Luz, sombra e silêncios compõem tragédia e redenção familiar em 'A Sun'

Longa taiwanês foi debatido no Ciclo de Cinema e Psicanálise desta terça (11)

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São Paulo

Os contrastes, principalmente entre luz e sombra, em sentido metafórico e literal, marcam a narrativa brutal da tragédia da família Chen, que começa com a prisão do filho caçula, A-Ho. Ele participa de um crime nas primeiras cenas do filme “A Sun”.

O longa do diretor taiwanês foi debatido no Ciclo de Cinema e Psicanálise, realizado pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), que aconteceu nesta terça (11).

Embora A-Ho seja o gatilho que dá origem à narrativa, os conflitos existenciais de cada membro da família (o pai, a mãe e o irmão, A-Hao) têm seu lugar no roteiro.

A-Hao, o irmão mais velho exemplar, oposto do caçula delinquente, vive sob a pressão da esperança depositada nele, principalmente pelo pai, que considera o filho mais novo morto depois da prisão.

Jovem de camiseta preta em frente a um carro
O protagonista A-Ho em cena do filme 'A Sun' (2019) - Reprodução

Na interpretação de Carmen Mion, diretora-presidente da SBPSP , o pai, um instrutor de autoescola, vive apegado a crenças, simbolizadas pelo respeito às regras de trânsito, na tentativa de simplificar a complexidade e injustiça inerentes à vida e à nossa incapacidade de controlá-la.

Em uma mensagem escrita no dia em que comete suicídio, A-Hao fala sobre nunca ter encontrado um lugar à sombra. Ele se sentia incessantemente sob o sol “radiante e quente”, sob as pressões colocadas sobre seus ombros.

A partir da morte brutal do filho preferido, o pai muda sua percepção sobre o caçula, então simbolicamente morto, e ensaia uma reaproximação. “Ele vê o desmoronamento dessa crença, teoria ou fantasia que ele tinha sobre a vida, e com isso passa a enxergar a existência de A-Ho”, diz Carmen Mion.

A-Ho, por sua vez, vai trilhando sua própria jornada de herói, primeiro no reformatório, depois na busca por emprego e vida digna depois de solto.

A relação entre os membros da família é permeada por silêncios, bastante explorados pelo diretor. “Na minha visão, os chineses puxam muito assunto, falam muito, mas há um grande silêncio sobre certos assuntos”, diz Talita Fernandes, editora-sênior da plataforma Shumian de conteúdos sobre a China e participante do debate. Ela ressalta a diversidade cultural chinesa e o fato de falar sob a perspectiva de quem mora na China continental.

A mãe da família, que vive entre esses silêncios e momentos de repressão de seus sentimentos diante das tragédias, consegue acolher personagens coadjuvantes, como as namoradas dos filhos e, diferentemente do pai, não abandona o filho caçula.

A última cena do filme mostra a mudança pela qual também passa a mãe. A-Ho a convida para andar em uma bicicleta roubada e ela, reticente, aceita. “Ela deixa de ser contida e se permite ser carregada pela sombra em que o filho vive, da ilegalidade”, diz Fernandes. A referência da cena é à infância do próprio A-Ho, quando era a mãe que o levava na garupa da bicicleta.

“Mais que um filme sobre família, é um filme sobre a vida humana e sua complexidade, diante das turbulências despertadas pelo encontro com o outro. Para nós, psicanalistas, são matérias do dia a dia do consultório”, diz Carmen Mion.

O Ciclo de Cinema e Psicanálise é promovido quinzenalmente pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em parceria com a Folha e o MIS. O próximo debate será no dia 25 de maio, às 20h, sobre o filme "Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou", de Bárbara Paz, disponível para aluguel no Now.

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