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'Liberdade, Liberdade', peça clássica contra a ditadura, tem releitura com atriz trans

Nova versão da obra de Millôr Fernandes, com Paulo Autran, agora tem Renata Carvalho no festival São Paulo sem Censura

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Retrato preto e branco de atriz que simula a estátua da liberdade com uma mão criando a coroa atrás da cabeça e outra simulando segurar uma tocha

A atriz Renata Carvalho, que é narradora de nova versão de 'Liberdade, Liberdade' em pose similar a de Paulo Autran no cartaz da primeira versão da peça, em 1965 Eduardo Knapp/Folhapress

São Paulo

Estamos em 2027, e satélites começam a cair no mundo todo. Um deles atinge o Centro Cultural São Paulo e começa a transmitir a voz de Vivian, uma mulher trans do século 21 que traz mensagens de como foi viver numa ditadura militar, nas Diretas Já, nas eleições em 2018 e na pandemia de coronavírus.

Esse evento distópico norteia a nova montagem de "Liberdade, Liberdade", um espetáculo-manifesto emblemático durante a ditadura miliar no Brasil, escrita por por Millôr Fernandes e Flávio Rangel. Em 1965, a peça tinha ainda na grupo Vianinha, Nara Leão e Paulo Autran.

"Quando se olha a ficha técnica, e vê Millôr, Nara, Paulo Autran, você pensa 'como adaptar algo tão bem feito?'", se pergunta a dramaturga Dione Carlos, que escreveu o texto dessa montagem. A mudança central nessa nova versão, parte da programação do festival São Paulo sem Censura e dirigida por Luiz Fernando Marques, é o abandono das figuras dos porta-vozes.

Mais de cinco décadas atrás, os atores declamavam diversos textos de vozes diferentes no palco, mas sem que elas estivessem ali presentes. Agora, a atriz Renata Carvalho é uma espécie de narradora que articula depoimentos em primeira pessoa nessa peça virtual. "Elas são protagonistas de suas histórias", diz Carlos.

O nome da protagonista, aliás, é uma homenagem à física brasileira Vivian Miranda, que colabora com a Nasa no projeto do telescópio espacial WFIRST, tido como prioridade da pesquisa da agência em 2010.

Segundo a dramaturga, essa escolha fala de dois êxodos —a da pessoa que não pode ser ela mesma em seu próprio país e a da cientista que não pode compartilhar seu conhecimento na sua terra natal. "É uma homenagem à Vivian que, junto com a Renata, é o mundo que a gente quer, onde a gente possa existir na nossa plenitude."

Carvalho já teve uma de suas peças censuradas. "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", no Sesc Jundiaí, no interior paulista, foi cancelada por decisão judicial devido ao seu conteúdo em 2017.

"Tem algo interessante nessa peça que é dar voz para uma travesti falar, mas não no sentido da inclusão apenas. Estamos falando de uma voz que não é ouvida, que não cabe bem nos ouvidos, que não chega confortável. Ela é tão forte quanto o corpo da travesti", afirma a atriz. "É o que o texto [da peça] fala 'já tivemos muito medo, não tenham medo, nós já tivemos muito medo'."

"Liberdade, Liberdade" era a mais ambiciosa das peças-manifesto nos anos 1960. Isso é o que afirma um texto do jornal The New York Times publicado em 1965, que traçava um breve retrato do movimento de teatro político no Brasil.

As produções naquela época refletiam "um sentimento generalizado entre os jovens intelectuais brasileiros de que o regime do presidente Castelo Branco, com sua forte linha anticomunista, tem sido hostil à liberdade cultural e intolerante com críticas de esquerda".

Não é como se os discursos tivessem mudado, na visão de Dione Carlos. "Eu nem enxergo essa peça como revisita, infelizmente, porque o Brasil vive num tempo espiralar. A história do Brasil é uma repetição, um ciclo que não termina porque a gente não confronta as sombras. Eu nem vejo como uma releitura, é um tempo que se repete."

Nesses tempos repetidos, os depoimentos em primeira pessoas são de 14 artistas e grupos —além de Carvalho, participam da peça Celso Frateschi, César Vieira, Cia do Tijolo, Denise Stoklos, Everson Pessoa, Grupo Clariô, Grupo Esparrama, Grupo de Teatro Heliópolis, Coletivo de Dança Casa das Serpentes, Gerson da Banda, José Celso Martinez Corrêa, Leda Maria Martins, Nilcéia Vicente e Chico César.

Todos eles responderam à provocação "o que é liberdade para você?" –e as respostas vieram em forma de entrevista, performances e até revisões de trabalhos já feitos, como no caso de Chico César. Um show dele apresentado no teatro Oficina em 2019 foi montado nessa peça-filme com imagens que suscitam as discussões em torno dos direitos indígenas e do garimpo.

"Quando Dione cria a ideia do satélite, ela também traz isso de que estamos vivendo numa época de transmissões. A gente tentou ao máximo manter essa liberdade porque o texto já é uma plataforma, um local de lançamento", diz o diretor Luiz Fernando Marques. "O vídeo também permite essa sobreposição de vozes, imagens e tempos. Acabou que a plataforma digital potencializou essa rede."

O procedimento de incorporar o que causa desconforto, como o avanço dos garimpeiros em territórios indígenas, por exemplo, já estava presente na montagem de 1965. Dione Carlos conta que um cenógrafo pediu para que fosse encaixado na dramaturgia o incômodo dos próprios atores com o ranger das cadeiras durante a peça.

"Toda mudança requer um luto e nós não lidamos bem com o luto, mas ela está acontecendo. Ela é lenta, gradual, mas eu sempre digo 'olha eu aqui'. Olha nós aqui", diz a atriz Renata Carvalho. "É daqui para frente. É liberdade, liberdade."

Liberdade, Liberdade

  • Quando Estreia 6/6, no festival São Paulo Sem Censura, às 16h. De 8 a 17/6. Ter. qui. e sex.: às 20h
  • Onde No YouTube do Centro Cultural São Paulo
  • Preço Gratuito
  • Elenco Renata Carvalho, Celso Frateschi, César Vieira, Cia do Tijolo, Denise Stoklos, Everson Pessoa, Grupo Clariô, Grupo Esparrama, Grupo de Teatro Heliópolis, Coletivo de Dança Casa das Serpentes, Gerson da Banda, José Celso Martinez Corrêa, Leda Maria Martins, Nilcéia Vicente e Chico César
  • Direção Luiz Fernando Marques
  • Texto Dione Carlos
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