Mario Frias foi de galã teen a grande aliado armado de Bolsonaro na anticultura

Garoto tranquilo nos sets de 'Malhação', o hoje secretário da Cultura trata funcionários aos gritos na Esplanada

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Retrato do ator Mario Frias, hoje secretário especial da Cultura, feito pelo artista Rodolpho Parigi

Retrato do ator Mario Frias, hoje secretário especial da Cultura, feito pelo artista Rodolpho Parigi Gabriel Cabral/Folhapress

Eduardo Moura

Repórter da Ilustrada, onde cobre política cultural

[resumo]Mario Frias, ex-galã teen, é o secretário da Cultura mais longevo do governo Bolsonaro. Casado com uma catarinense, ele se tornou amigo de um deputado do PSL que o levou para Brasília. Garoto tranquilo nos tempos de "Malhação", hoje, próximo dos 50 anos, trata funcionários aos gritos na Esplanada

Cara a cara, ele era até mais interessante do que nas fotos. Um garoto da zona oeste do Rio de Janeiro, que gostava muito de futebol, praia, surfe e vivia muito bronzeado. Na época, tinha um corpo muito bonito —era um menino muito bonito, loiro, de olhos claros. Um cara extremamente agradável, que pareceu muito comprometido. É o que conta o diretor sobre como chegou ao veredicto. “Tá, esse cara nos interessa.”

Não fazia muito tempo desde que Leandro Neri tinha chegado ao cargo de diretor de dramaturgia na TV Globo. Naquele momento, sua tarefa era cuidar da troca de elenco para a nova temporada de um seriado.

“‘Malhação’ tinha um perfil muito diferente das outras produções de TV na época, porque tinha uma academia como cenário. Então a gente tinha a prerrogativa de buscar pessoas que tivessem um ‘physique du rôle’ a ver com o ambiente”, conta Neri.

Retrato do ator e secretário de Cultura Mario Frias; pintura do artista Rodolpho Parigi - Gabriel Cabral/Folhapress

A equipe tinha muitos olheiros em lugares como academias de ginástica e praias, na expectativa de encontrar pessoas que pudessem se encaixar na série. “Era um produtor, alguém da equipe, que ia à praia no fim de semana e via uma menina bonita, um cara bonito, bem-cuidado, e falava ‘esse cara vai na academia, não é possível’. E aí abordava, sacou? E acho que o Mario acabou chegando dessa forma.”

A partir desse encontro, Mario Frias faria sucesso na TV, primeiro como Escova, em 1998, personagem com mechas loiras e pinta de surfista, par romântico de Juliana Baroni. Só ganharia o status de protagonista perto da virada do milênio, numa nova reformulação de “Malhação”, na sexta temporada, ao lado de Priscila Fantin, interpretando Rodrigo, integrante do time de polo aquático da escola.

“Acho que ele nunca pensou em virar ator”, diz Neri. Uma das primeiras performances de Frias em frente às câmeras foi na abertura da novela “O Campeão”, transmitida em 1996, pela Band.

Uma prima, que trabalhava numa produtora, precisava de alguém que jogasse bola, coisa que nenhum dos modelos contratados até então sabia fazer, segundo o próprio ator contou em entrevista à primeira-dama da RedeTV!, Daniela Albuquerque, há três anos.

Relutante em aceitar o convite no início, ele acabou indo na marra, levando uma bronca da mãe, que berrava que “vagabundo não fica aqui em casa”.

Nos bastidores de “Malhação”, Frias tinha um perfil bem tranquilo. “Um ator que reclamava muito pouco, por isso que eu lembro dele”, conta, aos risos, o diretor-geral do seriado, Ignácio Coqueiro.

O garoto da Barra da Tijuca não correspondia àquele arquétipo do jovem deslumbrado com a fama repentina. Arroubos de ciúmes, crises de estrelismo, vida social agitada, mulherada a tiracolo —nada disso era do feitio de Frias, lembram os diretores.

