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Carolina de Jesus inspira coro de vozes negras que criam nova literatura

Coletânea 'Carolinas' oferece às mulheres a liberdade criativa com que a escritora tanto sonhava

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Fernanda Silva e Sousa

Doutoranda em teoria literária e literatura comparada na USP

Quando Carolina Maria de Jesus fez sucesso ao lançar "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada", em 1960, muito se enfatizou o impacto do livro na consciência das elites e da classe média sobre a pobreza e a fome no Brasil.

Esse enfoque por muito tempo invisibilizou a recepção negra e feminina de seu texto, que interpretou sua escrita não apenas como mera denúncia, mas também como expressão do direito legítimo de contar sua própria história.

Depois de 60 anos da publicação de seu primeiro livro, mais do que reconhecimento da importância da sua escrita, temos acompanhado um movimento crescente que redimensiona sua principal obra como marco de uma transformação na literatura, cujos efeitos são vividos por inúmeras mulheres negras que se sentem encorajadas a escrever literatura e a viver, como Carolina, com um lápis debaixo do travesseiro.

É nessa perspectiva que merece ser celebrada a coletânea "Carolinas - A Nova Geração de Escritoras Negras Brasileiras", organizada por Julio Ludemir, com ilustrações de Thaís Linhares, prefácio de Fernanda Miranda e textos de mais de 200 mulheres negras, apelidadas como "Carolinas", uma vez que seus escritos foram estimulados com base na produção e no legado de Carolina Maria de Jesus.

Fruto do ciclo de debates "Uma Revolução Chamada Carolina", da Festa Literária das Periferias do ano passado, em celebração dos 60 anos de "Quarto de Despejo", o livro reúne produções literárias de escritoras negras de todo o país que vivenciaram um processo coletivo e formativo de escrita criativa sob a orientação de escritoras como Eliana Alves Cruz e Ana Paula Lisboa, entre outras pessoas, o que deu origem às narrativas.

Em contraste com a situação de Carolina, em que apenas a escrita de diários interessava ao mercado editorial, desprezando, assim, suas peças, composições, romances, contos e poemas, essa coletânea, quase como uma forma de reparação, oferece às mulheres negras o que a escritora mais buscava e sonhava —a liberdade criativa.

Assim, encontramos cartas, crônicas, diários coletivos e individuais e narrativas ficcionais produzidas em um gesto em que se autorizam a contar e reinventar suas vidas.

Do morador em situação de rua cuja beleza é associada ao filme "Black Is King", de Beyoncé, de uma avó com Alzheimer que cantarolava "as sobras das canções que a memória jamais apagou" e partiu num dia de sol, às alusões aos assassinatos recentes de pessoas negras e a uma "fome que carrega consigo todas as aflições do mundo", "Carolinas" evidencia as ambivalências da experiência das mulheres negras e a recusa, pela escrita, à violência e à pobreza como único vocabulário possível para sua realidade.

Guiadas pelos ecos do solo de "Quarto de Despejo" que reverberam no presente, "Carolinas" pode ser visto como um coro em que cada mulher negra tem direito ao próprio solo e chora, ri, grita, canta, lamenta, cria e improvisa novos sentidos para si e, especialmente, para a literatura.

Assim, essa nova geração de escritoras negras brasileiras é também parte da tradição literária negra que desafia as concepções hegemônicas de literatura ao ter como paradigma estético a experiência daquelas que, como diria Lélia Gonzalez, estão na lata de lixo da sociedade brasileira.

Adaptando as suas palavras ao anunciar em um ensaio que "o lixo vai falar, e numa boa", a coletânea "Carolinas" reforça que as mulheres negras vão escrever, e numa boa.

Carolinas

  • Preço R$ 60 (560 págs.)
  • Autor Várias; organização de Julio Ludemir
  • Editora Bazar do Tempo
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