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Sexo inaugura revolução em novo romance de Alexandra Lucas Coelho

'A Nossa Alegria Chegou' conta a revolta de três adolescentes contra um rei tirano e genocida

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Emerson Inácio

Doutor em letras vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor da área de literaturas de língua portuguesa da Universidade de São Paulo

A Nossa Alegria Chegou

  • Preço R$ 54,90 (176 págs.); R$ 29,90 (ebook)
  • Autor Alexandra Lucas Coelho
  • Editora Companhia das Letras

A canção “Numa Cidade Muito Longe Daqui – Polícia e Ladrão”, de Marcelo D2, relata um espaço que lembra muito os problemas brasileiros.

No jogo de similaridades entre este lá e este cá carnavalizados —a inversão de valores impera— há a certeza de que a violência e a opressão são os principais signos das desigualdades que, emanando do poderio político-econômico, atingem a todos de maneira igual.

Ainda que não seja o mote de "A Alegria Chegou", romance da portuguesa Alexandra Lucas Coelho, a canção do rapper carioca bem funcionaria como fundo de umas das cenas dessa narrativa algo distópica.

Mulher branca de cabelo preto cacheado acima do ombro. Ela está sentada
Uma das mesas da Feira Literária de Paraty de 2015, com a mediação de Paula Scarpin e participação de Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho (foto), em 3 de julho - Folhapress

Alendabar, a terra fictícia do livro, pode facilmente funcionar como uma fusão entre um Portugal sob intervenção da troika e um Brasil pós-2018, dado o foco lançado sobre a revolta de três adolescentes contra um rei tirano e genocida, convertido à supremacia de seu próprio egoísmo.

Ambientada num paraíso tropical envenenado em termos ambientais e políticos, o romance se vale de uma estrutura peculiar, baseada em cenas que dão relevo às particularidades de seus protagonistas —Aurora, Ira e Ossi—, bem como aos diversos outros personagens paralelos, sempre relacionados entre si em algum ponto anterior ao narrado.

Estruturalmente, o romance se vale de recursos televisivos e cinematográficos —cortes, sensação de simultaneidade temporal, foco nos pontos de vista e formas de olhar um mesmo fato—, para construir uma espécie de "eco-cuir-romance", visto que há no tecido textual a estratégia de contemplar a diversidade afetivossexual de seus personagens, bem como de demonstrar a iminente falência daquela terra de senhorios, oprimidos, silenciados e excluídos, metonímia de um mundo autofágico.

Ecoa na narrativa um certo tom oswaldiano, que foge às catequeses, celebra deusas e põe o sexo como ponto de partida do que vai ser narrado, o que por si só já denota o encontro das três etnias fundadoras de um novo mundo, unidas agora para gestar e criar revolução.

Ao largo disso, a reflexão sobre a história de explorações, escravidão, massacres, crimes ambientais, especulação imobiliária, econômica e tecnológica, que enfatiza a solidão milionária dos poderosos, suas parafilias e seus hedonismos vulgares.

Se, para o leitor brasileiro, algumas das questões que dão fundo ao romance possam conferir à obra um tom engajado e militante, cabe lembrar que este texto desperta num contexto em que o hibridismo cultural e a diversidade ainda esbarram na hegemonia europeísta, em que a diferença é traço e não pauta.

Pintura mostra homem e mulher se beijando deitados em cama
'Na Cama, o Beijo', de Henri de Toulouse-Lautrec - Henri de Toulouse-Lautrec

Daí talvez redunde o olhar autoral político, que transparece na ação dos personagens do romance, seja pelo seu desejo de instaurar uma nova ordem erótico-afetiva, seja por rearticular noções como justiça, bem-estar e cidadania ou por manter tradições que preveem a permanência de uma memória olfativa e gustativa do outro, como na cena da partilha ritual das cinzas do morto Atlas.

A grande ênfase do romance talvez esteja naquela alegria aludida pelo filósofo Baruch Spinoza ao pensar o que podem os corpos. Fruto da arte dos encontros, é um romance feito de amores revolucionários ou que reveem os lugares comuns da afetividade familiar, muito bem refletida na relação entre os nove personagens que habitam os estertores do paraíso, bem como no seu ódio a um rei que oprime, mas que, acidentalmente, faz do sexo inaugural uma revolução.

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