Bienal de Arquitetura de Veneza traz mais perguntas do que soluções na pandemia

Mostra parte da questão 'Como Viveremos Juntos?', mas trabalhos transmitem mais alertas do que possibilidades

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Bienal de Arquitetura de Veneza

Bienal de Arquitetura de Veneza Divulgação

Veneza

Quando a Bienal de Arquitetura de Veneza revelou o tema da sua 17ª edição, "Como Viveremos Juntos?", muitos deram de ombros. Era julho de 2019, e o mundo era aquele antigo, sem máscaras, quarentenas e toques de recolher.

Seis meses depois veio a pandemia da Covid-19, e a mostra, marcada para maio de 2020, foi adiada semanas antes da abertura, quando muitos dos projetos selecionados para a exposição se preparavam para a fase de montagem.

Um ano se passou, a vida da maioria das pessoas foi afetada, e muita especulação tem sido feita sobre o futuro das cidades, das casas, dos escritórios, dos museus e por aí vai. Afinal, depois de tudo isso, como viveremos juntos?

Foi envolta nessa ansiedade coletiva que a Bienal de Arquitetura de Veneza abriu as portas na semana passada para mostrar obras de 112 participantes, de 46 países. A exposição fica em cartaz até novembro

Tratado com ares de profeta, o curador Hashim Sarkis, libanês, arquiteto e professor do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, causou ainda mais expectativa com seus desdobramentos sobre o tema.

"A atual pandemia global tornou a nossa pergunta ainda mais relevante e apropriada, embora de modo irônico, visto o isolamento imposto. Mas foram as razões que nos levaram a essa pergunta —a crise climática, os deslocamentos populacionais, a instabilidade política e as desigualdades raciais, sociais e econômicas— que também nos conduziram à pandemia", afirmou.

"Não podemos mais esperar que sejam os políticos a propor um caminho em direção a um futuro melhor", disse, ainda, o curador. "Acreditamos que os arquitetos tenham a capacidade de dar respostas mais estimulantes daquelas que a política ofereceu até agora em grande parte do mundo."

Natural, então, que a caça a essas propostas guie a circulação pelos enormes espaços dos Giardini e do Arsenale. A Bienal foi dividida em cinco escalas —seres diversos, novas famílias, comunidades emergentes, além das fronteiras e como um único planeta.

No entanto, não é uma tarefa fácil encontrar respostas estimulantes, ou mesmo respostas. A impressão, ao olhar para o todo, é que muitos dos projetos dão mais embasamento à pertinência da pergunta —como viveremos juntos?— do que uma reflexão sobre soluções. São gráficos, instalações, maquetes, vídeos e fotografias que, em diversos casos, transmitem mais alertas do que possibilidades.

Nessa linha, está, por exemplo, a sala inteira revestida de sacolinhas plásticas, que parece pensada para redes sociais e apresenta uma envelhecida argumentação. "O projeto encoraja os visitantes a reutilizar as próprias sacolinhas e a ajudar a construir um mundo mais inclusivo e regenerativo, em condição de imaginar um futuro sem combustíveis fósseis", afirma o texto do artista argentino Tomás Saraceno.

E por aí vão a instalação gotejante sobre o derretimento do gelo das montanhas dos Alpes, de Günther Vogt, de Liechtenstein; "Hollow Ocean", da turca Pinar Yoldas, sobre as ameaças às vidas marinhas; e o estrondo incômodo que simula o barulho do rompimento de blocos de gelo da Antártida, do italiano Arcangelo Sassolino, que acompanha a pesquisa do livro "Antarctic Resolution", com suas mil páginas à mostra.

Para ficar na crise das águas, uma resposta mais assertiva, apesar do visual aparentemente banal, vem do projeto "Building with Waves", do americano Skylar Tibbits, que criou dispositivos submersos que usam a própria força das ondas para gerar bancos de areia que poupariam regiões costeiras de serem engolidas pelo mar –um modelo em tamanho real, que lembra um travesseiro gigante, está exposto.

Outras possibilidades que tiram proveito do próprio ecossistema são sugeridas pelo Atelier Marko Brajovic, de São Paulo. O estúdio, que há 15 anos pesquisa a biomimética, ciência que estuda a aplicação de soluções da natureza, apresenta nove projetos em andamento na região amazônica, em pequenas maquetes translúcidas impressas em 3D.

