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Billie Eilish mira a bossa nova, busca a paz e fala do corpo em novo disco

Cantora que remodelou o pop gravando no quarto mantém sussuro melancólico em seu aguardado segundo álbum

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Happier Than Ever

  • Quando A partir de sexta (30)
  • Onde Nas plataformas de streaming
  • Autor Billie Eilish
  • Produção Finneas
  • Gravadora Darkroom Interscope

“Não vou voltar para casa, mudei meus planos. Estou apaixonada pelo meu futuro, mal posso esperar para a conhecer”, canta Billie Eilish, enquanto uma melodia de piano desabrocha num groove tranquilo. Ela não está exalando felicidade, mas ansiosa para a alcançar.

cantora billie eilish loira em capa de disco
Capa do disco 'Happier Than Ever', da cantora Billie Eilish - Reprodução

A faixa “My Future” é uma das 16 que integram o disco “Happier Than Ever”, lançado nesta sexta. É o segundo disco da cantora, multivencedora do Grammy, que não só virou uma estrela mundial em poucos meses como praticamente remodelou o pop contemporâneo.

Aos 19 anos, ela continua com a melancolia sussurrada que a consagrou em “When We All Fall Asleep Where Do We Go?”, disco gravado em seu quarto na casa dos pais que a projetou em 2019. Mas, agora, troca o inconformismo adolescente por uma busca por tranquilidade em meio ao caos da fama repentina, da cultura tóxica das redes sociais e da misoginia a que está submetida.

Logo na primeira faixa, Eilish diz, literalmente, “o que era minha diversão agora é meu emprego”. No documentário recente sobre a cantora, sua dificuldade em lidar com a fama precoce é exibida mais de perto, e esta acaba sendo o fio condutor do álbum.

“Oxytocin” soa como um chamado à libertinagem, com os sussurros ácidos da cantora sobre batidas secas e pesadas. "Meio quero me envolver, meio quero ir embora. O que as pessoas diriam, se ouvissem através das portas”, ela canta, numa flagrante mudança em relação à figura careta da turma retratada em “Xanny”, do primeiro disco.

Esteticamente, além dos vocais tremidos e sombrios, já característicos de Eilish, seus sussurros ganham toda uma nova dimensão sonora. A sensação é que ela está quase tocando o microfone com a boca enquanto canta —um sentimento de intimidade que casava perfeitamente com o “disco do quarto”, mas continua sedutor em alta definição.

As letras espirituosas continuam lá, mas são menos frequentes e espontâneas. Em “Lost Cause”, talvez a faixa com maior potencial de hit do disco, ela debocha de um ex preguiçoso. “Achava que você era tímido, mas talvez você só não tivesse nada na cabeça”, canta, numa vertente que a liga ao disco recente de Olivia Rodrigo, “Sour” —cujo sucesso é consequência direta do caminho aberto por Eilish na indústria.

A terceira faixa, “Billie Bossa Nova”, parece fazer a conexão direta com o pai desse tipo de canto, João Gilberto —ainda que Astrud Gilberto seja citada quase com a mesma frequência por cantoras mais jovens em entrevistas. A música mistura uma guitarra tocada à maneira do baiano e batidas eletrônicas —na mesma linha, mas de forma menos manjada, do que Anitta tentou em “Girl from Rio”.

Eilish também desabafa. A música “Not My Responsibility” é uma resposta direta às discussões sobre o seu corpo, depois que ela abandonou o visual esportivo e confortável para vestir lingerie e corpetes num ensaio para a revista Vogue.

“O que você disse sobre minhas roupas, sobre o meu corpo?”, ela pergunta. “Mesmo sem ver meu corpo, você continua julgando. Por quê?”, continua, até que encerra a música concluindo que “sua opinião sobre mim não é minha responsabilidade”.

Na indústria pop atual, que privilegia músicas curtas, as que geram mais reproduções, “Happier Than Ever” é quase uma ópera, com aproximadamente uma hora de duração e alguns momentos maçantes.

A faixa-título é um melodrama que parece o encerramento de um musical da Disney, com exceção da letra —em que ela fica com vergonha de que seu paquera tenha lido as entrevistas dela ou de que ele a vá expor nas redes sociais.

“Your Power”, acústica e cheia de violões, soa deslocada no contexto. Com estética lo-fi, “Halley's Comet” faz referência um tanto óbvia a quando ela e o irmão, o produtor Finneas, fizeram o primeiro álbum no quarto de casa.

O produtor, aliás, mostra agora que consegue trabalhar também com a fartura de recursos. Os graves são vastos e deslumbrantes, e a técnica de gravação das vozes de Eilish é evidentemente um diferencial.

Ele também expande a paleta sonora. O disco tem vários momentos atmosféricos, e pode remeter ao trip-hop do Portishead ou à última década do Radiohead. Em “NDA”, Finneas brinca com as frequências, usa AutoTune e batidas derivadas de Kanye West.

Mesmo que seja menos surpreendente do que o antecessor, o segundo disco mostra que Billie Eilish consegue se virar em diferentes contextos. Sua habilidade para cantar as consequências da fama casa com a sede do irmão por novos timbres e texturas, numa parceria em que continua mais interessante do que a grande maioria do pop contemporâneo. A depender de “Happier Than Ever”, Eilish não vai embora tão cedo.

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