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São Paulo Fashion Week resgata a moda afetada pela Covid com vitrines de luxo

Modelos enjaulados e livres, franjas de brilho e cortes minimalistas expõem a dicotomia de tempos confusos

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São Paulo

Patchwork é um desses estrangeirismos adorados pela moda. Resume o ato de colar retalhos para criar um mosaico, uma base lisa que sirva para embalar em capa de novidade ideias, memórias e pedaços do passado.

Ao final de cinco dias de apresentações da 51ª São Paulo Fashion Week, a sensação é de que os estilistas uniram tecidos, conceitos e modelagens para compor um simulacro da realidade que, por fim, sirva de escape para o peso dos dias difíceis.

Algumas marcas, de fato, botaram o pé na estrada. O filme da grife Misci, do estilista Airon Martin, uma das boas revelações de um calendário insuflado como é o da SPFW nesses tempos virtuais, começa na boleia de um caminhão, com o próprio designer chegando às margens do rio Pinheiros, em São Paulo, para apresentar suas roupas que flertam com o espectro funcional das vestimentas do país.

Algumas têm aberturas no colo, por exemplo, para lembrar as mulheres que escondiam dinheiro no meio dos seios, ou da alfaiataria solta dos homens, cortada alguns dedos a mais nas barras para que o chão de barro não suje.

No patchwork montado por Martin, há teclas batidas à exaustão pela moda nacional ao longo dos anos, como o fato de boa parte da matéria-prima nobre do país ser exportada para fora. Ele usa algodão orgânico cultivado no solo fértil da Paraíba, uma indústria dizimada ao longo dos anos e que, hoje, tenta recuperar o ativo cobiçado pelo mundo, e também seda paranaense, considerada a melhor do mundo e cujos fardos abastecem as grifes de luxo da Europa.

​​Olhar para o país sob o ponto de vista da sustentabilidade é a mesma lógica da estilista Flavia Aranha, que encerrou o evento no último domingo com a mensagem de regeneração proposta pela SPFW nesta edição.

O “Sopro” de inspiração, para citar o nome do filme, vem da reciclagem de 500 quilos de tecidos acumulados nos estoques do ateliê, um sem fim de linho, seda, lã natural e telas em branco tingidas com cascas de cebola, sementes de abacate e palha de milho, por exemplo.

Na colcha de retalhos proposta por Aranha, há espaço para patchworks desenvolvidos em parceria com artesãs de Muquém, no interior de Minas Gerais, donas de alguns dos trabalhos manuais mais ricos do país ao lado daquele executado em cidades próximas, como Carmo do Rio Claro.

Recuperar e expor numa vitrine de luxo esse saberes afetados pela pandemia é um dos pontos altos dessa coleção, que ainda explora a tapeçaria de Lagoa do Carro, em Pernambuco, e os chinelos feitos em parceria com a Associação de Mulheres Artesãs de Guapiara Arte Vida, da rede Artesol.

É que mesmo olhando para o próprio passado, a estilista quer lembrar de que não é possível falar de moda sustentável no país sem entender que ela, hoje, está intimamente ligada ao desenvolvimento social, o “s” da sigla em inglês ESG, de environmental social and corporate governance, que norteia empresas mundo afora.

O cano de escape dos artefatos táteis, no desfile de João Pimenta, assume contornos abstratos. Fugir também é assumir uma nova máscara, e as dele remetem ao histórico de peças carregadas de teatralidade que permeiam suas coleções.

Volumes, sobreposições e uma ampla gama dos patchworks comuns à temporada passearam pela mesa de corte do estilista, que prova na prática o quão sem gênero as roupas podem ser. Como ele mesmo disse à reportagem, “a roupa do futuro só assume o gênero a partir de quem a compra”.

Pimenta questiona em sua coleção alegórica os limites autoimpostos por homens e mulheres em sua forma de se vestir, e ainda desafia as regras que obrigam os corpos a se amarrarem em convenções e, angustiados, só conhecerem o combo de jeans e camiseta socialmente aceitos.

Foi a explosão de sentimentos que interessou a esse estilista, o desaperto que a pandemia levou ao centro da produção de moda e, finalmente, aos guarda-roupas de quem, em casa, não precisou seguir tendências.

E foi a estreia do pernambucano Walério Araújo no calendário de desfiles que coroou a fuga de sentidos proposta pelas marcas. Ao aproveitar a comemoração dos 30 anos de carreira, pôs em sua passarela virtual uma mistura estapafúrdia de moda disco, futebol americano e uma imagem revisitada do padre Cícero.

Uma túnica em que se vê a imagem de sua própria mãe sobre o fundo do Copan, edifício que além de casa e ateliê, é símbolo do centro convulsivo de São Paulo abraçado pelo estilista nas três décadas de tesoura, resume essa espécie de agradecimento de Araújo aos anos de costura.

Modelos enjaulados e livres, franjas de brilho e cortes minimalistas, expõem a dicotomia desses tempos confusos e, de certa forma, trazem de volta o sorriso de quem anseia por liberdade. Ou, segundo esta SPFW, regeneração.

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