Descrição de chapéu

Imperador Sem Teto é o tipo de música que o Brasil precisa ouvir agora

Canções do projeto de Curitiba incluem hino perfeito para estes tempos tacanhos e intolerantes

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Zeca Camargo

Se rima fosse teto, Imperador... "Anoiteceu, hoje eu que tô no escuro procurando vagas no futuro e respostas nos pichos dos muros."

Entre as perguntas que eu mais ouvia quando lancei a biografia de Elza Soares em 2018, vinham variações sobre o seguinte tema —"como você explica a Elza ser tão idolatrada pelos mais jovens, que nem eram nascidos quando ela estava no auge do sucesso?".

Existe mas de uma coisa errada com essa indagação. A mais rasa delas é a noção de que Elza teria tido seu período áureo décadas atrás, quando, como sabemos bem, ela nunca fez tanto barulho quanto no século 21.

Mas o que realmente me incomodava na questão era outra obviedade, o fato de que os mais jovens tinham que procurar numa mulher décadas mais velha do que eles uma música que dissesse coisas que tivessem realmente a ver com a vida deles.

Alimentadas com uma papinha pop feita basicamente de modinhas de traição, de rolos e acertos com o ex ou a ex, uma boa parte dessa juventude, felizmente mais lúcida, não vinha encontrando no que toca nas rádios ou nas playlists feitas pelos algoritmos dos seus aplicativos de streaming vozes que eles pudessem ouvir e dizer "isso me representa".

Aí chegava Elzinha. "Na avenida, deixei lá/ A pele preta e a minha voz/ Na avenida, deixei lá/ A minha fala, minha opinião." Era tudo que eles queriam cantar!

O culto moderno à cantora é tão grande que faz sombra, sem querer, a toda uma leva de novos artistas, por todo o Brasil, que estão pondo música em versos como os que abriram este texto, ou ainda nesta cadência forte: "Porque no morro/ Nóis morre/ E na favela/ Nóis morre/ Periferia/ Nóis morre/ Morte ocorre/ O sangue escorre/ E se recorre/ E o que que ocorre?/ Jamais/ Bem capaz/ Porque ter paz é só mais um desses artigos de luxo/ Pra nós é tiro no bucho/ É todo dia pão murcho/ Como que pó... Deus acó... povo ó... não sei o quê... ah mas se fode... cê se fode... e take it easy... take it easy não, não minimize ou amenize".

Por trás desses momentos inspirados, está um projeto de Curitiba chamado Imperador Sem Teto. Criado por Igor Kierke em meados da década passada, ele é o melhor exemplo de que tem gente fazendo coisas muito importantes e revolucionárias na nossa música pop. É só a gente querer ouvir.

Fui apresentado ao Imperador com certo atraso. Apenas recentemente ouvi pela primeira vez sua música "Prosa", o hino mais perfeito para estes tempos tacanhos e intolerantes. Um samba de cadência invejável, é um mistério para mim porque uma letra como essa já não está desde 2019, ano em que foi lançada, no nosso consciente coletivo: "Vam' proseá, que eu tenho umas coisinha pra dizer bem na tua cara/
 Que se eu não interromper, você não para com essas merdas/ 
Que tua boca dispara, fedendo a ódio e repressão, porra!/ 
Presta atenção no teu discurso de cuzão".

"Prosa" é uma pequena obra-prima libertária, uma espécie de antídoto do chamado gabinete do ódio. Com uma diferença básica –essa resposta elegante vem com fina poesia, rimas que, se fossem teto, fariam desse imperador o dono de um um enorme palácio.

"Não, não procede, não se mete/ Tua fala fede, vê se não se repete", canta Kierke, antes de subir o tom e anunciar logo antes do refrão "com o perdão da redundância (mas vai se fuder)". Não quero dar spoiler, pois vai ser muito mais incrível você, que ainda não conhece a música, ouvi-la pela primeira vez, mas só para dar uma ideia, o coro termina com "é que o cu alheio deve nada pra você".

Ruborizou-se? Sem problema, só voltar para as baladinhas sobre... baladinhas e mensagens no celular. Mas o que o Brasil precisa ouvir agora é mais Imperador sem Teto e outros artistas como ele que certamente estão por aí. E haverá mais chances disso, porque eles já estão finalizando um novo álbum, "Lado B", espécie de continuação do trabalho de 2019, "Lado A".

Só que, como o próprio Kierke define, se antes eles só estavam expondo suas ideias, agora a chamada é para a ação. "Chame de terremoto que a base vai tremer", canta ele em uma música nova. Elzinha certamente ficará orgulhosa disso. E disso: "Esse passado é uma doença que eu não curo, eu juro, tem coisas que eu já nem procuro e coisas que eu já não aturo".

Confira música exclusiva de lançamento do Lado B:

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.