“Sabia que ele morava com a mãe. Nunca foi aquele cara pegador, sempre foi bastante respeitoso com o sexo feminino”, lembra Neri. “Nunca conversamos sobre política, mas percebi que ele teve uma criação muito parecida com a minha, católica, valores familiares, correção, justiça, ele sempre foi um cara de muita correção.”

“Ele não dava problema nenhum. Estava sempre na hora, com o texto decorado. Nunca foi deselegante no set, nunca levantou a voz para ninguém. Um cara muito moderado, muito educado”, diz Coqueiro.

Mas o ator não fazia a linha chatão-sem-senso-de-humor. Pelo contrário, demonstrava levar brincadeiras e gozações de forma saudável.

“Tinha muita cena de sunga na ‘Malhação’, e preciso dizer que o Mario tinha uma bunda enorme, descomunal. As meninas da equipe ficavam loucas com ele”, lembra Neri.

O diretor, então, por algum motivo, teve a ideia de fazer um concurso da bunda mais bonita da “Malhação”.

“Não sei se de sacanagem ou não, mas, cara, todo o mundo votou nele, porque realmente era uma coisa que chamava muito a atenção —principalmente das meninas, elas enlouqueciam quando o Mario colocava uma sunga”, diz Neri. “Tem gente que, numa brincadeira dessa, se sente ultrajada. Ele sempre levou na esportiva, dava risada.”

Depois de “Malhação”, Frias ainda atuou em algumas novelas da Globo. Fez o deputado Thomas Jefferson, em “Senhora do Destino”, antes de se aventurar por outras emissoras.

Quando entramos em contato com Aguinaldo Silva, o autor do folhetim, para conversar sobre a passagem do ator pela novela, a resposta foi bem curta. “Mario Frias? Quem é Mario Frias?”, perguntou o dramaturgo.

Silva disse que não se sentia habilitado a falar do atual secretário especial da Cultura. “‘Senhora do Destino’ é de 2004, tinha uns 60 personagens, eu fiz tantas novelas depois disso. Se você perguntasse da Susana Vieira era uma coisa, mas eu nem me lembro do Mario Frias, era um personagem secundário.”

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Mosaico a partir de pintura feita pelo artista Rodolpho Parigi - Gabriel Cabral

Nos anos seguintes, Frias foi galã na novela infantil “Floribella”, da Band, e vampiro na icônica “Os Mutantes”, da Record, enquanto ainda fazia participações na Globo, como na competição de dança no gelo, no Domingão do Faustão, em 2007.

“Depois disso eu perdi contato com o Mario, mas não deixei de acompanhar, também sou da zona oeste. A gente tinha se tornado pessoas próximas, não posso dizer que virou meu amigo”, acrescenta o diretor Leandro Neri.

Nesse período, Frias também foi vocalista de uma banda de pop rock, a Zona Zero. Chegou a aparecer no Disk MTV, mas não teve sucesso a ponto de fazer um hit como os dos contemporâneos —e vizinhos— do LS Jack.

“Quando eu estava no Caldeirão [do Huck, como diretor], sempre que tinha oportunidade eu levava a banda dele. A gente virou amigo, assim, de trabalho. Fora do trabalho também”, conta o diretor Ignácio Coqueiro.

“Ele arrisca muito. Talvez ele tenha saído da Globo porque queria dar o voo dele. Tanto deu que está onde está”, diz.

O ator cresceu no condomínio Barramares, na Barra da Tijuca, onde também morava Marcus Menna, autor do hit “Carla”, e o irmão Gustavo. Os dois são filhos do general Rui Monarca da Silveira, figura do Exército próxima do general Luiz Eduardo Ramos, atual ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro. Gustavo é hoje chefe de gabinete de Mario Frias na Secretaria Especial da Cultura.

Na década seguinte, Frias se firmou como apresentador, intercalando programas de auditório com participações em novelas. Nos game shows com alunos secundaristas, encontrou um campo fértil, que acabaria abrindo caminhos em direção a Brasília.

Carioca da gema, catarinense honorário

A árvore genealógica de Mario Frias tem alguns nomes ilustres, sobretudo na parte materna. Um exemplo é a artista modernista Ione Saldanha, autora de obras que frequentaram os mais importantes museus e eventos das artes visuais do país.

