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Billie Eilish vai de gênio do pop a clichê por usar lingerie na capa da Vogue

Mulheres se escondem porque seus corpos são espaço tutelado por homens e termômetro de suas capacidades

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mulher branca de cabelo loiro longo e levemente ondulado

A cantora Billie Eilish em foto de ensaio da Vogue britânica Instagram/@britishvogue/Reprodução

São Paulo

Billie Eilish quebrou a internet na semana passada ao aparecer em ensaio da Vogue britânica como nunca tinha sido vista –com o corpo quase todo descoberto. A foto que ela postou da capa da revista, em que está loira e veste um apertado corpete rosa e saia e luvas bege, foi a imagem a atingir mais rapidamente 1 milhão de curtidas no Instagram —questão de seis minutos.

Mas a reação às fotos em que a cantora de 19 anos usa lingerie e corpetes Gucci, Burberry, Alexander McQueen, Dolce & Gabbana e outras grifes glamorosas não foi de todo elogiosa, ou, digamos, de bom tom. Entre comentários que se referiam a ela como loira furacão, símbolo sexual e termos que gravitam em torno do “gostosa” há os que apontam seu amadurecimento ou uma traição de sua essência.

Já sabemos, é claro, que a internet nunca está satisfeita com nada. Mas o corpo das mulheres sempre foi objeto de controle e, com as redes sociais, qualquer um acha que tem o direito de opinar e até mesmo dar ordens em relação à imagem de mulheres. Cobertas ou nuas, as mulheres sempre são alvo de ataques e questionamentos.

Quando a vencedora de sete prêmios Grammy se vestia como uma frequentadora do subsolo da paulistana Galeria do Rock, com camisas largas, bermudas, gorros e botinas, em estilo hip-hop com etiquetas e logos de marcas como Louis Vuitton e Gucci, muitos torciam o nariz, diziam que era feio, não feminino, que ela parecia um menino. Outros, que ela era diferente do convencional, e desprezavam as demais cantoras jovens, que se valiam, dizem, de sua beleza física para fazer sucesso.

Ela acabou por se tornar um ícone do chamado “body positivity”, uma bandeira de aceitação do corpo que ela nunca empunhou. Seu corpo estava sempre escondido. Também usam sua imagem para falar dos estereótipos de gêneros, já que ela não se veste de acordo com o que se esperava de uma cantora pop americana adolescente.

Na entrevista que acompanha o ensaio da Vogue, Eilish diz que seu corpo foi “a razão inicial” de sua depressão quando mais jovem e que é sua insegurança mais profunda. A cantora, antes de ser famosa, sofreu uma lesão no quadril dançando e até hoje anda às turras com a recuperação, como é mostrado no documentário “Billie Eilish: The World’s a Little Blurry”, disponível na Apple TV+. Ali também a vemos falar abertamente sobre como costumava se cortar às escondidas. Ela também diz à Vogue que escolheu corpetes para as fotos porque odeia sua barriga.

mulher branca de cabelos loiros longos levemente encaracolados chorando e usando blusa de lã branca levemente aberta
A cantora Billie Eilish em imagem de divulgação de seu próximo álbum, que será lançado em julho - Instagram/@BillieEilish/Reprodução

Não é de hoje que adolescentes escondem o corpo e têm vergonha dele. As garotas se encolhem, se curvam em corcundas para esconder os seios, usam meias grossas para esconder suas pernas. Eilish é uma mulher de seios grandes, que as camisas largas ajudam a esconder. Muitas garotas optam por roupas folgadas menos pelo conforto e mais porque não conseguem lidar de maneira confortável com suas curvas.

Elas são olhadas, os homens falam coisas obscenas para elas nas ruas e os garotos fazem piadas nas escolas. Como Rebecca Solnit nos lembra em suas memórias, “Recordações da Minha Inexistência”, nós mulheres somos ensinadas desde cedo a termos medo e a desaparecer. Não podemos nos fazer notar, temos de ser invisíveis. Ser visível significa que se está sob ameaça de aniquilação, seja pelo estupro, seja pela violência física ou verbal, seja pelo assassinato.

Além disso, se queremos ser levadas a sério, é preciso nos masculinizarmos. Não nos é dada credibilidade. Não somos levadas a sério pelo que dizemos, pelo nosso trabalho. Quando uma mulher faz sucesso em qualquer área, o comentário é frequente –ou ela teve êxito porque é bonita ou porque fez sexo com alguém. É fácil notar casos no mundo da política em que elas passam a se vestir de maneira chapada, como cubos com pernas, para não revelarem seu corpo de mulher.

Aqueles que acreditavam que Eilish era melhor que suas contemporâneas porque não usava uma certa feminilidade em seu favor corroboram a ideia de que as demais só chegaram aonde estão por usarem o corpo como barganha. Não veem, primeiro, que Eilish também usa sua imagem a seu favor, como menina branca de olho azul rebelde com roupas hip-hop, e serve sim à indústria da moda, e, segundo, que celebrar a aniquilação do que é ligado ao feminino não colabora com as bandeiras da autoaceitação e do autocuidado, essas sim empunhadas pela cantora.

Aqueles que enxergam um amadurecimento de Eilish ou uma espécie de saída do casulo de uma ex-larva no ensaio da Vogue e na foto usada para promover seu mais novo single, “Your Power”, em que aparece como uma Marilyn Monroe chorosa, se esquecem de que, para ser uma mulher adulta, não é preciso ser um estereótipo sensual da Hollywood dos anos 1950. Até mesmo Eilish parece esquecer que ser mulher pode querer dizer muito mais coisas do que o patriarcado quer nos fazer crer quando, à Vogue, diz que, loira, se sentiu mais mulher.

Os que a acusam de se vender ao sistema e entrar na roda da exploração da sexualidade da mulher jovem se esquecem de que estavam, há alguns meses apenas, celebrando o fato de que ela ganhou prêmios e compôs para um filme do James Bond estando totalmente fora do sistema e fazendo as coisas do jeito dela, porque compunha no quarto do irmão na casa dos pais. Acreditavam piamente na independência de escolha de Billie Eilish até então, mas, só porque ela aparece de espartilho numa revista, ela se tornou, do dia para a noite, uma idiota influenciável.

No New York Times, a jornalista Ruth La Ferla escreveu que o risco da reinvenção de Eilish é que ela se torne “mais um clichê”. A julgar pelo single já divulgado de seu próximo disco, que será lançado em julho, a música de Eilish não mudará. Mais uma canção pop-folk sussurrada com tema grave. Desta vez, sobre abuso de menores.

Eilish movimenta rios de dinheiro com sua música e seus shows, e ela é, não há como negar, um produto. E produtos culturais, sobretudo aqueles voltados aos jovens, têm uma espécie de obsolescência programada, como as de celulares ou computadores. Eles precisam se reinventar de tempos em tempos.

O ensaio da Vogue e as imagens que ela divulgou relacionadas ao seu novo álbum, em que ela está loiríssima sobre tons pastel, apontam para uma mudança de visual, indo para algo bastante distante de suas roupas de antes, de seu cabelo meio preto meio verde vibrante, dos tons escuros de seus shows e de seus vídeos anteriores, e do clima de lágrimas de tinta azul. Mas não há razão para a atacar como mulher por causa disso, como se seu valor diminuísse à medida que sua pele aparece.

“De repente você é uma hipócrita se quer mostrar sua pele, e você é fácil e uma vadia”, diz Eilish à Vogue, já prevendo os ataques que sofreria. “Mostrar seu corpo e mostrar sua pele —ou não— não deveria ser motivo para não ser respeitada.”

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