Descrição de chapéu

Paulo Mendes da Rocha transformou o encontro na razão de ser da cidade

O reconhecimento tido não só na Europa, mas em todo o mundo, fez do arquiteto um elo entre os dois mundos

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Nuno Sampaio

Diretor-executivo da Casa da Arquitectura, de Portugal

Existem pessoas que atravessam várias realidades e diversos tempos. Paulo Mendes da Rocha era um deles. Era um gigante.

Aqueles que lidavam com o Paulo tinham uma consciente ilusão de achar que seria eterno. E, na realidade, será. As suas obras continuam fazendo a cidade, cumprindo a missão para a qual foram pensadas e idealizadas por ele, “a de ampararem a imprevisibilidade da vida”, prolongando no tempo o legado do arquiteto.

Mas Mendes da Rocha era muito mais do que um construtor de maravilhosas obras a que se rendiam os seus pares por todo o mundo. Ele era um pensador da realidade, um leitor exímio das condições da contemporaneidade, sem que nunca delas ficasse refém. Ao contrário!

Ele nunca ficou retido na realidade, seja ela qual for, nem na sua própria realidade, nem na realidade social, econômica ou urbana na qual vivia ou para a qual trabalhava. Essa condição de liberdade a que a arquitetura aspira, e que no caso aparece enormemente conquistada, se junta a uma outra condição, o do seu inconformismo, que faz de Paulo Mendes da Rocha uma personalidade capaz de produzir transformações, de fazer a mudança.

A obra de Paulo Mendes da Rocha, uma das mais prestigiadas e reconhecidas em todo mundo, se tornou universal, um lugar-comum da arquitetura respeitada, uma referência singular, plena de sentido e coerência no mundo contemporâneo. Para ser compreendida deve ser lida como um todo, em que cada realização faz parte de um universo mais amplo, claro, translúcido e nítido –o seu.

Felizmente não é um universo simples ou de compreensão imediata, requer preparação e alguns instrumentos para a sua compreensão, mas é um universo sistematizado, organizado, ordenado e pleno de sentido, tal como a sua arquitetura.

É obra de um profissional universal, uma referência cultural que nos lembra o indizível —a arquitetura, quando idealista e corajosa, emana dimensão política.

O reconhecimento da obra e da pessoa de Mendes da Rocha se fez por todo mundo, apesar da quase totalidade da sua obra estar construída no Brasil. São exceções a Casa do Quelhas e o Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, este último onde tive o privilégio de ser coautor do projeto expositivo. Com este projeto se formou, a partir de uma equipe de profissionais, um grupo de amigos que no Brasil foi chamado de “os amigos portugueses”.

Tivemos a oportunidade de juntos inventar muitas coisas, principalmente as oportunidades de nos juntarmos sempre que era possível nas mais diversas geografias, em distintos momentos, muitos deles quando era distinguido o arquiteto e agraciado por inúmeros prêmios de carreira, a grande parte deles na Europa, entre eles o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, e a Medalha de Ouro Real de 2017, do Instituto Real de Arquitetos Britânicos.

Eram momentos de encontro, de conversas infindáveis, de um prazer imenso, numa troca de ideias em que saímos sempre a ganhar pela descoberta contínua que fazíamos sempre que estávamos juntos e sobretudo a partir aprendizagem que tínhamos com Mendes da Rocha.

Lembro uma noite em Lisboa em que ele nos falava da sua terra —não Vitória, sua cidade natal, mas de todo o Brasil, de que tanto se orgulhava, e da América Latina. Vinha de um local onde existia a mata atlântica, o Pantanal e a Amazônia, Paraty, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

Era o “mundo novo”, um contraponto do “velho mundo” da Europa onde estávamos, realidades tão distantes e tão próximas simultaneamente. Mendes da Rocha era assumidamente um “homem novo” no novo e no velho mundo. Estava acima dessas realidades, conhecia todas elas e, de certa forma, levitava sobre elas.

O reconhecimento tido não só na Europa, mas em todo o mundo, fez do arquiteto Paulo Mendes da Rocha um elo de diálogo entre os dois mundos, ambos com capacidade de se ajustarem e de necessariamente se melhorarem.

Mendes da Rocha fez do encontro a razão de ser da cidade e da sua arquitetura, uma forma de constituir um lugar suficientemente capaz de fazer perdurar esse encontro.

Com uma enorme generosidade, aliada à capacidade de estabelecer pontes, elos entre realidades e tempos distintos, Paulo Mendes da Rocha decidiu doar a seu tempo todo o seu acervo documental à Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura, situado em Matosinhos, em Portugal.

A sua obra está no Brasil, um enorme patrimônio coletivo, e o seu patrimônio documental está agora em Portugal. Mendes da Rocha cumpriu mais um dos seu ideais, juntar o novo e o velho mundo, e tinha em ambos um enorme reconhecimento, sem que para ele isso fosse importante.

Desde então, temos constatado na Casa da Arquitectura quantos arquitetos, curadores, jornalista de todo o mundo que a visitam, gostando da obra de Paulo Mendes da Rocha, pedem para ver os seus desenhos, expressando pelo seu autor uma grande admiração profissional e um enorme carinho pessoal.

Neste momento de consternação coletiva pela morte desta personalidade singular, vem à memória uma citação que muito se adequa ao momento e que, não sendo sua, foi apropriada pelo Paulo Mendes da Rocha que diz “sabemos que vamos morrer, mas não nascemos para morrer, nascemos para continuar”.

O legado de Paulo Mendes da Rocha é um patrimônio universal e tem muito para ser continuado. É uma responsabilidade de todos, aquém e além-mar. Seguramente nunca será esquecido, porque a história não esquece os seus heróis, esses a quem chamamos de gigantes, esses a quem o tempo chama de eternos.

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