Detalhe da tela da artista Ione Saldanha, 'Pintura I' (1966), óleo sobre tela, que abiru a exposição 'Arte e Ousadia', no Masp, em 2007 - Eduardo Knapp/Folhapress

Frias também é parente de João Saldanha, jornalista, ex-técnico da seleção brasileira e militante do Partido Comunista Brasileiro. Outro parente ilustre é o ex-jogador de vôlei e ex-secretário de Esportes de Belo Horizonte, na gestão Alexandre Kalil, Bebeto de Freitas, que sempre defendeu Lula nas reuniões de família, de acordo com um primo.

Outro atleta famoso da família era Heleno de Freitas, ídolo do Botafogo nos anos 1940, que encantou Nelson Rodrigues e Gabriel García Márquez. Sua vida virou livro e filme. No cinema, foi encarnado por Rodrigo Santoro.

Heleno de Freitas, muso futebolista de Nelson Rodrigues e Gabriel García Máquez - Reprodução

A família estendida era radicada na zona sul do Rio de Janeiro. Mario Frias passou os primeiros anos de sua vida em Ipanema antes de se mudar para a Barra da Tijuca, na zona oeste. A mudança fez com que perdesse um pouco do contato com a família materna, diz o primo Raul Milliet Filho, que foi militante da Ação Popular Marxista-Leninista durante a ditadura militar. “A Barra acaba sendo quase outra cidade.”

Filho de Mario Antonio Frias e Maria Lúcia de Freitas, o ator vem de uma família de classe média que, como tantas outras, é composta de pessoas de matizes políticas variadas.

“Nessas eleições [de 2018], me chateou quando eu vi que tinha um lado da família que estava majoritariamente votando no Bolsonaro. Aí quando me dei conta, o Mario estava fazendo cerco para assumir o lugar da Regina Duarte”, diz Milliet.

Caçula, Mario Frias tem duas irmãs. Patricia, casada com um historiador, “era meio riponga”, conta o primo Felipe Veloso. Em 2008, ela teve um aneurisma, foi levada às pressas do sul de Minas ao Rio, mas não resistiu.

Monica é pesquisadora em linguística e evita se posicionar politicamente nas redes sociais, embora volta e meia compartilhe algum conteúdo feminista ou matérias jornalísticas —uma delas foi “Sequenciar coronavírus só foi possível com investimento público, diz cientista”, do site Brasil de Fato.

Em 2018, a filha de Monica usou o filtro “mulheres contra Bolsonaro” em seu perfil no Facebook e ganhou emojis fofos dos pais como resposta, mas levou um joinha negativo da avó, Maria Lucia. Uma família de classe média exalando brasilidade virtual.

O pai do ator, Mario Antonio, era piloto. Morreu quando o filho caçula ainda era adolescente. O helicóptero que ele pilotava foi tomado por criminosos que planejavam o plano de fuga de um detento de um presídio do Rio de Janeiro.

O traficante Meio Quilo, que tentava fugir, se agarrou ao esqui do helicóptero. A polícia, então, atirou em direção ao fugitivo e aeronave explodiu. A necropsia de Meio Quilo constatou que nenhum dos disparos atingiu o traficante.

A notícia da morte de Mario Antonio saiu no Jornal do Brasil, no dia 1º de setembro de 1987. Foi dada no último parágrafo de uma nota de pé de página intitulada “Helicóptero vale 145 mil dólares”. A matéria destacava o prejuízo do proprietário do helicóptero, para só depois mencionar a morte do piloto.

“Sob uma chuva fina, foi sepultado no final da tarde, no Cemitério São João Batista, o piloto Mario Antonio Frias, morto durante a frustrada tentativa de fuga de presos da Falange Vermelha da Penitenciária Milton Dias Moreira.”

A primeira mulher de Mario Frias foi a colega de “Malhação” Nívea Stelmann, com quem tem um filho —o casal se separou em 2005. Os dois demonstram nas redes ter uma boa relação até hoje, ainda que Stelmann tenha se mudado para Orlando, nos Estados Unidos, em 2019.

