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Renato Terra

'Notturno' faz crítica ao Estado Islâmico sem sensacionalismos

Documentário de Gianfranco Rosi mostra as vidas que pairam sobre os escombros das guerras

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Renato Terra

Roteirista do Conversa com Bial e diretor dos documentários 'Narciso em Férias', 'Eu Sou Carlos Imperial' e 'Uma Noite em 67'. Trabalhou na revista piauí até 2016 e foi o ghost-writer do “Diário da Dilma”

Notturno

  • Onde Disponível no Mubi
  • Classificação 16 anos
  • Produção Itália, França, Alemanha, 2020
  • Direção Gianfranco Rosi

Uma câmera mostra um pátio num dia nublado. A luz é fria, azulada e indica que o dia está virando noite. O enquadramento é deslumbrante. O silêncio contemplativo é cortado de forma abrupta por uma tropa que passa correndo em bloco. Passada a tropa, volta o silêncio, que é novamente cortado de forma abrupta. Não há cortes ou movimentos de câmera.

Todos os elementos de “Notturno”, documentário de Gianfranco Rosi, são apresentados nesta primeira cena: o diretor se esmera na escolha de ângulos para exibir as vidas que pairam sobre as ruínas de sucessivas guerras. Cenas se sucedem como numa sequência de slides. Em quase todas, a câmera permanece parada, em plano aberto, enquanto a movimentação acontece na tela.

Cena de 'Notturno', sobre conflitos em países como Iraque, Curdistão, Síria e Líbano
Cena de 'Notturno', sobre conflitos em países como Iraque, Curdistão, Síria e Líbano - Divulgação

Gianfranco Rosi nos convida à contemplação da humanidade que restou numa civilização em cacos. Não traz respostas prontas, denúncias, sensacionalismos. Não cria mecanismos indutivos, como narradores ou depoimentos de especialistas. Tampouco cria uma montagem em que as cenas têm causa e efeito.

Diz a sinopse: “Filmado ao longo de três anos nas fronteiras entre Iraque, Curdistão, Síria e Líbano, ‘Notturno’ relata as dificuldades diárias de quem tenta reconstruir sua vida em meio aos efeitos devastadores das guerras civis, ditaduras, invasões estrangeiras e a presença mortal do grupo terrorista ISIS”.

As denúncias estão ali, mas expostas com alguma poesia. A crueldade colossal do Estado Islâmico está no murmúrio das mães que visitam uma prisão abandonada e imaginam o que seus fillhos sofreram ali. Está nas cidades caóticas, esfareladas. Na movimentação ora ruidosa, ora silenciosa de tropas. Simran Hans, do jornal britânico The Guardian, escreve que “Notturno é uma crítica poética à guerra no Oriente Médio”.

Numa dessas cenas, crianças desenham os horrores do Estado Islâmico. Sequestros, decapitações, traumas irreversíveis. Uma cena comovente que mostra como o horror extremista provoca marcas no passado, no presente e no futuro.

Pequenas doses de informação são dadas dentro do formato do filme. Rosi consegue autorização para filmar a organização de uma peça de teatro dentro de um hospital psiquiátrico. Nos ensaios, os internos decoram textos em voz alta sobre a história recente da região. Ditaduras, ataques terroristas são listados.

Numa entrevista ao também cineasta Alejandro González Iñárritu que é exibida como faixa extra depois do filme, Gianfranco Rosi conta que passou dias e dias com cada personagem para observar suas rotinas. E diz: “O desafio era não dar uma resposta e não fazer perguntas”.

Em 27 anos de carreira, Rosi fez seis filmes. A “Notturno”, dedicou três anos. Numa masterclass realizada no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, IDFA, o mais importante do tipo do mundo, Rosi disse que seus filmes “são um pretexto para encontrar pessoas". "Sem encontros, meus filmes não existiriam. Meus filmes nunca nasceram de uma caneta. Eles nascem de uma pequena ideia que se transforma numa imensa necessidade. E essa necessidade se transforma numa jornada.”

Rosi completou: “Para mim, cada filme é uma questão de encontrar a linguagem correta para contar aquela história —a história que eu vou encontrar, que eu não conheço ainda. Quando eu abaixo a câmera, coisas acontecem diante da gente. As coisas começam a ganhar sua forma, sua narração. E isso leva tempo. Eu digo sempre que o tempo é meu aliado”.

“Notturno” foi escolhido pela Itália para concorrer ao prêmio de melhor filme internacional no último Oscar. “Sacro Gra”, dirigido por Rosi em 2013, venceu o Leão de Ouro no 70º Festival Internacional de Cinema de Veneza. “El Sicario: Room 164” foi a sensação do IDFA em 2011.

Vale a pena assistir aos outros filmes de Gianfranco Rosi disponíveis no Mubi.

Faixas extras

Gianfranco Rosi conversa com Dennis Lim, diretor de programação do New York Film Festival (Film at Lincoln Center)

Conselhos para jovens cineastas (Festival Internacional de Cinema de Toronto)

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