Descrição de chapéu
Cinema

Paulo Gustavo é o maior herdeiro de Chaplin do humor feito no Brasil

Como Carlitos, sua dona Hermínia também é fundada em paradoxos, do filho que encarna a mãe, do homem que é mulher

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Durante um congresso universitário, a líder de um grupo de trabalho anunciava as participações da turma. “Presentes 12 homens que se declararam homens, 13 mulheres 
que se declararam mulheres.”

Num mundo tão marcado por preconceitos inaceitáveis, a formulação da líder os consagrava. Paulo Gustavo, ao longo de sua carreira, fez todo o possível para consagrar o intercâmbio dos gêneros. 
Será ele o filho ou a mãe? Será a mulher ou o homem?

No Brasil, antes dele, houve Mazzaropi, Grande Otelo, Dercy, Oscarito e, por fim, Os Trapalhões. Todos na nossa tradição burlesca de algum modo podem reivindicar a influência de Chaplin. Nenhum deles, me parece, de forma tão ampla quanto Paulo Gustavo.

Charles Chaplin criou Carlitos sobre paradoxos —nobre e miserável, fraco porém esperto, sempre autossuficiente em sua luta contra uma sociedade opressiva. Fundou seu tipo, no mais, sobre uma calça larga e um paletó apertado, o bigode e a cartola.

Paulo Gustavo fundou o seu também sobre traços paradoxais. Criou o retrato de um filho que encarna a mãe, de um homem que é também mulher, de um corpo e um espírito capazes de se desdobrarem e de protegerem os filhos ao 
mesmo tempo que os controla.

Dona Hermínia, sua melhor criação, é desde o princípio uma afirmação de classe média. Mora em Niterói —espécie de time B do Rio de Janeiro—, prima pela histeria, é mãe de dois filhos que fogem aos padrões aceitos , já que o rapaz é gay e a moça é gorda.

Os bobes na cabeça exprimem bem essa personalidade em que o público e o íntimo desconhecem limites, 
tanto quanto seus trajes e atitudes a situam socialmente.

O kitsch do vestuário a limita socialmente à pequena classe média, assim como o falar alto e de forma reivindicativa a amplia —é uma 
mulher de classe média, sim, mas cuja capacidade de responder aos imprevistos, provocações e adversidades exprime uma forma de poder social 
(bem acima da pobreza).

Existe ali uma mulher dentro do homem e vice-versa. 
Essa essência subversiva é subsumida no riso que provoca. Com isso, na trilogia “Minha Mãe É uma Peça”, quem começava por rir do sujeito travestido de mulher acabava rindo da mulher 
autêntica que ele interpretava.

As diferenças abissais —mãe e filho, homem e mulher— ali contidas eram ostentadas na tela e ao fim engolidas pelo espectador como biscoito fino.

Por uma espécie de movimento em refluxo, as figuras antagônicas se encontram, como se a acumulação de tantas aparências, imagens, fantasias (gay, mãe, mulher, filho) formasse uma figura única e final, em que a personagem é o resultado dos paradoxos que nos formam (e não só a ele).

De certa forma, Paulo Gustavo apurou essa arte de juntar contrários melhor do que ninguém, ao menos entre nós, ao unir isso que é unido desde a gestação até o nascimento e mesmo nos primeiros meses de vida —a mãe e o filho.

Chaplin soube fazer rir de sua miséria, que viveu intensamente na infância, como um personagem de Dickens, mas também dos que o oprimiam —ricos, patrões, bombados.

Paulo Gustavo faz rir de sua homossexualidade, ao mesmo tempo em que transforma o preconceito em perplexidade, ao nos confrontar com essa dupla sexualidade que todos, ao menos potencialmente, possuem e que os poderes sociais e religiosos reprimem —não raro da boca para fora.

Se Dona Hermínia foi sua melhor criação, não foi a única.

No Multishow, criou a Senhora dos Absurdos. Não mais moradora de Niterói, mas do Leblon. Classe riquíssima e defensora dos “valores”, isto é, dos que imperam no Brasil.

Preconiza um salário mínimo que nunca seja mais do que mínimo, por exemplo, não suporta o 13º salário —pois se quiserem, que trabalhem 13 meses—, de um 
muro que separe o Leblon dos invasores suburbanos etc. Em
 suma, seus valores são configurados no pantanal reacionário em que hoje vivemos.

Talvez tenha tido mais amplitude seu Valdomiro, de “Vai que Cola”, o oposto da Senhora dos Absurdos, em que lidera a turma da zona norte que invade a zona sul levando seus usos e costumes, e termina por subverter os hábitos dali.

Existe um Brasil saudável nas criações de Paulo Gustavo, porque consegue ser crítico, libertário, civilizatório, ao mesmo tempo em que atinge uma inédita popularidade ao tocar com humor em nossas tão vastas chagas sociais.

Sua morte é uma perda imensa para o cinema, que fica sem seu ator mais popular e inventivo, e uma perda para o Brasil, onde o espírito combativo de Dona Hermínia conseguia enfrentar essa caricatura infelizmente tão mais próxima da realidade do que pode parecer à primeira vista, 
que é a Senhora dos Absurdos.

Paulo Gustavo soube transformar seu corpo em lugar de nossas riquezas e misérias como poucas vezes acontece, de modo a atingir todos os públicos.

A rica geração de humoristas que o Brasil criou nos últimos tempos—do grupo Porta dos Fundos, Marcelo 
Adnet, alguns outros— continuará a nos fazer rir. Mas 
estará faltando alguma coisa.

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