Depois disso, Frias engatou um relacionamento com a publicitária catarinense Juliana Camatti, sua atual mulher. Eles se casaram em 2008, numa cerimônia na praia, nas imediações de Florianópolis. O reverendo anglicano que celebrou a união ficou preso no trânsito, e a cerimônia acabou acontecendo às duas da madrugada, conforme a revista Caras relatou na época.

Com Juliana Camatti, teve uma filha e estabeleceu laços com Santa Catarina —e foi lá onde Frias começou a se aproximar da política.

Juliana Camatti tem um irmão, o bacharel em direito Christiano, também conhecido como Bolha. Lá pelos idos de 2012, Bolha costumava compartilhar fotos em festas e na praia. Eram imagens do subgênero fotográfico consagrado informalmente como “foto de galera”. Na galera de Bolha, estava Daniel Freitas.

Em foto postada em janeiro de 2012, o atual deputado bolsonarista Daniel Freitas (ao centro, de regata) faz hang loose ao lado de Christiano Camatti (de boné branco), cunhado de mario frias
Em foto postada em janeiro de 2012, o atual deputado bolsonarista Daniel Freitas (ao centro, de regata) faz hang loose ao lado de Christiano Camatti (de boné branco), cunhado de Mario Frias - Reprodução/Facebook

Além de ex-vocalista da banda de reggae Pé N’Areia e amante do surfe, Freitas é um político que logo se tornou amigo do ex-“Malhação”.

Em 2015, quando Freitas era vereador pelo Progressistas em Criciúma, cidade da família de Juliana Camatti, o parlamentar conseguiu aprovar um decreto que transformou Mario Frias em cidadão honorário criciumense.

“Este autêntico ‘carioca da gema’ sabe o caminho certo a trilhar para que haja equilíbrio, saúde e espiritualidade em sua vida”, escreveu Daniel Freitas no projeto de lei. “Em Criciúma, o ator está desenvolvendo projetos culturais voltados para oficinas de teatro em parcerias com a TV e a agência Talent’s Model, dentre outros.”

Atualmente, Freitas é deputado pelo PSL. Mesmo após a saída de Bolsonaro da legenda, o parlamentar permaneceu fiel ao presidente.

O político catarinense já apareceu na live semanal de Jair Bolsonaro e já esteve na entourage do presidente em viagem internacional. Junto de nomes como Eduardo Bolsonaro e Filipe Martins, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, acompanhou o capitão em sua visita a Mar-a-Lago, o resort nababesco de Donald Trump, nos Estados Unidos, em março do ano passado.

Alguns desses brasileiros —Daniel Freitas incluso— voltaram para casa carregando consigo um micro-organismo, de nome Sars-Cov-2.

Pioneiro na onda do coronavírus no Brasil, o bolsonarista Daniel Freitas ainda emplacaria o futuro comandante da Cultura no país.

Brasília, a melhor viagem

“É isso aí, galera! Essa foi a última Melhor Viagem do ano. Desejo tudo de bom para vocês, que seus sonhos se realizem. Muita felicidade para todos nós brasileiros. É isso aí que eu desejo para você e para toda a sua família! Um beijo no coração!”, anunciou um sorridente Mario Frias.

O último episódio inédito de A Melhor Viagem foi ao ar na RedeTV! no último domingo de 2019, mas, antes disso, em novembro, Mario Frias pegou um voo para Brasília.

No Instagram, postou foto com o amigo e deputado Daniel Freitas. Postou outra com o então ministro da Educação, Abraham Weintraub.

Os ares de Brasília parecem ter inspirado Frias a postar, ainda, uma imagem nostálgica, mas profética. “[A] #tbt de hoje é desse personagem que eu amei fazer. Deputado Thomas Jefferson. #tbt #carreira #senhoradodestino.”

Duas semanas depois, o nome de Frias aparecia na agenda do ministro da Educação. Naquela quinta, às 11h15, Weintraub tinha uma reunião marcada com Daniel Freitas e o ator carioca. O assunto era “Projeto TV e Competições das Escolas Brasileiras”.

