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Mariana Enríquez investiga chagas espirituais e familiares em novo livro

Escritora argentina é finalista do Booker Prize, que será entregue em junho, com 'Los Peligros de Fumar en la Cama'

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Buenos Aires

Santos populares latino-americanos, como San La Muerte, as músicas de David Bowie, as cartas do tarô e as tramas de Stephen King se misturam no eclético leque de referências da escritora argentina Mariana Enríquez, de 48 anos.

Selecionada nesta semana para a final do Booker Prize com seu livro de contos "Los Peligros de Fumar en la Cama", a escritora, que esteve na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2019, tem agora editado no Brasil seu mais recente romance, "Nossa Parte de Noite", que sai pela Intrínseca.

Nele, além das referências lembradas aqui, está a Argentina contemporânea, a que ficou traumatizada após a última ditadura militar, que vigorou de 1976 a 1983, e que até hoje busca sanar suas feridas.

O romance começa com uma viagem de um pai e um filho até Corrientes, depois Misiones, regiões fronteiriças do país com o Paraguai e o Brasil, e explora um universo de mansões assombradas e crendices populares com as quais Enríquez cresceu.

"Minha família é daí, e eu guardo uma memória infantil, portanto mítica dessas lembranças. Tinha tias que faziam coisas esquisitas, como matar sapos quando brigavam com alguém ou jogar tantas flores num rio para trazer sorte. E elas mesmas depois iam fazer psicanálise ou colocavam os filhos em colégios caros. Me causava curiosidade essa mescla de crenças e de maneira de ver o mundo", conta Enríquez em entrevista.

No livro, que começa em tempos de regime militar, um pai, que é médium e tem o corpo debilitado por uma operação no peito, leva o filho para uma viagem, ao mesmo tempo em que tenta impedir que a mediunidade que ele possui seja herdada pelo garoto.

"A ideia do corpo machucado ou doente, faz referência ao período militar, porque é um corpo que lembra uma existência. Como o corpo de um desaparecido. Um corpo com doença crônica atormenta. Se seu corpo está bem, você não se lembra dele."

No caminho, eles se encontram com mulheres, algumas com um quê de bruxas, mas todas sem se encaixar num padrão feminino comum.

"Eu não queria mulheres maternais, mulheres que cuidassem de famílias, queria mulheres que estavam interessadas em outras coisas e que por isso não têm filhos. Queria escapar desse clichê. As mulheres no meu livro não estão vinculadas à maternidade".

A política e a história da Argentina voltam a se fazer presentes quando se percorrem lugares inóspitos do país, onde há casas de famílias riquíssimas, porém abandonadas há muito tempo.

mulher branca de cabelos loiros e batom vermelho posa de preto diante de fundo também preto
A escritora argentina Mariana Enríquez - Nora Lezano/Divulgação

"Sempre tive curiosidade para saber porque pessoas tão abastadas construíram casas enormes em lugares inóspitos, quentes, podendo ir viver em qualquer parte do mundo. E há várias, dos anos 1930 e 1940, algumas são hoje hotéis-boutique. Mas concluí que eram bons pontos de partida para pensar no sentido das heranças familiares. São também heranças de poder e marcam a história de países como os nossos."

Segundo Enríquez, as heranças familiares, não só as materiais mas principalmente as espirituais, condiciona muito as pessoas e há distintos níveis de tentativas de desapego e de fracasso nessas buscas.

Na trama, o pai, Juan, tenta evitar que seu filho, o menino Gaspar, tenha conexão com sua família, para que não herde coisas que a ele parecem negativas.

"O caso é que não se pode, ao apenas esconder as evidências físicas, porque Gaspar herda características que aos poucos vai entendendo o que são, embora Juan não queira que isso aconteça."

Ainda que a história tenha essa forte pegada espiritual, esse é um suspense carregado de tensão. "Eu queria que houvesse muita trama, e que ela fosse arrastando o leitor", diz a autora.

"Nossa Parte de Noite" já chega premiada com o Herralde de 2019, e está sendo traduzida para o inglês.

Enríquez não crê que exista um "novo gótico feminino" na literatura latino-americana, mas sim que há escritoras que, como ela, mostram a influência "de uma infância e de uma adolescência vividas com Spielberg, Stephen King, David Bowie, e que não se importa com o fato de que temas relacionados ao oculto tenham tido um estigma negativo no passado". "Jogamos com eles de uma forma mais natural."

Enríquez menciona que, como ela, existem autoras equatorianas, como Mónica Ojeda, bolivianas como Liliana Colanzi e Giovanna Rivero, a mexicana Gabriela Cabezón Cámara e a argentina Samanta Schweblin, que navegam no mesmo universo, mas porque, para ela, é por uma característa de nossos tempos.

"O que vejo como positivo no fato de estarmos ganhando prêmios e sendo publicadas é que também o mercado está deixando de pôr um rótulo estigmatizante no tipo de livros que escrevemos." O livro já está à venda para os membros do clube de leitura Intrínsecos, pelo site intrinsecos.com.br, em edição especial. A distribuição a livrarias ocorre em julho.

Nossa Parte de Noite

  • Preço R$ 59,90/mês + frete de R$ 10 no plano padrão Intrínsecos ou R$ 54,90/mês + frete de R$ 10 no plano anual Intrínsecos; quem assinar o clube depois de 1º de maio pode comprar a caixa de forma avulsa
  • Autor Mariana Enríquez
  • Editora Intrínseca
  • Tradução Elisa Menezes
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