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'O Som do Rugido da Onça' fica entre a fábula e o realismo fantástico

Micheliny Verunschk escreve prosa poética, entremeada pela estranheza, o colorido e a sonoridade de palavras indígenas

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Alcir Pécora

Professor titular de teoria literária da Unicamp

O Som do Rugido da Onça

  • Preço R$ 54,90 (168 págs.); R$ 37,90 ebook
  • Autor Micheliny Verunschk
  • Editora Companhia das Letras

“O Som do Rugido da Onça”, da escritora pernambucana Micheliny Verunschk, alterna e finalmente imbrica duas narrativas de tempos e escopos diversos.

A primeira delas tem por base o episódio das crianças indígenas levadas à Baviera pelos naturalistas alemães Spix e Martius, que cá estiveram em viagem de estudos entre os anos de 1817 e 1820, e cujas anotações deram origem ao célebre relato “Viagem pelo Brasil”.

A segunda trata das agruras de Josefa, paraense com um passado familiar infeliz, que migra para São Paulo e, aqui, tenta reconstruir a sua vida, rasurando as próprias raízes.

Isso se interrompe quando ela tem notícia, por meio de uma visita casual à mostra da Coleção Brasiliana do Itaú Cultural, dos retratos e do destino trágico das crianças índigenas —em particular, das duas que chegaram vivas a Munique, de etnias inimigas entre si, a menina Iñe-e, de 12 anos, e o rapaz juri, um ano mais velho.

Desse episódio, e, sobretudo, da inesperada identificação com a menina, Josefa começa um processo de tomada de consciência de sua própria condição de mulher e de nortista, com origens índigenas, que a faz repensar o presente e aguçar a memória recalcada. Algo a compele mesmo a viajar até Munique em busca de algum vestígio da experiência dolorosa de Iñe-e, como “peça viva” da coleção de curiosidades dos naturalistas alemães.

Retrato de índia miranha, litografia colorida à mão; Gravura presente no álbum 'Viagem ao Brasil', de Johann Baptiste von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius, publicado em Munique, em 1823, e exposta na Coleção Brasiliana, no Itaú Cultural, em São Paulo - Edouard Fraipont/Divulgação

Creio que esse breve resumo deixa perceber como o romance tem implicações de natureza histórica, como as relativas ao sentido de uma expedição científica do século 19; literária, como a de saber como representar o pensamento ou a fala de um indígena; e, enfim, política, como a de entender os efeitos de um antigo caso de opressão sobre a consciência de uma mulher brasileira do século 21.

Nenhuma dessas questões é respondida pelo romance em termos de invenção radical, sem que isso desmereça o seu interesse. No que toca à história, Verunschk dificilmente acrescentaria algo aos laboriosos trabalhos de investigação levados a cabo por pesquisadores de várias áreas, da antropologia à história, como é o caso de Henrike Leonhardt, que, salvo engano, foi pioneiro no destaque ao caso dos “meninos índios”.

Em termos literários, o principal recurso aplicado por Verunschk é o do “fluxo de consciência”, que simula o que iria pela cabeça dos indígenas exibidos como curiosidades a gentes desconhecidas.

A forma como ela o faz não é primária, nem tributária de uma representação literal. Basicamente, opta por uma prosa poética, entremeada pela estranheza, colorido e sonoridade de palavras indígenas, que, por vezes, surgem como onomatopaicas dos animais e ruídos da floresta.

mulher branca de cabelos grisalhos curtos usando blusa amarela
A escritora pernambucana Micheliny Verunschk - Renato Parada/Divulgação

O modelo desse tipo de construção do fluxo é o conto “Meu Tio, o Iauaretê”, de Guimarães Rosa, mas sem a complexidade da sua construção linguística, que chega a um ponto em que já não é legível —a linguagem vira o bicho.

Outro recurso de Verunschk é a citação, que vai de trechos dos relatos de Spix e Martius a de autores diversos, avançando até a montagem de várias manchetes de jornais atuais, que gritam o que todos sabem, sem saber como deter –a morte de Chico Mendes e de Dorothy Stang, os assassinatos e suicídios de crianças indígenas, os crimes contra essas comunidades cometidos durante a ditadura militar, a barbárie do atual governo, que prega o armamento dos fazendeiros e a desmarcação das terras indígenas e vê como natural o alastramento da pandemia entre esses povos.

Com isso, fica evidente o viés político do romance. A tomada de consciência de Josefa a partir da identificação com Iñe-e a leva a se transformar em onça pronta para o ataque —portanto, a uma louvável disposição de luta. Em termos da construção literária, a metamorfose empresta a ela um ar que fica entre o realismo fantástico e a narrativa fabular.

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