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Edgar Morin conta por que rompeu com comunismo em biografia inédita; leia

Filósofo, que faz cem anos nesta quinta, se afastou da União Soviética e passou a denunciar abusos

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São Paulo

O texto abaixo é um trecho de "Lições de um Século de Vida", autobiografia inédita de Edgar Morin, filósofo francês que completa cem anos de idade nesta quinta.

No texto, ele discorre sobre os motivos que o levaram a se afastar do comunismo e a passar a denunciar o totalitarismo soviético, para a partir daí passar a se identificar como "fundamentalmente direitista e esquerdista".

A obra, que tem tradução de Ivone Benedetti, tem previsão de chegar às livrarias pela Bertrand Brasil em setembro.

Na Resistência nasceram imensas esperanças num mundo novo. Alguns desejavam uma sociedade democrática e social equitativa; outros, uma sociedade fraterna, tal como imaginavam ser a União Soviética.

Os governos de coalizão do pós-guerra instauraram de fato medidas sociais. Mas o mundo esperado não veio de modo algum. Ao contrário, a aliança leste-oeste transformou-se em Guerra Fria. Ocorreu uma nova glaciação stalinista na União Soviética. Dois imperialismos se confrontaram. Por isso, passamos da euforia ao desencanto, da esperança ao temor.

Nos primeiros anos da Guerra Fria, o imperialismo americano, dotado de um monopólio atômico provisório, me camuflava o imperialismo soviético e o domínio totalitário que ele exercia sobre as nações subjugadas. A supremacia americana me impedia de compreender que o sistema soviético era o pior da segunda metade do século 20, ao passo que em outros lugares a democracia às vezes podia atenuar os abusos do capitalismo.

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O sociólogo e filósofo francês Edgar Morin - Lucas Seixas/Folhapress

Quando aderi ao comunismo, ocultei os piores aspectos da URSS, acreditando que estavam definitivamente relegados ao passado. Depois do Relatório Jdanov, de 1947, condenando toda e qualquer literatura e cultura independente, tornei-me apenas consciente, e crítico, da cretinização cultural imposta por ordem da URSS.

Dyonis Mascolo, Robert Antelm e eu, apoiados por algumas outras pessoas, fizemos uma oposição “cultural” enérgica, mas sem questionar a política geral do partido e sua natureza. Denunciávamos entre nós o cretinismo, a mentira, o dogmatismo, as calúnias como defeitos secundários e provisórios do comunismo stalinista, sem compreender que essas coisas traduziam sua própria natureza.

Tornei-me um mudo político durante o processo Kravtchenko, em 1949, mesmo depois de ter conhecido Margarete Buber-Neumann, que testemunhou a favor do foragido soviético. Ela nos revelou que, após o pacto germano-soviético, Stálin entregara a Hitler os comunistas alemães que tinham se refugiado na URSS. Desse modo, ela passara do gulag ao campo de concentração de Ravensbrück.

Finalmente, foram a ignomínia e a imbecilidade do processo Rajk Laszlo, em 1949, que provocaram em mim uma ruptura subjetiva que se tornou objetiva com minha exclusão em 1951.

Eu tinha tomado consciência do caráter místico, religioso do partido. Tinha visto que ele transformava seres inicialmente bonachões e tolerantes em fanáticos obtusos. Mas foi o excesso de mentiras e ignomínias reunidas nesse processo, como que num microcosmo, que me fez, literalmente, vomitar toda a minha crença.

Apesar dessa ruptura interior, o mais doloroso foi romper com o grande companheirismo e, sobretudo, com grandes amizades. Precisei cortar o cordão umbilical que me impedia de nascer para mim mesmo. Eu tinha 30 anos.

Depois, precisei realizar a integral e radical autocrítica de seis anos de cegueira e ilusões, o que fiz em 1958. Precisei também conceber o que foi o mal específico do século 20: o totalitarismo de partido único.

Muitos recusavam a ideia de que os dois inimigos irredutíveis —nazismo e o comunismo— tivessem o totalitarismo em comum. A oposição total entre a ideologia universalista do comunismo, que abraça toda a humanidade, e a ideologia racial da superioridade ariana, própria à Alemanha nazista, contribuía para a rejeição do conceito.

No entanto, em ambos os casos, um partido único era o detentor das verdades antropológicas e históricas, exercia o controle de todas as atividades humanas, inclusive na vida pessoal, com o apoio de uma polícia onipotente que, ao mesmo tempo que era submissa ao partido, o submetia a seu poder.

A publicação do livro de Hannah Arendt, "Origens do Totalitarismo", fez surgir a noção em 1951. Mas sua definição me pareceu insuficiente. Foi tardiamente, em 1983, acompanhando a história pós-stalinista da URSS, que publiquei meu ensaio "Da Natureza da URSS" para entender esse fenômeno enorme e novo em relação a qualquer outra forma de ditadura.

No século 21, é especialmente importante compreender essa capacidade de escravizar e domesticar as mentes, sobretudo porque hoje estão em formação todos os elementos de um neototalitarismo, cujo primeiro modelo se implantou na imensa China. Portanto, é necessário perceber diferenças e semelhanças entre esse totalitarismo e o do passado. Voltarei a isso.

O relatório Khrushchev, que denunciava o poder de Stálin, durante algum tempo me devolveu a esperança num comunismo liberal, mas a repressão à revolução húngara de 1956 consumou o rompimento final. Este foi total e me ensinou duas verdades.

Primeira: a experiência de meu período na Stalinia foi decisiva para compreender como funcionam as mentes fanáticas e para tornar-me alérgico a elas.

Segunda: ela me possibilitou compreender que eu era fundamentalmente direitista e esquerdista. Direitista porque a partir daí estava decidido a nunca mais sacrificar a ideia de liberdade. Esquerdista porque a partir daí estava convencido não da necessidade de uma revolução, mas da possibilidade de uma metamorfose.

Enfim, essa desmitificação permitiu-me regenerar minha concepção de esquerda, que a meu ver sempre deve se abeberar simultaneamente em quatro fontes: a fonte libertária, para o pleno desenvolvimento dos indivíduos; a fonte socialista, para uma sociedade melhor; a fonte comunista, para uma sociedade fraterna; a fonte ecológica, para integrar melhor o humano na natureza e a natureza no humano.

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