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Renato Terra

'Professor Polvo', que ganhou Oscar, tem muito a ensinar aos seus filhos

Filme disponível na Netflix é prova de que tempo dos chatíssimos documentários escolares ficou pra trás

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Renato Terra

Roteirista do Conversa com Bial e diretor dos documentários 'Narciso em Férias', 'Eu Sou Carlos Imperial' e 'Uma Noite em 67'. Trabalhou na revista piauí até 2016 e foi o ghost-writer do “Diário da Dilma”

Professor Polvo

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação Livre
  • Elenco Craig Foster, Tom Foster
  • Produção África do Sul, 2020
  • Direção Pippa Ehrlich e James Reed

Acontece com frequência nos bons filmes da Pixar, como “Up - Altas Aventuras” ou “Divertida Mente”. São produções que envolvem e divertem os pequenos enquanto os adultos choram como crianças. É o caso de “Professor Polvo”, vencedor do Oscar de melhor documentário este ano. E o longa ainda tem mais alguns méritos.

Os diretores Pippa Ehrlich e James Reed usam os truques dos filmes de ficção para contar como o cineasta Craig Foster criou uma linda relação de amizade com um polvo.

O roteiro tem viradas nos momentos certos, clímax e climas. A trilha sonora pode pontuar o suspense de um mergulho noturno e a adrenalina de uma perseguição por um tubarão, ou emocionar nos momentos de delicadeza. O desenho de som ajuda a criar uma atmosfera de fantasia. Pode aumentar o ruído de uma onda que bate na pedra ou os barulhos do fundo do mar. O filme é hábil em alternar momentos de agilidade com outros de contemplação.

O tempo dos chatíssimos documentários escolares fica para trás. “Professor Polvo” não tem um tom didático, mas ensina muita coisa. Tampouco é alarmista, mas traz uma poderosa mensagem de preservação. Há várias maneiras de despertar a curiosidade de seus filhos, puxar assuntos.

De cara, as imagens geram deslumbramento. Craig parece flutuar sobre uma floresta submersa de corais, peixes, tubarões, ouriços. Águas-vivas são descritas como seres “de outro planeta”.

Além de encher os olhos, as imagens criam empatia por aquelas formas de vida. “Instintivamente, eu sabia que não usaria roupa de mergulho. Se você realmente quer chegar perto de um ambiente como esse, ajuda demais não ter barreiras contra ele”, diz a voz de Foster, em off. No fundo, musical, um piano dedilhado.

Próximo dos 15 minutos, o filme apresenta o seu dispositivo. As imagens se concentram em um polvo que flutua na água. Um animal que se esconde entre as pedras, que muda de cor para se camuflar. A voz de Craig diz, em off: “É difícil explicar, mas, às vezes, você tem um pressentimento e sabe que há algo nessa criatura que é meio incomum. Há algo a aprender aqui. Há algo especial”.

Essa é a maneira como Craig desenvolve sua narrativa: trabalha o suspense, cria uma expectativa. Não tenta explicar as coisas com pragmatismo. A câmera corta para ele, sentado, com uma camisa azul: “Então eu tive essa ideia maluca. O que acontece se eu for todos os dias? O que acontece se eu não deixar de ir?”. Na imagem seguinte, ele está embaixo d'água e aparece a legenda “Dia um”.

A partir daí, Craig visita o polvo diariamente. Uma relação de confiança mútua é construída, com altos e baixos. Perigos e recompensas. Descobertas e frustrações.

A imagem daquele animal de oito tentáculos começa a ganhar complexidade. Os polvos são seres inteligentes, criativos e frágeis. Assim como os humanos.

Quantas formas de vida existem no mar? Podemos olhar com atenção para cada uma delas? Como elas interagem? Como podemos interagir com elas? O que faz um cientista? Como um cientista estuda essas formas de vida? Como podemos preservar os oceanos e os animais que vivem nele? Podemos mergulhar juntos?

São perguntas pertinentes que podem ser feitas depois da prazerosa viagem de uma hora e 25 minutos propiciada por “Professor Polvo”.


Faixas extras

'Professor Polvo': por que as florestas de algas são tão importantes (BBC)

#CineCiência​ | 'Professor Polvo' (Museu da Imagem e do Som)


Em tempo

Quem se interessa por documentários que tratam da relação de humanos com animais vai adorar “O Homem Urso” de Werner Herzog. Um dos melhores documentários de todos os tempos. Este não é recomendado para crianças. Disponível no Google Play Films.

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