Mais duas semanas se passaram. Agora era a vez de se reunir com o secretário da Cultura, Roberto Alvim.

A ideia era falar sobre o projeto O Prodígio, game show bem semelhante ao que foi A Melhor Viagem, só que com um apelo mais edificante. “Um jogo dominical onde os melhores alunos, dos melhores colégios, disputam entre si para saber quem é o mais promissor do país”, dizia a descrição no projeto.

Segundo relatos, Frias tinha ido à capital federal numa peregrinação para pleitear patrocínios do governo.

Naquela ocasião, ele disse que foi a Brasília encontrar o amigo Daniel Freitas. “Apenas fiz uma visita ao secretário [Alvim]. Mais nada”.

O ator aproveitou o périplo para tirar uma casquinha da ministra Damares Alves. Ao lado do bolsonarista Daniel Freitas e do amigo Hélio Ferraz, advogado e produtor-executivo do game show A Melhor Viagem, Mario Frias gravou um vídeo em que Damares chama atenção para a causa da adoção. Frias não falou muito, mas ganhou 293 likes. Hélio Ferraz, que também faz figuração no vídeo, é hoje diretor do Departamento de Políticas Audiovisuais da Secretaria Especial da Cultura.

A tempestade perfeita

Aquele ano de 2020 já começou mostrando que seria turbulento. Os panetones ainda nem tinham saído das prateleiras dos mercados quando, em 16 de janeiro, o então secretário Roberto Alvim publicou um vídeo copiando um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler.

Logo foi demitido, abrindo caminho para o início da paquera política entre Jair Bolsonaro e Regina Duarte. Virou casamento em março, em cerimônia de posse celebrada uma semana antes da Organização Mundial da Saúde decretar a pandemia.

Mario Frias postou foto do evento. “Se existe uma pessoa que mereça estar em um cargo de tamanha importância, essa é a Regina Duarte! Mulher corajosa e do bem! Ela tem um feeling poderoso, anteviu tudo o que viria acontecer com o Brasil sob a catastrófica passagem do lulopetismo.”

O amor de verão de Regina e Jair terminaria no fim do outono do hemisfério Sul, em junho, com uma promessa até hoje não cumprida —de que o comando da Cinemateca, em profunda crise, ficaria com Regina.

Na véspera da saída da atriz da secretaria, Bolsonaro compartilhou no Twitter uma entrevista que Frias deu à CNN. O presidente também levou o ator botafoguense, junto com o filho Flávio, a um almoço com os presidentes do Flamengo e do Vasco.

De um lado, com a porteira aberta por Daniel Freitas, Mario Frias foi ganhando acesso a pessoas como Eduardo Bolsonaro, Filipe Martins e Carla Zambelli. De outro, por meio de Gustavo Menna da Silveira, seu velho amigo e filho de general, acenava em direção à Casa Civil, do general Luiz Eduardo Ramos.

Livre na grande área, era só empurrar para o gol e correr para o abraço.

Num governo marcado por disputas internas entre militares e a chamada ala ideológica, a gestão de Mario Frias já é hoje a mais longeva na Cultura sob Bolsonaro.

A era Frias

Aquele garoto tranquilo, simpático, que não reclamava nunca, parece ter ficado no passado.

Pelo menos duas pessoas relataram ter presenciado, mais de uma vez, Mario Frias aos gritos, xingando e ofendendo funcionários da Secretaria Especial da Cultura. Segundo elas, o ator usa arma na cintura à vista de todos enquanto está na Esplanada, e o clima de assédio moral e desconforto é constante.

A gritaria, dizem, pode ser ouvida de longe. No Planalto e no resto da Esplanada, há quem se refira à Secretaria Especial da Cultura como hospício.

Mais de uma vez, Frias apareceu nas redes sociais portando armas de fogo. Em novembro, posou ao lado de Eduardo Bolsonaro, em visita ao Bope, o Batalhão de Operações Especiais, ambos segurando uma arma. "Tiro também é cultura", disse Eduardo, o tutor da cadela Bereta Bolsonaro.