Em comum, hotel, museu, casas, biblioteca flutuante e escolas para comunidades ribeirinhas são pensados para serem construídos com materiais e técnicas que se adaptam ao fluxo anual das águas. "Vamos mostrar como podemos viver juntos, não só entre seres humanos, mas também com outras espécies", diz Brajovic.

maquetes translúcidas iluminadas no chão
Projetos em andamento na Amazônia apresentado pelo paulistano Atelier Marko Brajovic na Bienal de Arquitetura de Veneza usam a biomimética para adaptar construções ao fluxo anual das águas - Divulgação

A região amazônica, com mais três projetos —incluindo outro brasileiro, assinado por Gringo Cardia em parceria com índios kuikuro do Alto Xingu—, ocupa uma área nobre do pavilhão central dos Giardini e é lembrada por Sarkis como exemplo do fracasso da atuação política.

"A Amazônia não existe num país ou numa cidade, ela atravessa fronteiras e é preciso as imaginar unidas, como os arquitetos fazem na mostra. É preciso pensar primeiro espacialmente e ambientalmente, não politicamente", diz o curador.

Essa seção que debate as fronteiras é uma das mais certeiras. Fica ali o espaço criado pela palestina Sandi Hilal e o italiano Alessandro Petti, ambos do coletivo Decolonizing Architecture Art Research. Com um vídeo e uma placa fictícia de monumento, eles imaginam o campo de refugiados palestinos Dheisheh, fundado em 1949, sendo reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco.

"Um campo de refugiados é só um lugar de miséria ou tem condições de produzir valores a serem reconhecidos e protegidos?", questionam. "Repensar o campo de refugiados como espaço político não é suficiente. É necessário considerar o refugiado como pessoa em exílio, e o exílio como uma prática política contemporânea capaz de desafiar o status quo."

Ao lado, fotografias mostram crianças brincando em áreas ao ar livre precárias em outro campo de refugiados, esse de sírios no Líbano. As crianças, afirma o libanês Wissam Chaaya, estão na linha de frente na busca por espaços abandonados que, com elas, se transformam em áreas úteis e vivazes.

A diversidade de países ali, no entanto, é pequena. Dos 112 participantes, 75% são da Europa e dos Estados Unidos.

Além desses estúdios e profissionais que assinam projetos individualmente, a Bienal de Veneza é formada pelas representações nacionais, os pavilhões de países em que os trabalhos não passam pela curadoria principal. Eles são convidados a dialogar com o tema central, mas cada país tem autonomia em sua exposição. Neste ano, são 61 nações.

Entre esses espaços, chamam a atenção trabalhos que promovem a madeira, casos das mostras de Estados Unidos, Japão e países nórdicos, que, apesar de abordarem o mesmo material, o fazem de três formas bem diferentes.

Os americanos recontam em fotos, maquetes elegantes e uma fachada erguida em frente ao pavilhão como a madeira é usada na estrutura das casas americanas desde o século 19 e responde hoje por mais de 90% das novas construções residenciais.

Os japoneses exibem peças de uma casa construída em 1954, com madeira, e desmontada em 2019. Os elementos foram transportados de navio para Veneza, deram formas a outras estruturas no pavilhão e, ao fim da mostra, serão reaproveitados.

Já Noruega, Finlândia e Suécia montaram em tamanho real um ambiente de 470 metros quadrados de moradia compartilhada, em que espaços íntimos se revezam com zonas coletivas, para serem divididas com vizinhos, como cozinha, área de serviços e canto para brincadeiras. A proposta do estúdio Helen & Hard é usar esse conceito dos anos 1970, surgido nos países nórdicos, para atualizar os espaços residenciais de hoje.

Ainda entre os pavilhões nacionais, outra exposição bem realizada e pertinente à pergunta do curador é a do pavilhão britânico, que discute com ironia o uso de espaços públicos e privados, como jardins cercados por grades e ruas exclusivamente dedicadas ao consumo.

Saindo dos Giardini é que os pontos fracos da Bienal de Arquitetura ficam mais evidentes. O mais notável deles é o próprio Arsenale, o complexo que começou a ser construído no século 12 para fabricação de embarcações e que abriga grande parte da exposição.

A seção inicial, "Entre Seres Diversos", mescla maternidade não feminina com opções de gaiolas para pássaros, passando por esculturas de cera de abelha e outras com buchas vegetais, para promover edifícios "probióticos". O clima de feira de ciências se completa com instalações high-tech, sobre arquitetura molecular.

Por mais que sejam pesquisas fundamentadas e que buscam dialogar com a proposta da curadoria, a mistura das obras tira um pouco de seus valores.

A dimensão colossal desta Bienal de Arquitetura, mantida mesmo depois de um ano em que os eventos foram cancelados, adiados e repensados, tem recebido críticas, assim como o impacto ambiental de suas instalações temporárias. Além disso, é um evento altamente dependente de visitantes internacionais, numa época em que as viagens, para muitos, continuam restritas.

A jornalista viajou a convite do Atelier Marko Brajovic

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