Descrição de chapéu

Paulo Mendes da Rocha nunca cedeu à nostalgia nem aguentava bajulação

Socrático por natureza, arquiteto morto neste domingo formou gerações e projetava sempre indagando os outros

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paulo anda em meio a projetos

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que morreu neste domingo, em seu escritório na rua Bento Freitas, em São Paulo Eduardo Knapp/Folhapress

Guilherme Wisnik

Arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é autor de ‘Dentro do Nevoeiro’ (editora Ubu), entre outros livros

“Cuide para nunca levantar atenção demasiada sobre a sua pessoa.” Esse, segundo Paulo Mendes da Rocha, era um precioso ensinamento transmitido pelo seu professor de línguas no Colégio São Bento, o italiano Tranquillo Tranquilli.

Mendes da Rocha, que morreu neste domingo de câncer de pulmão, aos 92 anos, se lembrava disso com um misto de humor e contrariedade nos dias seguintes ao anúncio do prestigioso prêmio Pritzker, vencido por ele em 2006. “Onde eu estava com a cabeça para não seguir aqueles conselhos?”, me disse ele então, de forma intranquila.

E não era uma fala retórica. Naquela semana, toda a imprensa arquitetônica (e cultural) do mundo ligou para o seu escritório, na rua Bento Freitas, querendo entrevistas. E me lembro de o ter visto, mais de uma vez, deixar o telefone tocar sem atender, ou desligar subitamente após ouvir alguém falando inglês.

Não por esnobismo, nem, ao contrário, por modéstia, mas por realmente não aguentar muita bajulação. Seu temperamento sempre foi de um antiarrivismo incondicional.

Desde que o conheci, no início dos anos 1990, Mendes da Rocha sempre se fez cercar de jovens. Sua vida se passava, majoritariamente, na “rua”, isto é, na cidade, entre o Pandoro, os botecos do centro, e no caminho entre os escritórios da rua General Jardim —o seu próprio, no prédio do IAB, e os de seus colaboradores.

Tenho a impressão de que, para ele, nenhuma cidade do mundo produziu uma vida urbana mais intensa e admirável do que a que existe no raio entre os edifícios Copan e Conjunto Nacional.

Exímio contador de histórias, Mendes da Rocha, ao mesmo tempo, não gostava de jogar conversa fora. Isto é, exigiu sempre de seus jovens assistentes atenção e comprometimento em suas posições, tanto ao fazer projeto quanto ao conversar sobre um assunto qualquer.

Socrático por natureza, projetava indagando sempre os outros. E ai de quem tivesse uma posição frouxa diante de um assunto, ou de uma decisão de projeto. A confrontação de opiniões, nesses casos, foi sempre muito bem-vinda, mas não a atitude passiva, ou displicente.

E embora não fosse fácil se recuperar de certas broncas dadas por ele em situações assim, é comovente pensar o quanto elas sempre revelaram uma atenção muito grande sua em relação aos jovens, de várias gerações, que ele decidiu formar.

Num tempo em que as pessoas agem cada vez mais de forma calculada para serem agradáveis e superficiais, ele, ao contrário, deixava marcada a sua ferroada escorpiônica. Atitude educativa, e extremamente generosa com os outros.

Seus atendimentos de projeto, nos estúdios da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, eram espetáculos para multidões. Ávidos por aprendizado, os alunos se aglomeravam em rodas apinhadas ao redor do professor, que não falava de arquitetura, mas de temas que nos tirassem o chão, que desconstruíssem as ideias prontas, e nos colocassem numa posição de crise perante a criação, e perante a vida.

Filho de engenheiro, Mendes da Rocha tinha uma compreensão do humano orientada pela técnica, como homo faber. Segundo ele, “é impossível pensar em transformações formais se não se sabe como realizá-las”, pois “raciocina-se com a engenhosidade possível, não se pensa com formas autônomas ou independentes de uma visão fabril delas mesmas”.

Ao mesmo tempo, nas últimas décadas, ele contrabalançou cada vez mais esse discurso, afirmando que “a arquitetura é a construção da imprevisibilidade da vida”. O que nos leva a pensar que a particularidade do humano talvez não seja a técnica (faber), mas o jogo, a fantasia criadora (ludens).

No fundo, fica claro que o aparente tecnicismo do seu discurso é humanista. Já que técnica é linguagem, manejo operacional do raciocínio, instrumento de intelecção. Algo que, portanto, precede o arbítrio da forma e a informa.

Numa série de vídeos feitos pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em 1989, disponíveis no YouTube, o arquiteto explica a concepção arquitetônica do MuBE, o Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia. Em suas palavras, a grande viga-marquise de concreto protendido que demarca espacialmente o museu, com seu vão livre de 60 metros, é uma “pedra no céu”.

É uma imagem que explicita o paradoxo poético que está na gênese do projeto, um monolito pesado que parece flutuar. Ideia inspirada na tela "Les Idées Claires", de René Magritte, na qual um meteorito aparece congelado no ar, como se a gravidade tivesse sido subitamente suprimida.

Mas se a tela surrealista é a figuração de um enigma, a arquitetura de concreto do MuBE lida com um complexo jogo de pesos, empuxos e tensões. Jogo no qual a lírica formalização do desenho é permanentemente negociada com a resistência da matéria, com o núcleo duro do real –ensinamento que volta a se mostrar cada vez mais importante num país em decomposição, cujos pilares (ou a miragem que um dia tivemos deles) se esfacelam no ar feito areia ao vento.

Mendes da Rocha, no entanto, não nos deixa ser saudosistas, imobilizados pela idealização de um passado glorioso. O inacabamento da existência é a nossa condição, nosso desafio e motor sobre a Terra, e nos joga sempre para a frente. Assim, sua postura antinostálgica nos exige força, comprometimento e alegria.

“Não podemos ter saudades de nada”, dizia ele. “A experiência não deixa saudades. Dá um ímpeto desgraçado para o futuro.”

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