é curto para tratar de sua profunda inspiração na alma desta América Latina tão oprimida, e da grande expressividade de sua poesia, que tem influências indiretas do lendário poeta e militante salvadorenho Roque Dalton (1935-1975) e, ao mesmo tempo, do contemporâneo poeta de slam norte-americano Anis Mojgani.

Plegarias

  • Autor Ignacio Carvajal (Twitter @carvajalregidor e ignaciocarvajal@ku.edu)
  • Editora El Suri Porfiado Ediciones/Houston University/Casa Cultural de las Américas, 2019, 50 págs.
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