Por que teatros viraram tribunais e despertaram a ira dos negros no Reino Unido

Departamentos do sistema judiciário da Inglaterra passam a alugar salas de instituições artísticas na pandemia

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Alex Marshall
Birmingham | The New York Times

Em janeiro, Sara Buckingham entrou num auditório do Birmingham Repertory Theater, subiu alguns degraus até a plataforma e olhou para a plateia. Trajava figurino completo, incluindo peruca. Todos os presentes se levantaram.

Pode ter parecido a entrada em cena de uma estrela, mas Buckingham não é atriz. Ela é juíza e estava ali para presidir um julgamento criminal.

Três lockdowns no Reino Unido, aliados a medidas rigorosas de distanciamento social, dificultaram os trabalhos do sistema judiciário da Inglaterra no último ano, gerando uma grande sobrecarga de casos a julgar. Desde julho, o serviço de tribunais britânico vem alugando espaços adequados —como teatros, centros de convenções e repartições públicas locais— e os convertedo em tribunais temporários.

“Acho que muitos de vocês já conhecem este espaço por razões não relacionadas ao crime”, disse Buckingham ao júri antes do início do julgamento.

Estátua de duas crianças ao lado de dois adultos.
Entrada do Birmingham Repertory Theatre em Birmingham, na Inglaterra, em foto registrada em 15 de janeiro de 2021 - Suzanne Plunkett/The New York Times

A dez metros dela estava Rzgar Mohammad, de 34 anos, entregador que foi acusado de quebrar o tubo de vidro de um narguilé na cabeça de outro homem e então o ter golpeado várias vezes com um bastão. Mohammad se declarou inocente da acusação de agressão física resultando em lesões corporais.

Os teatros britânicos estão em crise financeira desde que a pandemia do novo coronavírus os obrigou a fechar as portas, em março do ano passado. Alguns poucos têm encenado algumas apresentações para plateias com distanciamento social, mas a maioria só conseguiu sobreviver até agora graças a auxílios emergenciais do governo, somados à demissão de funcionários.

Diante disso, a decisão do teatro de Birmingham de alugar espaço ao departamento de tribunais talvez não seja surpreendente. Outro teatro, o complexo de artes de Lowry, em Manchester, vem sediando julgamentos desde outubro.

Mas a iniciativa irrita os produtores teatrais de Birmingham, a segunda maior cidade britânica. Eles dizem que a polícia e os tribunais historicamente sempre foram contra as comunidades não brancas e que os teatros devem ser conservados como espaços para a criatividade.

Entrevistado pelo telefone, o diretor de teatro Jay Crutchley, que é negro, disse que o Rep —como o Repertory Theater é conhecido em Birmingham— “endossou a instituição que é provavelmente a maior opressora sistemática de negros neste país”.

Ele explicou que homens negros jovens estão presentes de modo desproporcional nas prisões britânicas e que muitos jovens de Birmingham, tanto negros quanto brancos, já tiveram contatos negativos com a polícia.

“Amigos íntimos meus já passaram pelo sistema dos tribunais”, disse Crutchley. "E nem sei dizer quantas vezes a polícia já me parou na rua e revistou.”

Segundo ele, a decisão do Rep de abrir seu espaço para um tribunal de justiça está convertendo o teatro em um potencial local traumático. “Para mim”, ele disse, “há um limite que separa ética de dinheiro”.

Em janeiro, o teatro anunciou a realização de duas reuniões online para ouvir o feedback de qualquer pessoa insatisfeita com sua decisão. “Queremos ouvir diretamente de vocês o que pensam”, disse um porta-voz da direção do estabelecimento.

Birmingham é uma das cidades mais etnicamente diversas do Reino Unido. No último censo, há dez anos, mais de um quarto de seus habitantes se declararam de origem asiática e cerca de 9% eram negros.

