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Biografia de Dante que foi best-seller na Itália estilhaça imagem clássica do poeta

Lançado nas comemorações de 700 anos da morte do escritor, livro revela seu lado guerreiro e crença de que era profeta

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dois homens nus lutam

Pintura de William-Adolphe Bouguereau de 1850 mostra Dante e Virgílio, personagens de 'A Divina Comédia', de Dante Alighieri, no Inferno Museu D'Orsay/Reprodução

Patrícia Araújo Costa
Angri (Itália)

O ano é 1289. Um cavaleiro vestido com armadura, montado em seu cavalo e portando lança, espada e escudo aguarda na primeira fila, junto a outros 600 cavaleiros, o início da batalha. Faz parte do exército de Florença e pretende invadir as terras de Arezzo, cidade próxima, em defesa da supremacia papal.

O cenário da histórica batalha de Campaldino poderia perfeitamente ser o início de um livro sobre guerras e conquistas na Itália da Idade Média se o cavaleiro descrito não fosse um dos maiores poetas da literatura universal, Dante Alighieri.

Em 2021, a Itália comemora os 700 anos da morte do pai da língua nacional e autor de "A Divina Comédia". Mesmo com a pandemia, inúmeras celebrações estão sendo organizadas pelo país. No campo editorial, uma biografia tem feito sucesso ao mostrar uma versão bem diferente da clássica imagem de Dante com a coroa de louros dos césares e poetas.

Na Itália, ela vendeu mais de 50 mil cópias só nos três primeiros meses depois da publicação. No Brasil, a previsão é que o livro seja publicado em outubro pela Companhia das Letras. "Ninguém imagina Dante a cavalo com armadura e, na realidade, isso aconteceu, e mais de uma vez”, conta Alessandro Barbero, o autor da biografia.

“É verdade que ele, na velhice, sonhava com uma grande cerimônia em que o mundo o teria reconhecido como um grande poeta e o teria coroado, mas isso nunca aconteceu. Já com Petrarca, que sabia se mover melhor que ele [politicamente], sim. Em 1341, Petrarca recebeu no Capitólio de Roma a coroa de louros das mãos do então rei de Nápoles, Roberto 1º de Anjou. Mas, com Dante, isso não ocorreu."

Professor de história medieval na Universidade dos Estudos do Piemonte Oriental, em Vercelli, cidade a cerca de uma hora de Milão, Barbero é atualmente um dos historiadores mais famosos da Itália, com dezenas de livros publicados sobre a Idade Média europeia.

Para escrever a biografia do autor da "A Divina Comédia", ele pesquisou por dois anos e meio inúmeros documentos entre arquivos e bibliotecas de todo o país.

“Já na Idade Média, depois da morte do poeta, quando um arquivista encontrava um documento, uma minuta, na qual se mencionava Dante, desenhava uma mãozinha na margem do papel e escrevia ‘Dante’ para que aquele documento não se perdesse no futuro. Por isso, nós temos coletas e textos comentados de centenas de documentos de Dante e de seus parentes”, conta o autor, que diz acreditar ter escrito a biografia de um homem símbolo do seu tempo e da sua terra.

“Escrevi sobre a vida de um garoto que, na Florença medieval, se apaixona, vai à escola, fica órfão, participa de guerras, vai à universidade, se entrega à política. E pude fazer tudo isso com uma riqueza de detalhes que não seria possível no caso de uma pessoa qualquer.”

dois homens nus lutam
Pintura de William-Adolphe Bouguereau de 1850 mostra Dante e Virgílio, personagens de 'A Divina Comédia', de Dante Alighieri, no Inferno - Museu D'Orsay/Reprodução

Entre os detalhes da vida de Dante que revelam as particularidades da sociedade florentina do século 13 está a sua posição social. Embora tenha participado de guerras como cavaleiro, Dante não era um nobre.

“Na França, na Inglaterra ou em Portugal, quem combatia a cavalo em armadura era sempre um nobre, mas na Itália existia mais mobilidade social e gente que, mesmo não sendo nobre, combatia a cavalo porque tinha dinheiro para isso.”

Segundo Barbero, Dante sofria os conflitos internos gerados por essa sociedade estratificada. Nascido numa família de agiotas, desde cedo se descobriu poeta e passou a conviver com os filhos das famílias mais tradicionais de Florença. Nunca participou dos negócios familiares, se dedicou aos estudos e à política, viveu de renda e, em suas obras, fala pouquíssimas vezes do pai.

“Não me parece estranho que Dante se envergonhasse um pouco do pai porque era uma pessoa que lidava com dinheiro enquanto Dante se sentia um aristocrata, um intelectual. Ele tinha o desprezo que, às vezes, um intelectual infelizmente sente pelas pessoas do comércio, que pensam em lucro.”

Embora Dante tenha se casado e tido filhos, poucas também são as menções à mulher. Um casamento arranjado, de acordo com Barbero. Já o seu verdadeiro amor o acompanhou por toda vida desde a infância, Beatriz.

“Dante escreve em 'Vida Nova' o que significou se apaixonar desde criança. Ele nos conta de um amor por essa menina conhecida numa festa e que usava um vestidinho vermelho. Eu fui procurar o que dizem os psicanalistas de hoje, os psicólogos da infância sobre amor infantil. Funciona tudo. Quer dizer, Dante está realmente contando que ele, aos nove anos, se apaixonou por aquela menina, que encontrou de novo pela estrada quando tinha 18 anos e que, quando a viu chegar, foi tomado pelo medo, queria se esconder.”

Um amor nunca consumado, mas tão forte que inspirou Dante a escrever sua obra-prima. É Beatriz que guia o poeta em sua viagem pelo Paraíso. “Dante nos diz ‘eu escrevi isso ['A Divina Comédia'] para Beatriz porque a Beatriz prometi escrever o que nunca tinha sido escrito’.”

É justamente "A Divina Comédia" que tem levado os estudiosos de Dante a discutirem, nos últimos tempos, a psicologia do poeta nos seus derradeiros anos de vida quando, mesmo exilado, já era famoso entre os intelectuais da época.

“Hoje se pensa cada vez mais que Dante, a um certo ponto, se convenceu de ser uma espécie de profeta, que realmente teve sonhos ou visões que o levaram a pensar a si mesmo como um dos profetas da Bíblia", diz Barbero. "Ele mesmo faz comparações de si com Isaías, com Jeremias. Pode ser que Dante, que já tinha uma imagem muito elevada de si mesmo e que obviamente era muito religioso, profundamente religioso, possa ter se convencido de que tinha uma missão a cumprir.”

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