Descrição de chapéu Televisão

Woody Allen influenciou narrativa sobre incesto nos EUA, dizem diretores de série

Documentário da HBO investiga caso de suposto abuso, pelo cineasta, de sua filha de sete anos

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

A estratégia que Woody Allen usou para se defender quando foi acusado de abusar sexualmente de sua filha adotiva de sete anos, Dylan, no início da década de 1990, se tornou um modelo para casos semelhantes levados aos tribunais americanos nas décadas seguintes, chegando até os dias de hoje, afirmam os diretores do recém-lançado documentário “Allen v. Farrow”.

“A tática é, no momento em que você é acusado de molestar, você acusa o acusador de estar louco ou de ser problemático. E, por causa da nossa misoginia introjetada, da nossa reticência em olhar para o incesto —é um crime desconfortável— e em acreditar que pais podem fazer isso, ficamos mais felizes acreditando na história da mulher louca do que na história do pai predador”, afirma a diretora, Amy Ziering.

Como resultado, ela acrescenta, crianças são mandadas para morar com os pais abusadores por decisão judicial, e continuam sendo molestadas. À época, Allen foi inocentado em duas investigações —uma no estado de Nova York e outra no de Connecticut, local da casa de sua mulher de então, Mia Farrow, onde teria acontecido o crime—, e Dylan seguiu sob a guarda da atriz após uma batalha judicial perdida pelo cineasta.

mulher loira sorri para bebê loiro sentado no sofá
Mia Farrow e a filha Dylan em imagem de arquivo da série documental da HBO 'Allen v. Farrow' - Divulgação

Exaustivamente coberto pela imprensa, o escândalo passou a fazer parte do panorama cultural nas últimas décadas, mas ficou adormecido no imaginário até ganhar novo fôlego com a publicação de uma carta de Dylan no jornal Los Angeles Times, em 2014, renovando as acusações contra o pai. Outro impulso ao caso foi dado pelo movimento MeToo.

Essa via crucis é resgatada nos quatro episódios da série documental "Allen v. Farrow", dirigida por Ziering em parceria com o também cineasta Kirby Dick e disponível na HBO Go. A dupla —indicada ao Oscar em 2013 por “A Guerra Invisível”, documentário sobre abuso sexual no Exército americano— apresenta extensas entrevistas com Dylan e Mia Farrow nas quais elas contam a sua versão da história.

A predominância do ponto de vista de mãe e filha é uma das críticas mais contundentes que o documentário vem recebendo, mas tomar partido não era a intenção inicial, afirma a diretora. Os cineastas queriam contar a história a partir “da perspectiva da verdade e das evidências”, diz Ziering, e por isso há também na série entrevistas com investigadores, babás e jornalistas que cobriram o caso.

Durante a pesquisa do que Dick, o diretor, considera o caso mais emblemático de incesto nos Estados Unidos nos últimos 50 anos, a dupla afirma ter percebido que a versão dominante nas manchetes da imprensa foi fabricada por Woody Allen e distribuída por um complexo sistema de relações públicas de um homem com muito dinheiro e poder de influência.

“E, por causa da nossa adoração por ele, eu inclusa, nós estávamos mais inclinados a acreditar na história de ele ser o herói e não o vilão. Era o lugar mais confortável para nós, culturalmente, por uma série de razões. Tomamos isso como verdade, mas não é a história toda”, acrescenta a diretora.

Woody Allen negou repetidas vezes as acusações, dizendo que nunca agiu de maneira sexual inapropriada com sua filha e que não a abusou. Pouco depois da transmissão do primeiro episódio nos Estados Unidos, um porta-voz dele e de sua mulher, Soon-Yi Previn, emitiu uma nota dizendo que os realizadores do documentário "não têm interesse na verdade" e chamou a série televisiva de "crítica feroz repleta de falsidades".

Segundo ele, a criança sofreu uma lavagem cerebral da mãe e foi forçada a dizer que ele tocou sua genitália repetidas vezes. A série traz imagens de arquivo, gravadas em VHS, nas quais Dylan encena a suposta violação. A motivação para Mia Farrow agir desta forma seria se vingar do cineasta, que na mesma época assumiu seu romance com Soon-Yi Previn, filha adotiva da atriz com seu antigo companheiro, o músico André Previn.

Uma das dificuldades na produção da série foi fazer com que Farrow falasse, conta a diretora —a atriz só deu entrevista após insistência da filha, que virou uma autora de literatura juvenil e ativista dos sobreviventes de abusos sexuais. De acordo com a cineasta, nada de bom jamais aconteceu para a atriz a partir desse escândalo, então ela não via motivos para falar após ser vilanizada.

Mesmo sem uma entrevista de Allen, que participa somente lendo trechos da versão em audiolivro de sua autobiografia, Dick afirma que um dos motivos para fazer o documentário era trazer a discussão do incesto à esfera pública. “Não houve um movimento MeToo para o incesto ainda, e esperamos que talvez, de alguma forma, a série possa contribuir para que isso aconteça logo.”

Allen v. Farrow

  • Quando Em exibição
  • Onde HBO Go
  • Direção Kirby Dick e Amy Ziering
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.