O Rep sempre foi elogiado por seus esforços para atrair a participação de não brancos. Se o coronavírus não o tivesse obrigado a fechar suas portas, sua temporada mais recente teria incluído várias peças de teatro de autores não brancos. Entre elas, estariam “Calmer”, de Lolita Chakrabarti, dirigida pelo ator negro Adrian Lester. Ele é administrador do conselho de direção do Birmingham Rep e é casado com Chakrabarti.

Mas, dias após o anúncio em 14 de dezembro de que o teatro seria usado para a realização de julgamentos, a companhia de teatro negra Talawa cancelou uma temporada programada de peças no Rep que tratariam do tema da “alegria negra”.

“A iniciativa do Rep “não condiz com o engajamento da Talawa com os artistas e as comunidades negras”, disse a companhia em um comunicado enviado à imprensa. (Uma representante da Talawa se negou a dar entrevista para esta reportagem.)

Os organizadores da More Than a Moment, iniciativa cultural de Birmingham para promover artistas negros, também tiraram o Rep de seu comitê de orientação.

Numa publicação online, o teatro, cujo porta-voz recusou pedido de entrevista, disse que o contrato com o tribunal de justiça foi necessário apra garantir seu futuro financeiro.

Mas Rico Johnson-Sinclair, gerente do festival de artes LGBT Shout, que promove eventos no Rep, disse em entrevista telefônica que o Rep não corre perigo financeiro imediato e tem dinheiro para continuar funcionando até abril. Em outubro, o Ministério da Cultura britânico deu cerca de US$ 1,8 milhão, ou R$ 10,2 milhões, ao teatro.

“Se eles tivessem sido transparentes e dito ‘vamos ter que fazer isso para não irmos à falência, senão não haverá mais Birmingham Rep’, acho que a comunidade negra os teria perdoado mais facilmente”, disse Johnson-Sinclair. “Mesmo assim, acho que não foi o rumo correto a seguir.”

Seis transeuntes com quem conversamos do lado de fora do teatro manifestaram opiniões divergentes sobre a situação. Três deles disseram que entendem as queixas, mas apoiaram a ideia de o teatro virar o recinto de um tribunal.

“O que mais poderiam fazer para sobreviver?”, comentou Elliot Myers, de 30 anos, proprietário de uma agência de marketing. “A necessidade obriga.”

Mas três foram contra. “Sei que eles estão precisando loucamente de dinheiro, mas será que não podemos dar outro jeito?”, disse o gari David Foster, de 47 anos. O barbeiro Philip Morris, de 37 anos, opinou que “as pessoas não vão querer ir ao teatro pensando ‘tribunal’”. Segundo ele, a partir de agora, o teatro será “mais para os brancos europeus”.

No recinto improvisado de tribunal, em janeiro, os procedimentos não deixaram de ter certo ar de drama teatral. Brotherton, o advogado da promotoria, apresentou seus argumentos e mostrou ao júri um vídeo que captara parte do incidente. Todos prestaram atenção total.

Na vida real, contudo, os julgamentos costumam transcorrer num ritmo muito mais arrastado. Justamente quando as coisas estavam ficando interessantes, a juíza interrompeu os procedimentos para o almoço e para que os escrivãos pudessem localizar um intérprete para trabalhar com uma das testemunhas. Mas quando todos voltaram ao auditório, o intérprete ainda não chegara. Os advogados bateram papo entre eles, admirando o equipamento de iluminação no teto.

Após outros 50 minutos, o intérprete ainda não havia chegado. Aparentemente, não conseguira localizar o teatro. Foi o tipo de coisa que atrasa muitos procedimentos em tribunais britânicos, mesmo em épocas que não são de pandemia.

“Okay, vou me dar por derrotada”, disse a juíza Buckingham depois de ouvir a notícia. Ele chamou os jurados de volta ao recinto e os mandou para casa mais cedo. Os 12 homens e mulheres saíram lentamente pelo lado direito do palco, mas com pouco clima de drama ou espetáculo.

Tradução de Clara Allain

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