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'Scenes from a Marriage' tem muito falatório e caricaturas inócuas

Recriação da HBO para obra de Bergman atualiza crise conjugal, mas troca silêncios por palavrório que diz pouco

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O primeiro impulso, meramente moral, é de felicitar a HBO por produzir uma série inspirada pelo trabalho original de Ingmar Bergman, em 1973, num momento em que os grandes estúdios parecem empenhados em infantilizar cada dia mais o público de cinema.

E a primeira cena está à altura do projeto. Mira e Jonathan, exemplo de casal bem-sucedido, são entrevistados por uma estudante de psicologia a respeito de sua felicidade conjugal. Como na série de Bergman, as perguntas são um tanto invasivas. Mas isso faz parte.

Aqui, no entanto, já se notam algumas diferenças sensíveis —adaptado aos novos tempos, o roteiro da estudante já indaga sobre questões de gênero, como quem se ocupa do quê. Jonathan vem de uma família judia ortodoxa, o que também faz sentido. Mas o que já espanta de fato é que os personagens se expressam muito mais por palavras do que por silêncios.

Explicando melhor, na cena de abertura, em Bergman, o não dito é o que mais diz sobre o que ainda virá —as dificuldades da via conjugal. Na série dirigida pelo israelense Hagai Levi, o dito demais é tão intenso que o palavrório acaba por dizer muito pouco a respeito da vida do casal. É um problema —falamos de concorrer com a solidez e o gênio de um cineasta grandíssimo. Mas Levi não passa vergonha.

Esta virá na segunda sequência, quando Mira e Jonathan recebem um casal de amigos. Aqui, a atualização mostra todo o seu arcaísmo. Aceitemos a relação interétnica, aceitemos que vivam um casamento aberto, aceitemos que a moça está sofrendo por ter levado um fora de seu amante, aceitemos que o homem anda com dor de cotovelo. Tudo bem.

Mas, quando se vê a série de Bergman, o encontro não interessa pelas particularidades do segundo casal, mas porque seu casamento e a cena que armam é o espelho do que vive o casal interpretado por Liv Ullman e Erland Josephson. Não por acaso, Bergman corta seco para seu casal na cama, cada um de seu lado, lendo um livro. Depois entra o problema —ela está grávida.

Na nova série há toda uma dispensável cena do casal se arrumando para dormir, passando fio dental et cetera. Depois, Mira se junta a Jonathan na cama e põe a questão da gravidez. De novo, falam muito para dizer bem pouco. As imagens são neutras, pouco captam.

Essa fragilidade será confirmada pela sequência seguinte. Na série de Bergman, o marido encontra a mulher na clínica, onde já fez o aborto. É um momento em que aqueles não ditos do início explodem na cara de Johan, o marido. A mulher, Marianne, foi abortar sem ao menos avisar. O casamento idílico desenhado na cena de abertura é uma farsa convivendo com uma tragédia.

Na versão de Levi, o casal se encontra na clínica, o aborto ainda não aconteceu. Eles falam e falam, percebemos que nenhum dos dois tem certeza sobre abortar ou não. Ambos parecem buscar a solução “racional”. E falam. Mas não há nada racional nisso, é evidente. A cena descamba para o melodramático.

Esse capítulo inaugural da série de Hagai Levi conduz à inevitável conclusão —não se mexe impunemente com um autor como Bergman. A comparação, à medida que as cenas se sucedem, vai se tornando dolorosa. Nas “Cenas de um Casamento”, Bergman nos põe em dia com seu infinito pessimismo —somos condenados a procurar um par para conviver.

Ao mesmo tempo, a convivência é problemática, exaustiva, talvez impossível. Podemos concordar ou não com a premissa —o homem é condenado ao fracasso, à solidão, à dor—, mas Bergman tem uma clareza e uma solidez de ideias que dispensa, entre outros, a ajuda da atualidade. Seu pensamento abrange o homem —ao menos o ocidental—, por isso podemos, em qualquer tempo, nos ver em seus filmes.

Hagai Levi nos restitui esse pensamento na forma de uma caricatura que descamba para o francamente inócuo. É diante de um casal de classe média esclarecida e contemporânea que estamos, mas não há como partilhar suas dores. Parecem dois seres alienados do mundo em que vivem, não mais. Sabemos suas profissões, mas não sabemos como se relacionam com o mundo exterior, nada.

Podemos argumentar que o casal bergmaniano também pouco se relaciona com o mundo em torno de si, o que é fato. Mas o mundo bergmaniano, para começar, é mental. Ainda que não fosse, é sueco e não americano.

Isso não significa que nenhum outro cineasta seja capaz de seguir os passos de Bergman de maneira eficaz. O exemplo, aliás, vem dos Estados Unidos, e de Woody Allen em especial. Allen é um bergmaniano, carrega o mesmo sentimento pessimista do mestre e se mostra perfeitamente à altura de Bergman, quando nos faz rir da fragilidade, do caráter errático e mesmo da insignificância da passagem do homem pela vida. Já quando pretende mimetizar Bergman “a sério”, Allen é apenas um lúgubre imitador.

Quanto à versão da HBO, pode até melhorar no futuro. Mas seu ponto de vista já se mostra no primeiro capítulo, e não vai longe.

Scenes from a Marriage

  • Quando Novo episódio todo domingo, às 22h
  • Onde HBO e HBO Max
  • Elenco Jessica Chastain, Oscar Isaac
  • Direção Hagai Levi
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