Descrição de chapéu Livros

Conheça Annie Ernaux, que escreveu para apagar uma traição e se tornou best-seller

Escritora fala sobre 'O Lugar', livro em que narra vida do pai para se reconciliar com suas origens sociais

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São Paulo

“Arrisco uma explicação: escrever é o último recurso quando se traiu.” A frase de Jean Genet continua ecoando para Annie Ernaux, desde que ela a utilizou como epígrafe de “O Lugar’, em 1983.

Ernaux não sabia que, ao acertar as contas com a história de seu pai, inauguraria uma nova forma literária. Não só dentro de sua obra, que se compunha, até aí, de três romances de inspiração autobiográfica, mas no panorama francês.

Em sua obra porque, com “O Lugar” —que no Brasil inaugura o catálogo da editora Fósforo—, ela encontra o que seria sua voz: uma escrita descritiva, quase antiliterária, parca em figuras de linguagem ou estratagemas narrativos.

O resultado desse texto desprovido de artifícios é, ainda assim, comovente em dimensões que vão além da íntima dor da perda do pai que a motivou.

Em pequenos quadros encadeados, ela rememora a trajetória desse homem, um camponês que se tornou operário e, depois, proprietário de um bar e mercearia numa cidadezinha normanda.

Traça, ao mesmo tempo, um quadro social da França. Com isso, desempoeirou o campo literário no país, colocando em cena personagens que não eram retratados senão de modo caricatural.

Ao telefone, ela conta com uma voz vivaz que não denuncia seus 80 anos, que, com a morte do pai, em 1967, diz, “houve um clique”.

Ela não poderia ficcionalizar o ato que enuncia na epígrafe e que perpetrou ao estudar para se tornar professora de letras e, depois, escritora. Empurrada adiante pelo trabalho braçal da família, adotou o “grupo dominante” e se sentia culpada.

Sua mãe, que havia sido também empregada numa fábrica, atendia na mercearia; o pai se ocupava do bar e de manter certos hábitos do campo no terreno da casa, sem banheiro, que também lhes servia de lar.

Ela foi buscar o tom de sua escrita nas cartas sem floreios enviadas e recebidas quando estava fora de Y. —Yvetot, a cidade normanda onde cresceu. “Qualquer tentativa de desenvolver um estilo soaria como uma forma de mantê-los à distância”, escreve.

Assim, a faca Opinel usada como talher, as interferências do dialeto na expressão oral, a falta de jeito diante da sofisticação que a França projeta para fora não são retratos só do pai, mas de toda uma classe de pessoas à qual o país virava as costas.

A crítica não ficou indiferente. Ernaux recebeu o Renaudot, um dos principais prêmios literários de seu país.

O reconhecimento lhe deu oportunidade de viajar, recorda, “o que era muito agradável”. Mas não mudou seu cotidiano profissional.

Continuou com o ofício de professora até os 60 anos. “Não foi fácil para a escrita, mas eu venho de um meio modesto, tinha filhos, vivia sozinha, tinha medo de escrever para viver. Materialmente nunca fiz isso.”

Tampouco se alterou sua relação com o mundo dos escritores, no qual sua ousadia não foi totalmente assimilada. “Eu não participei da vida literária francesa. Fiquei sempre à parte e foi só de 10 ou 15 anos para cá que passei a ser mais solicitada.”

O público, porém, abraçou o livro. “O Lugar” já vendeu mais de 950 mil exemplares na França, tendo sido traduzido em 29 idiomas e gerado teses em diversos países.

A autora diz que essa é de fato a obra pelo qual começar a lê-la, pois determina sua forma de escrita —não “plana”, como disseram detratores, mas “factual, uma escrita perto das coisas, dos fatos, que recusa comparações”.

Esse livro em que as coisas são como são não nasceu somente da reimersão de Ernaux no mundo de seus pais. Em grande parte, o “clique” da morte do pai só se completou com “um choque”, vindo após o turbulento 1968, após as revoltas estudantis de maio.

