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Fernanda Torres

'Terra Estrangeira' fundou uma das maiores eras do cinema brasileiro

Estranho comemorar duas décadas e meia do filme em meio à reprise dos piores momentos da pátria

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Fernanda Torres

Atriz e roteirista, autora de “Fim” e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”.

Imagine um país inviável, presidido por um falso caçador de corruptos, que vê a cultura e a educação como inimigas. Imagine que esse mesmo país, com taxa de inflação descontrolada e miséria crescente, se valha de medidas econômicas caóticas, forçando muitos de seus habitantes a optar pelo exílio, párias em terras estrangeiras.

Esse era o Brasil do início da década de 1990, mas bem poderia ser o de agora. Estranho comemorar duas décadas e meia da feitura de "Terra Estrangeira", durante a reprise dos piores momentos da pátria.

São muitos os paralelos. Em março de 1990, ao assumir a Presidência da República, Fernando Collor de Mello extinguiu o Ministério da Cultura. Um mês depois, o Programa Nacional de Desestatização deu fim à Embrafilme com uma penada.

O óbito em forma de decreto foi assinado pelo então secretário de Cultura, o jornalista e cineasta Ipojuca Pontes. Pontes amargava o ostracismo e nutria o ressentimento de seus pares, sentimento comum a muitos secretários e ministros do atual governo Messias.

Do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema de pé foi desmantelada. Não havia nem sequer um telefone fixo para atender uma ligação. Era terra arrasada.

Eu, que havia emendado uma fita após a outra e recebido a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes, com o fim da Embrafilme, recorri às produções do além-mar. Fiz dois filmes em Portugal e um no México, da HBO, com Anthony Hopkins e Norma Alejandro.

E foi lá, no México, que recebi a notícia do confisco de Zélia Cardoso de Mello. Alarmada, contei para a produtora inglesa que o governo havia se apoderado de todo o dinheiro depositado pelos brasileiros nos bancos. Ann Skyner sorriu incrédula e respondeu: "Fernanda, don’t worry. They can’t do it! It doesn’t exist".

O exílio de Alex, no "Terra", era também o meu.

Walter Salles começara na televisão, com programas de entrevista, fizera documentários importantes e, como toda a geração posterior à Embrafilme, encontrara nos comerciais a possibilidade de exercer, pelo menos na prática, uma profissão que já não existia.

Walter estreou na direção de longa-metragem em 1991. "A Grande Arte" era uma produção de porte considerável, falada em inglês, com casting gringo. Jamais conversamos sobre o assunto, mas pressinto que a experiência não lhe rendeu a liberdade e o sentido de autoria que experimentava durante a realização de seus documentários.

Quando intuiu o "Terra Estrangeira", inspirado na imagem de um imenso navio encalhado na costa de Cabo Verde, o cineasta elegeu como parceira Daniela Thomas. Walter buscava tanto o acurado senso estético da artista, quanto a intimidade dela com o processo teatral.

Daniela acabara de realizar os cenários e figurinos de "The Flash and the Crash Days", peça dirigida por Gerald Thomas, comigo e minha mãe no elenco. Entre um êxodo e outro, eu trocara as telas pelo palco. Dos palcos, também vieram Alexandre Borges, o rei Claudio do "Hamlet" do Teatro Oficina; Luiz Mello, o Macbeth do CPT, e Fernando Pinto, tão virgem quanto Paco.

Neófita em roteiro, Daniela passou a testar as cenas com os atores. Líamos em conjunto, arriscávamos falas, diálogos e situações. Na outra ponta, Walter Carvalho, parceiro de Salles nos documentários, assumiu a fotografia e a câmera.

Chegamos a Lisboa com uma equipe mínima, ágil, filmávamos com incrível rapidez. Até hoje, tenho saudade da gramática do "Terra Estrangeira", da elegância de um plano geral que entrega para o close, sem coberturas inúteis, sem bê-a-bá.

Era cinema de grupo, onde todos, desde o princípio, foram convidados a dividir a autoria. Assim, "Vapor Barato", de Jards Macalé e Waly Salomão, virou tema do "Terra". Walter me pediu para cantar uma música e o velho LP da Gal, que meus pais ouviam em looping, me surgiu como uma canção de exílio. Assim, Carvalho se arriscava em gruas sobre penhascos e Salles servia de dublê, nas tomadas de ação.

"Terra Estrangeira" nos fundou. Daniela conquistou o cinema e a escrita se abriu para mim, vendo-a usar a improvisação para erguer uma cena no papel. Walter não teria realizado "Central do Brasil" sem se encontrar no "Terra". Debutamos juntos. É um filme de formação, de juventude, de descoberta da própria potência. Tudo isso está impresso na tela.

Vinte e cinco anos depois, "Terra Estrangeira" vem nos lembrar que, sim, existe vida depois da morte.

Nas oras funestas, há sempre um movimento contrário, criador, capaz de nos guiar para além. A retomada nasceu com "Carlota Joaquina" e continuou com o "Terra Estrangeira", com "Cidade de Deus", "Central do Brasil" e tantos filmes, peças, livros, músicas, séries e novelas que vieram e virão.

Eles passarão. Eu passarinho.

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