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Tentaram destruir os negros, mas estamos aqui, fazendo barulho, diz Ricardo Aleixo

Escritor mineiro celebra os 60 anos com novos livros e obras no Museu da Língua Portuguesa e no IMS Paulista

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Peri Pane
Belo Horizonte

“A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana.” A famosa frase do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues é evocada pelo poeta mineiro Ricardo Aleixo para descrever a bolada que levou no rosto durante uma partida de várzea em Campo Alegre, na periferia de Belo Horizonte, onde vive ainda hoje. O lance o deixou cego do olho direito aos 18 anos.

No último mês de abril, em meio aos eventos e lançamentos que celebram os seus 60 anos, o breu cobriu sua vista vizinha. O poeta de Minas Gerais recebeu um diagnóstico de glaucoma bem avançado no olho esquerdo. Ele foi submetido às pressas a uma cirurgia, com o risco de ficar completamente cego. Passou 16 horas mergulhado numa insone escuridão.

O poeta, artista e músico Ricardo Aleixo, autor de 'Pesado Demais para a Ventania', entre outros - Rafael Motta/Divulgação

“Quando retirou os curativos, o médico me disse ‘muitas pessoas que vivem a situação que você está vivendo agora me dizem que eu sou alemão’. E ele é nissei [filho de pais japoneses]. ‘Você confirma que eu sou alemão?’ ‘Não’, eu disse”, lembra, rindo.

As 16 horas sem enxergar renderam o filme-ensaio “O Devorado pela Luz”, que reúne alguns dos versos que ele escreveu sobre a visão. É o caso do poema “Uma Hipótese”, do livro “Trivio”, de 2001. “Um Homero/ um Milton/ um Joyce/ um Borges/ ou os quatro/ juntos/ compondo/ a mesma frase/ mas em braille/ para olhos livres/ de ver/ olhos de lince/ na ponta dos dedos.”

O filme participou da primeira edição do Lâmina, Mostra Audiovisual Preta, no Espírito Santo, e traz imagens de dentro do “Poemanto”, um invento que se assemelha ao "Parangolé" criado por Hélio Oiticica que Aleixo veste para fazer suas “Corpografias” desde 2000.

Poeta, músico, performer, artista visual, ensaísta, o mineiro tira de letra a palavra por todos os ângulos. Com 13 livros publicados e prestes a completar 30 anos do lançamento de “Festim”, sua estreia na literatura, ele segue em seu caminho múltiplo e fértil.

Em suas constantes “viajações”, como gosta de falar, dentro e fora do Brasil, dá voz a sua poética errática em leituras e performances. Já teve poemas musicados por artistas como Chico Lobo, Gustavo Galo, Mauricio Tizumba, Juarez Maciel e Benjamim Taubkin.

A pandemia pegou o poeta de malas prontas. Tinha marcado uma temporada de apresentações nos Estados Unidos, a convite da Universidade de Nova York e da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Era assim que celebraria os seus 60 anos de vida.

“Ficar em casa acabou me mostrando a casa. E, entendendo direito esse espaço, que é também ateliê, acervo, o lugar da memória da minha família, eu pude me entender melhor", diz. Segundo ele, uma das consequências dessa experiência foi a reativação do seu trabalho com os dispositivos eletrônicos. Surgiram muitos convites para videopoemas, podcasts e videoperformances.

homem careca negro de óculos e blazer e camisa azul escuro
Ricardo Aleixo, em imagem de 2018; ele estreou há 30 anos na literatura, com “Festim” - Rafael Motta / Divulgação

Dois videopoemas concebidos nesse período estão em exibição no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. A imagem do poeta se multiplica em uma tela com extensão de 106 metros na instalação “Rua da Língua”, com roteiro de José Miguel Wisnik e Leandro Lima. “Algo ‘expressionante’, como eu gosto de dizer. Tudo o que venho trabalhando em termos de multiplicidade e de simultaneidade está ali materializado”, diz.

Na obra “Falares”, sua imagem é projetada em uma tela de tamanho real. “Eu apareço dizendo o poema ‘Palavrear’, que fiz como parte do trabalho de luto pela minha mãe, em 2009, gravado no corredor lá de casa. E canto a canção de ninar que ela cantava quando eu era bebê, que termina com o verso ‘canta que o mundo é teu’”, afirma.