O público teve uma amostra do pavio curto do secretário quando o humorista Marcelo Adnet satirizou um vídeo, estrelado por Frias, que deu início a uma campanha que homenageava alguns heróis nacionais.

“Garoto frouxo e sem futuro”, “criatura imunda”, “crápula” e “Judas” foram alguns dos xingamentos a Adnet. “Quem em sã consciência consegue conviver no mundo real com um idiota egoísta e fraco como esse? Onde eu cresci ele não durava um minuto. Bobão!”, desabafou Frias.

Uma semana depois, o secretário enviou às instituições vinculadas à Secretaria Especial da Cultura um ofício informando que todas as postagens em redes sociais, sites e portais oficiais deveriam, a partir de então, ser previamente enviadas ao secretário, para que ele avaliasse e autorizasse o material.

Frias, agora, pode ganhar um poder a mais. O governo federal prepara decreto para limitar a exclusão de conteúdos das redes sociais e engessar decisões de empresas como YouTube, Twitter, Facebook e Instagram. É uma tentativa de impedir que as companhias retirem informações do ar só por julgarem que as próprias políticas foram violadas pelos usuários. O ofício fala em liberdade de expressão, mas a estratégia principal foi apelar para os direitos autorais.

O texto do decreto foi escrito na secretaria de Frias e recebeu aval da consultoria jurídica do Ministério do Turismo, que abriga a Cultura. Caberia à pasta de Frias atuar na “fiscalização e na apuração de infrações praticadas por provedores de aplicações de internet a conteúdos e contas protegidos por direitos autorais”.

Outro feito da gestão Frias foi não lançar um edital para a Cnic, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, formada por representantes da sociedade civil e responsável por avaliar projetos para a obtenção de incentivo fiscal via Lei Rouanet.

Uma portaria publicada no Diário Oficial em abril determinou a centralização de poderes sobre a Rouanet hoje nas mãos do capitão da Polícia Militar baiana André Porciuncula, discípulo do astrólogo Olavo de Carvalho, sem experiência no setor cultural, que pode dar a decisão final, sozinho, sobre que fim levarão os projetos culturais que querem captar verbas via renúncia fiscal.

A gestão Frias chegou a paralisar, por 15 dias, a análise de propostas em cidades que adotaram medidas de restrição de circulação —ainda que todos esses projetos fossem acontecer de fato só daqui a um ano.

Junto com o olavista baiano, Mario Frias participou há pouco de uma live dando dicas sobre Lei Rouanet especificamente para projetos de arte cristã, além de ter elogiado o cancelamento de evento LGBT pela cidade de Itajaí, em Santa Catarina.

Frias costumava trocar afagos nas redes sociais com Daniel da Silveira, aquele que rasgou uma placa com o nome de Marielle Franco. Diante da prisão de Silveira, o ator se calou.

Em meio à árdua e estressante tarefa de comandar a Cultura do país, Frias teve um princípio de infarto e passou por um cateterismo em dezembro. Bolsonaro foi logo visitar o secretário no hospital.

Menos de seis meses depois, o ator foi novamente internado, com uma angina aguda, há duas semanas.

Só que esse segundo episódio, de acordo com o próprio Mario Frias, não tem nada a ver com coração. “É uma cirurgia de quadril que eu tenho que acabou me dando um susto, por causa de uns remédios que eu tomei para dor, acabei me sentindo mal”, disse o secretário.

Em ambos os casos, Mario Frias levou poucos dias para voltar ao trabalho em seu gabinete na capital. Nesta última vez, foi internado numa quarta-feira, e já no domingo seguinte estava numa manifestação pró-governo, em Brasília, de bengala, ao lado do policial parceiro.

E na última terça, Frias e Porciuncula já estavam de malas prontas para uma temporada de quase uma semana em Veneza, onde participam da Bienal de Arquitetura. É a primeira vez do secretário no Vêneto, por onde ele caminha com o auxílio de uma bengala, ainda baqueado pela recente emergência médica. Mas as águas dos canais de Veneza continuam límpidas e, com menos turistas, a cidade está um charme.

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