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Augusto de Campos vê na poesia um último reduto da insubmissão

'Invenção: De Arnaut e Raimbaut a Dante e Cavalcanti' traz ritmo dos provençais do século 12 para a sensibilidade moderna

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Invenção: de Arnaut e Raimbaut a Dante e Cavalcanti

  • Preço R$ 60 (285 págs.)
  • Autor Augusto de Campos
  • Editora Laranja Original

O convívio de Augusto de Campos com a poesia dos trovadores medievais de Provença, no sul da França, se tornou entre nós um caso clássico de tradução criativa. Em sua fidelidade ao espírito do poema, se deixando conduzir pela ginga mágica da linguagem, o concretista incorpora os poetas Arnaut Daniel e Raimbaut d’Aurenga ao mundo cultural da língua portuguesa.

Reeditado pela editora Laranja Original, “Invenção: De Arnaut e Raimbaut a Dante e Cavalcanti” aproxima da sensibilidade moderna as técnicas de métrica, rima e ritmo dos provençais do século 12, com o cuidado de refletir as suas contribuições estéticas à lírica do Ocidente.

A segunda edição tem um breve prefácio do tradutor, iluminuras, manuscritos e uma resenha da poeta Ana Cristina César sobre “Mais Provençais”, de 1982. Campos traduziu quatro canções de Raimbaut, todas as 18 conhecidas de Arnaut e mais uma de autoria incerta, para depois alcançar os italianos Dante e Guido Cavalcanti, que tinham dívidas com os predecessores de Provença.

Os ensaios do concretista prolongam a experiência dos poemas em seus recuos ao tempo histórico dos traduzidos e às escolhas de tradutor comprometido com a linguagem de invenção. O recorte do livro remete a uma síntese crítica de Ezra Pound –“depois de Provença, Dante e Guido Cavalcanti na Itália”– e a uma passagem da “Divina Comédia”, em cujo "Canto 26, do Purgatório", “o melhor artífice da língua materna” surge no fogo ardente. “Eu sou Arnaut, que choro e vou cantando./ Choro a fúria de outrora, sem furor,/ e o prazer do porvir sigo esperando.”

Os provençais desenvolveram a melopeia, a poesia carregada de musicalidade, na classificação de Pound, e modelaram a própria estrutura lírica, legando aos sucessores técnicas inovadoras de versificação, a exemplo de Arnaut e suas rimas polifônicas ou separadas, aquelas que não são repetidas no interior de uma estrofe, mas reproduzidas nas demais. Os mestres de ontem dialogam com a arte poética do presente.

O mistério da palavra “noigandres”, na língua occitana, se colou à história do grupo da poesia concreta. Campos acolhe o lexicógrafo Emil Levy –“l’olors d’enoi gandres” significa um “olor que afugenta o tédio”. Canta Arnaut, inventor de formas, “então meu ser quer que eu colora o canto/ de uma flor cujo fruto seja amor,/ grão, alegria, e olor de noigandres”.

Se faltasse a essas canções o olor contra o tédio, teríamos ainda o olor da vida contra a morte. Desejo, sexo, paixão, bosques, “flores e fiorituras”. À margem da moral religiosa, o canto dos trovadores não teme o amor bruto e se enche de sensorialidade e figurações da natureza.

Canta Raimbaut, precursor de Arnaut que “Já resplende a flor inversa/ por troncos, barrancos, pedras./ Flor? Neve, granizo e gelo/ que escorcha, tortura e trinca,/ guinchos, gritos, brados, silvos,/ por folhas, ramos e vimes;/ mas vivo estou, verde e feliz,/ ao ver já sem vida os servis”. E há o belo desfecho. “Que os olhos deste ser feliz,/ por não vos ver, querem ser vis.”

Arnaut se dirige a mulheres sem postura passiva, soberanas do próprio desejo, bem distantes da ideia de musa estática. Ele era homem de contracorrente. “Eu sou Arnaut que amasso o ar (amo Laura)/ e caço a lebre com o boi/ e nado contra a maré.”.

Num espelhamento, Augusto de Campos também rema contra a maré em sua eleição da poesia como reduto último da beleza e da insubmissão, matriz de todas as vanguardas. No Brasil, caímos outra vez num “tempo dos assassinos”, para lembrarmos Arthur Rimbaud, que alinhava a poesia à mudança da vida. “Invenção” oferece o que pode haver de mais essencial na arte poética –afirmação da vida pelas palavras e revelação do alcance do engenho humano. Tem mais –olor contra o horror.

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