Bob Wolfenson faz avesso de retrospectiva em livro sobre seus 50 anos de carreira

Fotógrafo lança 'Desnorte', que reúne retratos, registros de viagem, nus, cenas familiares e imagens de arquitetura

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São Paulo

Nascido em 1954 e criado no “caldeirão sincrético do judaísmo e do socialismo”, como descreve, na infância o fotógrafo Bob Wolfenson abria a janela do seu quarto e via um transformador num poste da rede elétrica.

Nas outras janelas do apartamento do Bom Retiro, em São Paulo, o que o menino observava tampouco era de encher os olhos. Bairro plano, com uma sucessão de pequenos prédios, a região não é conhecida pela beleza do horizonte.

Mais de 40 anos depois, já consagrado como fotógrafo, Wolfenson montou uma exposição na Fundação Armando Álvares Penteado chamada “Antifachada e Encadernação Dourada”, com imagens que passeavam pela arquitetura paulistana. Não um passeio sem arestas —prevaleciam formações geométricas, tonalidades sem vibração e rejeição da perspectiva. Como no Bom Retiro, “você se sente amassado pelos prédios”.

Tempos depois da exposição, Wolfenson notou que poderia haver uma conexão entre a ausência de horizonte na vida de garoto e seu ponto de vista como fotógrafo em relação à arquitetura.

O projeto “Antifachada” contribui com duas das 128 fotografias do livro recém-lançado “Desnorte”, que celebra as cinco décadas de carreira de Wolfenson. Como nessas imagens dos prédios, a publicação é marcada por um diálogo permanente entre passado e presente.

Mas o livro está longe de ser uma conversa linear; é, na verdade, cheia de sobressaltos. Em vez de uma sequência cronológica ou um recorte por assunto ou objeto, prevalece uma “desordem temática”, nas palavras do fotógrafo paulistano.

Para o livro, que se pretende uma nova leitura sobre 50 anos de produção, portanto o avesso de uma retrospectiva convencional, ele e o editor Edu Hirama, também responsável pelo design gráfico, selecionaram retratos clássicos, como os de Hélio Oiticica de 1978 e o de Gisele Bündchen de 2003, imagens menos conhecidas, como "Cubatão", de 2007, e inéditas, como uma cena de rua de Varsóvia de 2011 e o nu potente de uma mulher na casa dos 60 anos de 2017.

Não é um livro com os melhores momentos da minha carreira ou com as fotos mais icônicas. Não tem uma caráter biográfico. É um novo olhar sobre a minha produção de 50 anos

Bob Wolfenson

sobre "Desnorte", seu novo livro

Wolfenson fala em uma “colcha de retalhos que embaralha o jogo de percepção do multifacetado fotógrafo que sou” no texto de apresentação de “Desnorte”. Além dos retratos e nus, surgem polaroides, fotos de moda, registros de viagem, cenas urbanas, imagens de família.

O que poderia soar como desarmonia resulta, na verdade, numa lógica que se articula página a página. A inserção de imagens antigas e recentes em justaposições incomuns dá vazão a novos significados. É o que acontece, por exemplo, com a proximidade dos retratos do estilista Alexandre Herchcovitch e da atriz Bruna Lombardi que, feitos em 2016 e 1995, nesta ordem, se ligam pelos olhares inescrutáveis.

Nus de musas de diferentes gerações tomam caminhos diversos em “Desnorte”. Sônia Braga, em 1987, ganha uma renovada voltagem erótica enquanto Camila Pitanga, retratada em 2008, está envolvida numa atmosfera etérea.

Essa última imagem, aliás, se aproxima de outras de caráter melancólico, como “Águas de Lindóia”, de 2013, que integrou o projeto "Belvedere".

O fotógrafo Bob Wolfenson, que lança o livro "Desnorte" - Ze Carlos Barretta - 5.abr.2019/Folhapress

“Li recentemente um comentário do Richard Misrach, fotógrafo americano de quem gosto muito. Dizia que os curadores querem que você tenha o que chamam de ‘estilo’, mas ele defende que o fotógrafo comece com um tema, passe para outro, depois para outro. E tudo dentro de um certo olhar semelhante. Não é bem o meu caso, prefiro rupturas mais radicais”, afirma.

Uma das imagens insólitas do livro mostra um amontoado de gaiolas, de tamanhos e cores variados, numa pequena sala. É um entulho descoberto no interior de São Paulo, em 2010, resultado de apreensões em espaços ilegais que prendiam galos de briga e outras aves.

Uma placa que veio junto com as apreensões, retirada de um lugar dedicado a rinhas de galo, aparece no lado esquerdo da imagem. Ela avisa “silêncio - desobediência implicará fim da brincadeira”. Meio século depois de, aos 16 anos, começar a trabalhar num estúdio de fotografia da editora Abril, Wolfenson ainda está disposto a brincar com as imagens.

Desnorte

  • Quando Lançamento nesta quinta (6), às 19h, com bate-papo com Bob Wolfenson e o editor e curador Thyago Nogueira
  • Onde No Zoom http://bit.ly/desnortezoom; confirmar presença p/ bobwolfensonestudio@gmail.com
  • Preço R$ 280 (versões com capa craft e com capa rosa) e R$ 490 (versão numerada para colecionador, esgotada); informações sobre a compra no Instagram do fotógrafo, @bobwolfenson
  • Autor Bob Wolfenson
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