“A gente se interrogava sobre como ensinar, a qual público, como levar em conta a origem social dos alunos”, lembra. Nessa busca, descobriu “Os Herdeiros”, dos sociólogos Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron. O livro, publicado em 1964, abordava o sistema de ensino universitário e sua relação com a elite cultural.

“Eu me disse ‘entendi tudo’, minha atitude de estudante de letras, minha dificuldade, o sentimento de ter vergonha dos meus pais.”

Outros títulos de Bourdieu fermentariam em Ernaux a consciência do lugar de onde vinha.

Hoje, ela tem seus próprios herdeiros, na figura de Didier Eribon, autor “Retorno a Reims”, lançado no Brasil pela Ayiné, e Édouard Louis, de “O Fim de Eddy”, editado pela Tusquets.

Ambos —não por acaso discípulos e estudiosos do pensamento de Bourdieu que ascenderam no meio acadêmico— narram suas origens como Ernaux havia feito décadas antes, a contracorrente.

“Nos anos 1980 e 1990 eu fui muito atacada por certo meio literário”, diz, recordando que antes de “O Lugar” também esteve na vanguarda feminista com “La Femme Gellée”, seu terceiro romance, que até hoje é bem lido.

Algo parecido com a unanimidade em torno de seu nome chegaria em 2008, quando lançou “Os Anos”. A obra, que saiu no Brasil em 2019 pela Três Estrelas e será relançada em junho pela Fósforo, é o livro que Ernaux coloca “acima de todos os outros”.

“Os Anos” repassa a história da França do pós-Guerra até o começo dos anos 2000 ao mesmo tempo que se constitui como uma espécie de autobiografia em terceira pessoa, forma que, diz, levou 10 ou 15 anos para alcançar.

A narrativa dos anos como “ela” os viveu mescla descrições de fotos de álbum de família, canções, propagandas. “Há um jogo, o tempo todo, entre memória e história.”

Ela vive há 44 anos na mesma casa, em uma cidade onde a memória não se separa muito da história. Ernaux mudou-se ainda casada, com o marido e os dois filhos, para Cergy-Pontoise, uma cidade periférica entre a coruscante Paris e o campo de seus pais, nasceu nos anos 1970.

“Eu estou realmente no lugar que corresponde ao meu percurso social”, admite. “Vivo num lugar onde as pessoas vieram e vêm de toda parte. A cidade se parece comigo.”

Mas a percepção do tempo que é matéria da sua obra, se encontra agora “muito afetada” devido à pandemia. Mesmo se seu projeto de vida se volta para o passado, ela ressente o fato de que “não há mais futuro, não fazemos mais projetos”.

Se não há futuro, há um presente, no qual ela continua a trabalhar, todos os dias, sobre a vida ao seu redor. Trabalha num livro que mistura sua trajetória de escritora e a da cidade onde escolheu viver.

Ela não se gaba de escrever rapidamente. Vai ao encontro e de encontro ao tempo. “Eu poderia continuar a escrever coisas mais romanescas, e isso não quero. A escrita para mim é grave, importante, política. Essa forma de escrita, de saber para quem e por quem escrevo, apaga a traição.”

O Lugar

  • Preço R$ 49,90 (R$ 39,90 na pré-venda), 72 págs.
  • Autor Annie Ernaux (tradução de Marília Garcia_
  • Editora Fósforo

Livro é 1º lançamento da Fósforo

“O Lugar” inaugura as atividades da Fósforo, fundada por Fernanda Diamant, ex-curadora da Flip, Luís Francisco Carvalho Filho, colunista da Folha, e Rita Mattar, ex-editora da Três Estrelas —títulos do antigo selo editorial do Grupo Folha integrarão o catálogo da Fósforo.

Como o livro de Ernaux, já estão em pré-venda pelo site da editora ‘Psiconautas’, de Marcelo Leite, colunista da Folha; ‘O Cometa’, romance de W.E.B. Du Bois; e “O 13 de Maio e Outras Estórias do Pós-Abolição’, coletânea de textos de Astolfo Marques, com organização de Matheus Gato.

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