Juçara Marçal mostra voz madura e inconfundível em álbum cheio de influências

Cantora de 59 anos conhecida pela participação no Metá Metá lança 'Delta Estácio Blues', seu segundo disco solo

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Peu Araújo
São Paulo

Falar de Juçara Marçal como uma novidade é um grande equívoco. Mesmo que só agora ela esteja lançando seu segundo disco solo —"Delta Estácio Blues", que chega às plataformas digitais nesta semana—, a cantora de 59 anos já gravou mais de uma dúzia de álbuns.

Só com o Metá Metá, projeto em parceria com Kiko Dinucci e Thiago França, são três discos, um EP e uma trilha sonora para um espetáculo do Grupo Corpo. Ao contar as participações especiais, o número cresce exponencialmente. Ela já colaborou com Jards Macalé, Marcelo D2, Emicida, entre muitos outros.

mulher negra de cabelos crespos pretos
A cantora Juçara Marçal, conhecida por seu trabalho nos grupos Vésper Vocal, A Barca e Metá Metá e por sua carreira solo - Pablo Saborido/Divulgação

O novo capítulo dessa trajetória é composto por 11 faixas recheadas de participações e pontes para universos distintos. Em "Delta Estácio Blues", há uma Juçara Marçal sempre a léguas de distância de sua zona de conforto.

“Tinha essa vontade de mexer com samples, com pedaços de coisas, de não me preocupar com cadência harmônica, e a canção vai surgir disso aí. Como? Não sabemos”, diz Marçal.

“A gente começou com a aventura de samplear vídeos do YouTube, de porta abrindo, de pássaro gritando, misturar com looping de disco de vinil e foi uma lógica muito parecida com o rap”, conta o produtor do álbum, Kiko Dinucci.

Nesse caldeirão de ruídos, gritos, colagens sonoras, surge a voz inconfundível de uma cantora madura e segura em seu passo torto. “Acho incrível cantar samba. Poderia cantar só samba, que já é um universo maravilhoso. Mas tenho esse bichinho que fica ali perguntando ‘mas e se eu experimentar?’”, diz ela.

Quem vê Juçara Marçal segura de si no palco talvez não conheça os passos que a levaram até ali. Filha de uma costureira tornada funcionária pública e de um cozinheiro da Marinha, ela nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, num bairro à beira da rodovia Washington Luiz chamado Jardim Primavera —que, segundo ela, “de primavera não tem nada”.

Ainda na infância, se mudou para o ABC paulista, em São Caetano do Sul, e alguns anos depois para São Sebastião, no litoral norte do estado de São Paulo. “É um movimento natural de família. Alguém que está um pouquinho melhor acolhe os outros para conseguirem se colocar”, diz Marçal, sobre essa migração.

No fim do ensino médio, ela se mudou novamente para a região metropolitana de São Paulo e ingressou no curso de matemática da USP, a Universidade de São Paulo.

“A família tinha essa expectativa, porque desde pequena eu tinha essa coisa —acho que esse termo não se usa mais— de ser CDF. Eu era o estereótipo disso, óculos fundo de garrafa, gostava de matemática, gostava de estudar. A expectativa era ‘essa filha vai levar a gente para outro patamar, porque ela vai conseguir um trabalho legal’”, afirma. Mas, já no primeiro ano do curso, o sonho de ser analista de sistemas deixou de fazer sentido.

A segunda faculdade, também na USP, foi de jornalismo, que chegou a completar. Enquanto isso, prestou vestibular para outro curso, de letras. “A minha paixão na verdade era a palavra. Só que eu só descobri isso depois”, diz a cantora. Atrelada às palavras, estudou latim e português, e depois, literatura brasileira. Fez ainda um mestrado sobre o escritor mineiro Pedro Nava.

Nos anos 1990, a música já ocupava uma parte da sua cabeça e do seu tempo, inicialmente com o grupo Vésper Vocal e posteriormente com A Barca. Marçal dava aulas em universidades, tinha uma rotina acadêmica, mas mantinha shows por aí. Até que os dois universos entraram em rota de colisão. “Teve vezes que eu saí da banca da Fuvest, em que eu corrigia a prova de literatura, e ia direto para o aeroporto. Uma vez, inclusive, eu perdi o avião.”

Dessa forma, com um pé em cada barco, Marçal levou a vida até 2015, um ano após seu primeiro disco solo, "Encarnado". A música venceu. “Foi esse trabalho parcimonioso de equilibrar as duas coisas, ter paciência. Todo esse trajeto era porque ser cantora não era algo possível de assumir na situação em que eu vivia, de família sem grana. O recorte é social, é racial”, ela afirma.

A decisão de viver exclusivamente de música só foi possível depois de ela ganhar o prêmio Governador do Estado, concedido pelo governo paulista, no valor de R$ 60 mil. “Com essa quantia, pude pedir demissão, porque havia essa reserva para segurar a onda em caso de épocas menos favoráveis.”

“Delta Estácio Blues”, que a cantora lança agora, é o resultado de três décadas de carreira e uma prova da versatilidade artística de Marçal. Os ruídos e as colagens sonoras estão em todas as canções —por isso, inclusive, o álbum foi todo feito com sintetizador, bateria eletrônica, programação e efeitos.

mulher negra de cabelos trançados pretos
Capa de 'Crash', primeiro single do disco 'Delta Estácio Blues', da cantora Juçara Marçal - Pablo Saborido/Divulgação

A poesia também domina o álbum, seja na referência nordestina e religiosa de “Vi de Relance a Coroa”, em “La Femme à Barbe”, cantada em francês e com referências da música árabe, ou no passeio por praias poluídas do litoral sul paulista de “Corpus Christi”.

Uma das experimentações mais potentes é "Crash", sobre Ogum, com letra do rapper Rodrigo Ogi. “Ela interpretou a minha música até melhor do que eu, saca?", diz o músico, para quem Marçal é uma das maiores cantoras hoje.

Outra parceria inusitada é com o músico e produtor carioca Cadu Tenório, conhecido pelos trabalhos musicais extremamente ruidosos e barulhentos. Ele e Marçal já tinham feito "Anganga", álbum de noise com referências africanas. Ele assina a coprodução da faixa que abre "Delta Estácio Blues". “A Juçara é uma força da natureza, uma pessoa muito generosa. É sempre um diálogo muito gostoso, de descoberta.”

Ainda sobre as fugas da zona de conforto, Juçara Marçal se aventurou também no teatro como protagonista na montagem "Gota D’água {Preta}", que estreou em 2019 com salas sempre cheias. “Poder fazer a peça numa abordagem de música negra, de teatro negro. Foi isso que me fez decidir. ‘Nossa, não posso deixar de fazer. É histórico.’ Não sei se é histórico para o Brasil, mas é histórico para mim.", diz a cantora.

Jé Oliveira, o diretor do espetáculo, comenta o trabalho de sua atriz principal. “Uma artista do tamanho dela disponível para o risco, para a experimentação, é muito valioso. É uma das maiores potências que ela tem e essa inquietude faz ela ser a grande artista que é.”

Delta Estácio Blues

  • Quando Lançamento nesta quinta (30)
  • Onde Disponível nas principais plataformas
  • Autor Juçara Marçal
  • Elenco Tulipa Ruiz, Cadu Tenório, Rodrigo Ogi, Siba, Fernando Catatau, Douglas Germano, Rodrigo Campos, Maria Beraldo, Negro Leo
  • Produção Kiko Dinucci
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