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Marçal Aquino volta à literatura violenta e sensual que o consagrou após 15 anos

Escritor usa experiência como repórter de caderno policial para ambientar 'Baixo Esplendor' no Brasil repressivo da ditadura

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Ilustração de Marcelo Tolentino para a capa do livro 'Baixo Esplendor', de Marçal Aquino

Ilustração de Marcelo Tolentino para a capa do livro 'Baixo Esplendor', de Marçal Aquino Divulgação

Carlos Messias
São Paulo

Aura de artista maldito, bloqueio criativo diante da página em branco, intimidação após o seu livro de maior sucesso, o cultuado “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, de 2005.

O escritor, roteirista e jornalista paulista Marçal Aquino garante que nenhum desses clichês se aplica ao hiato que precedeu “Baixo Esplendor”, seu quarto romance publicado, o terceiro pela Companhia das Letras, que chega às livrarias na semana que vem.

Vencedor do Jabuti pelo volume de contos “O Amor e Outros Objetos Pontiagudos”, publicado pela Geração Editorial em 1999, Aquino diz que nunca escreveu tanto como nos últimos 16 anos.

Isso incluindo três romances que engavetou em diferentes estágios de produção. “O Grande Circo Humano”
chegou a ter um capítulo publicado em 2007 na revista Bravo!, e um trecho de “Como se São Paulo Fosse um Bom Lugar” integrou a coletânea “São Paulo Noir”, editada pela Casa da Palavra em 2016.

“Falei tanto sobre esses livros que acabei perdendo o interesse durante o caminho”, diz o escritor de 63 anos.

O escritor, roteirista e jornalista Marçal Aquino, 63, na sua casa na capital paulistana - Karime Xavier/Folhapress

A terceira obra abandonada foi “A Felicidade Genital”, uma sátira ambientada no Brasil colonial. “Fiquei seis anos trabalhando nele e, nesse tempo, muita coisa mudou. Ao reler, percebi que afrontava várias questões em voga envolvendo minorias, a começar pelo narrador misógino.”

“Quando mostrei para o Luiz Schwarcz [presidente da Companhia das Letras], ele falou de publicarmos junto com uma nota explicativa. Percebi que soaria provocativo demais em uma época em que essas reivindicações têm todo o seu mérito, até que tenhamos uma sociedade mais justa”, relembra Aquino. “Vai ficar como livro póstumo. Se a minha filha [a apresentadora Alice Schumann Aquino, de 28 anos] quiser, ela publica.”

O quarto e finalmente fecundo foi “Baixo Esplendor”, que teve gestação encurtada e ao mesmo tempo favorecida pela pandemia do novo coronavírus. Entre notícias ruins e outras ainda piores, recebidas por lábios nem tão lindos, o autor se viu perturbado pela realidade e buscou refúgio nos tiroteios, perseguições e jogos psicológicos de sua narrativa policial realista.

Com o setor audiovisual completamente parado por um tempo, Aquino, que em horário comercial é roteirista de TV, pôde imergir no livro e terminar um ano antes do previsto. “Se surgisse uma ideia às três da manhã, tudo bem, no dia seguinte eu poderia dormir até tarde. Quando você se põe à disposição de um texto, ele começa a fluir de maneira incontrolável.”

Tamanho prazer o levou à São Paulo de 1973, quando as ruas eram ocupadas por Fuscas, Opalas e Gordinis —a frota que compõe o livro é digna de nota—, além de jipes e caminhões do exército.

“Foi uma década de muita repressão, muita violência. Eu quis falar de bandidagem nesse contexto”, diz ele, que afirma enxergar uma relação entre o Brasil da época do texto e o atual. “Tudo me parece tão cíclico, não tem qualquer surpresa no roteiro. A merda é que a gente morre no final.”

Por bandidagem, entendamos o universo em que Aquino se consagrou, com contos como “Os Matadores”, de 1993, e romances como “Cabeça a Prêmio”, de 2003. Ele credita tal expertise —que reluz na verossimilhança de termos e situações— à sua experiência como repórter do caderno policial do extinto Jornal da Tarde no final dos anos 1980. “O real é inacreditável”, define.

O herói de “Baixo Esplendor” é Miguel, um agente policial que se infiltra numa quadrilha de ladrões de carga. Entre botecos pé-sujo e decadentes salões de bilhar, o policial cai nas graças de Ingo, o líder do bando, que o apresenta à irmã, Nádia. Miguel então desenvolve um relacionamento amoroso com ela, pondo em risco a operação.

Como de costume na obra de Aquino, as cenas de sexo, narradas e performadas de forma naturalista, não seguem os protocolos. “Um encontro forte entre um homem e uma mulher, para quem não tem medo de sexo. No degrau do século 21, prefiro chamar as coisas pelo nome”, defende ele, autor da sentença “o amor é sexualmente transmissível” na abertura de “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”.

“O amor é a única coisa subversiva que de fato existe”, diz. “Nenhuma outra é capaz de mudar uma pessoa. A pedido de uma mulher, um sujeito pode fazer coisas como as que aparecem em ‘Baixo Esplendor’.” No que parece ser o auge do seu rigor formal, o autor se mostra à vontade numa linguagem precisa, ágil e fortemente imagética, com flashbacks constantes. O que remete ao seu outro ofício, o de roteirista.

Aquino começou no cinema a partir de uma longeva parceria com o cineasta Beto Brant que rendeu adaptações de suas próprias obras, de “Os Matadores”, de 1997, a “Eu Receberia”, de 2011, passando por livros não terminados, como “Ação entre Amigos”, de 1998, e “O Invasor”, de 2001 —o manuscrito foi retomado quando o filme estava em pós-produção.

Ele ainda adaptou romances de Sérgio Sant’Anna e de Daniel Galera para Brant. Trabalhou também com o
diretor Heitor Dhalia em longas como “O Cheiro do Ralo”, de 2006, da obra de Lourenço Mutarelli, e na série “O Caçador”, de 2014, uma das quatro que escreveu para a TV Globo com Fernando Bonassi —a mais recente é “Carcereiros”, exibida entre 2018 e 2021, que originou o longa de José Eduardo Belmonte de 2019.

Aquino diz preferir esperar “Baixo Esplendor” sair antes de vender os direitos autorais do livro. Mas revela já ter sido sondado por Beto Brant para uma nova ação entre amigos. “O Beto me falou ‘se você tiver alguma oferta milionária, por favor, venda, senão, a gente faz um filme’.”

Baixo Esplendor

  • Quando Lançamento nesta sexta (9)
  • Preço R$ 49,90 e R$ 29,90 (e-book) (264 págs)
  • Autor Marçal Aquino
  • Editora Companhia das Letras
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