Aleixo também participa da mostra em homenagem à escritora mineira Carolina Maria de Jesus que abre no próximo dia 25, no IMS Paulista, onde vai expor pela primeira vez o “Poemanto” sem sua presença. “É uma obra que não existe sem ser vestida, como os 'Parangolés' de Hélio Oiticica, mas vai ser mostrada como obra autônoma.”

Também será exibido um vídeo em parceria com a artista visual Aline Motta. Gravado com um drone na cobertura de um prédio em São Paulo, a obra parte do poema “Meu Negro”, que encerra sua antologia poética “Pesado Demais para a Ventania”, lançada em 2018 pela editora Todavia, e que termina com o verso “eu não sou apenas o que você pensa que eu sou”.
“As tentativas de coisificação da gente negra falharam. Não conseguiram nos destruir. Aqui estamos, incômodos, fazendo barulho”, diz Aleixo, que acaba de lançar “Extraquadro”, pela Impressões de Minas, e já está com o livro “Diário da Encruza” pronto para sair pela editora baiana Organismo.

“Extraquadro” conta com um projeto gráfico criado pelo parceiro Mário Vinícius em diálogo com materiais fornecidos por Aleixo –desenhos, fotografias, entre outros. O livro tem uma sobrecapa que se transforma em pôster e uma capa feita com letras vazadas, que, de alguma forma, remontam à sua “iniciação poética” na meninice, quando sua mãe, Íris Aleixo de Brito, o deixava recortar as letras de sua coleção de revistas.

A infância do poeta também aparece em outros momentos, como no poema que dá nome à obra. O termo extraquadro, usado na fotografia, se refere aos elementos que não estão no centro da cena, mas que se relacionam com ele.

“A casa do zelador/ do clube/ fica/ ali no extraquadro”, dizem alguns dos versos do poema, que parte de uma fotografia que está na contracapa do livro. Com seis anos, ele aparece sentado no gira-gira ao lado de sua irmã, Fatima, na margem esquerda da foto.

Sua irmã faz uma leitura do poema “Extraquadro” num vídeo que será exibido no ciclo de conversas online “Parlavratório”, promovido neste mês pelo Sesc 24 de Maio, que também conta com uma performance do poeta a partir do poema “O Tempo Todo Tudo Muda”.

“Belo Horizonte viveu o ‘apartheid’ embora isso não estivesse determinado por decreto. A praça da Liberdade tinha o lado branco e o lado negro. Meu pai vinha de Nova Lima para passear com o irmão dele e desafiava essas convenções”, diz.

Os passeios de seu pai, Américo Basílio de Brito, morto um ano antes da mãe de Aleixo, aparecem no poema de abertura, “Quase Épico”, que dialoga com “Labirinto”, publicado em sua antologia. “Como os cegos/ conheço o labirinto/ por pisá-lo/ por tê-lo/ de cor na ponta dos pés.”

“Quando digo isso estou pegando carona nesse conhecimento da cidade praticado pelo meu pai”, diz. A ancestralidade permeia toda a obra de Aleixo, seja nos orikis, evocações de orixás, seja na missão de abrir vozes a quem não teve chance e aos que virão. “Mesmo qu/ ando/ só eu só/ ando/ em b/ ando”, escreve em um dos poemas de “Extraquadro”.

Desde e para sempre, o poeta lança seu olhar de lince na mira da meta. “Fui boleiro, né?", arremata, com os pés bem plantados no chão.

Rua da Língua e Falares

  • Quando Ter. a dom., de 9h às 16h30. Até 3/10 (agendamento p/ sympla.com.br)
  • Onde Museu da Língua Portuguesa, praça da Luz, s/nº, portão 1

Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os Brasileiros

  • Quando Ter. a dom., 12h às 18h. Abertura em 25/9. Até 30/1/2022 (agendamento p/ sympla.com.br/imspaulista)
  • Onde IMS Paulista, av. Paulista, 2424
  • Preço Grátis

Parlavratório – Conversas sobre Escritas

  • Quando 16, 17, 23 e 24/9
  • Onde Ciclo online no Sesc 24 de Maio

Extraquadro

  • Preço R$ 65
  • Autor Ricardo Aleixo
  • Editora Impressões de Minas
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