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Renato Terra

Série expõe bastidores da indústria pop nacional sem sensacionalismo

'História Secreta do Pop Brasileiro' tem música, humor, boas histórias e uma pitada de melancolia

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Renato Terra

Roteirista do Conversa com Bial e diretor dos documentários 'Narciso em Férias', 'Eu Sou Carlos Imperial' e 'Uma Noite em 67'. Trabalhou na revista piauí até 2016 e foi o ghost-writer do “Diário da Dilma”

História Secreta do Pop Brasileiro

  • Onde No Amazon Prime, Now e Looke
  • Classificação 14 anos
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção André Barcinski
  • Episódios 8

"Para bailar la bamba/ se necesita/ una poca de gracia." Em 1964, o cantor americano Trini Lopez fazia sucesso no mundo todo com “La Bamba”, “America” e “If I a Had a Hammer”. Como os direitos de seus discos eram caríssimos, a gravadora brasileira RGE teve uma ideia: clonar Trini Lopez.

Mas seria uma clonagem à brasileira. O clone era o paulistano José Gagliardi Jr., que adotou o nome de Prini Lorez e gravou discos de Trini Lopez com a mesma sonoridade do original. Prini estourou, vendeu caminhões de discos, fez shows e até participou da Jovem Guarda.

capa de disco com pôr do sol na praia diante de coqueiro e disco
Disco 'La Bamba', de Prini Lorez, espécie de cover brasileiro do cantor americano Trini Lopez - Divulgação

As músicas em ingês faziam sucesso comercial, e o próximo passo das gravadoras brasileiras foi a criação dos falsos gringos. Fabio Junior gravava como Mark Davis. Ivanilton de Souza virou Michael Sullivan. Helio Costa Manso era Steve Maclean.

O caso mais impressionante foi o de Morris Albert —ou Maurício Alberto— que compôs e gravou “Feelings”. Regravada por Nina Simone, Johnny Mathis e Ella Fitzgerald, a canção fez sucesso mundial.

Essas divertidas e reveladoras histórias estão nos dois primeiros episódios da série “História Secreta do Pop Brasileiro”, dirigida por André Barcinski e produzida pela Kuarup e pelo canal Music Box Brazil.

As entrevistas são quase todas feitas dentro de estúdios de gravadoras independentes. Os tons amarelados, cercados de carpetes, madeiras e mesas de som, ajudam a compor a atmosfera da série.

Quando não são feitas em estúdio, os papos acontecem nas modestas casas dos entrevistados. Há um misto delicado de humor e melancolia que seguirá por todos os oito episódios. “É uma linha fina. A história toda é muito engraçada. Mas a série quer contar a trajetória dessas pessoas. Fizemos uma extensa pesquisa e conduzimos tudo com respeito. Não era para ficar uma coisa patética, nem condescendente”, conta Barcinski.

Os números musicais, filmados também em estúdio, são executados pelos excelentes músicos anônimos —ou quase famosos— que são as estrelas da série. O apuro com o som, que soa impecável, faz um jogo saboroso com a despretensão visual. Dudu França, por exemplo, canta “Feelings” de bermuda cargo, mocassim sem meia e camisa polo azul. Como se a gravação ali fosse, novamente, apenas sonora.

O ouro da série é essa exposição dos bastidores da indústria pop brasileira sem criar um clima sensacionalista. Tem gambiarra, esperteza e muitas sacadas brilhantes das gravadoras brasileiras. Mas tudo é respeitoso com os personagens.

E musical. Gilliard conta como ele e Diego Jimenez gravaram o disco “Parada Popular - 45 sucessos” imitando as vozes de cantores famosos. Para quem comprasse o disco, não havia um aviso sequer de aquelas interpretações não eram de Reginaldo Rossi, Sidney Magal ou Peninha. Num tempo em que não havia playlist, o disco foi um fabuloso sucesso comercial.

A série nasceu da costela do excelente livro “Pavões Misteriosos”, de Barcinski. “Comecei a pesquisa do livro sem saber como ia terminar. Queria entender como a música brasileira foi refratária ao jovem, mas durante um período ela o abraçou. Entrevistei Guilherme Arantes, Sidney Magal. Num momento da entrevista, o Magal falou: ‘quem me inventou foi o [produtor argentino] Roberto Livi’. Eu não sabia que o Livi tinha a ver com o Magal. Como um argentino vem para o Brasil e transforma o Magal num cigano? Comecei a coletar essas histórias dos bastidores."

"Mais tarde, por acaso, comparando anotações de três entrevistas, vi que citavam uma banda chamada Os Carbonos. Não tinha nada sobre eles, nenhum registro. Fui atrás e descobri que eles são um oceano, eles me abriram muitas histórias”, conta Barcinski. Os Carbonos são as estrelas do terceiro episódio da série.

Há ainda episódios sobre os corais que faziam backing vocal nas gravações; as bandas que tocavam nas domingueiras paulistanas; Mister Sam, o figuraça que criou a Gretchen; e a explosão da indústria de músicas infantis.

O último traz os bastidores das gravações dos discos da Xuxa. Paulo Massadas, compositor de uma infinidade de hits, conta que a apresentadora infantil tinha consciência de que não sabia cantar. No estúdio, a voz de Massadas era ouvida no fone da apresentadora para que ela seguisse o canto do compositor. Ao mesmo tempo, Massadas apertava as mãos de Xuxa de forma ritmada, para que ela não perdesse o acompanhamento.

O assunto é vasto. Barcinski tinha a segunda e a terceira temporada da “A História Secreta do Pop Brasileiro” engatilhadas. “As temporadas estão paradas na Ancine há dois anos. O mesmo canal Music Box Brasil já aprovou, mas o Fundo Setorial parou”, lamenta.

Enquanto a política de sabotagem à cultura não termina, resta torcer para que a criatividade das gravadoras brasileiras nos inspire.


Faixas extras

Morris Albert canta “Feelings”

Prini Lorez canta “La Bamba”

Parada Popular - 45 sucessos

'História Secreta do Pop Brasileiro': a live


Em tempo

Os bastidores da música pop e os talentos que ficaram na sombra são a força do ótimo “Ninguém Sabe que Estou Aqui”, dirigido por Gaspar Antillo. Está na Netflix.

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