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'Erva Brava' forja narrativas brilhantes sobre gente derrotada

Livro de contos da escritora brasiliense Paulliny Tort tem como universo de referência uma cidadezinha em Goiás

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Luís Augusto Fischer

Professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de “Literatura Brasileira - Modos de Usar” (L&PM).

Erva Brava

  • Preço R$ 54,90 (104 págs.); R$ 34,90 (ebook)
  • Autor Paulliny Tort
  • Editora Fósforo

O problema para a criação literária não é escolher o assunto, que sempre sobra: é encontrar a distância adequada entre ponto de vista e objeto e, ao mesmo tempo, alinhar a linguagem com tudo isso. Uma dimensão ética, outra estética. Depois tem todo o resto: escolher o tamanho certo do relato, forjar enredo, encontrar ritmo.

"Erva Brava", de Paulliny Tort, acerta em tudo isso. O universo de referência é uma cidadezinha em Goiás, Buriti Pequeno, com centro gravitacional na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Doze contos narram vidas paralelas, que compartilham o cenário —mundo rural, cavernas, práticas ancestrais— e o destino histórico —a agroindústria, em sua imposição devastadora.

mulhere morena de cabelos lisos diante de fundo branco
A escritora brasiliense Paulliny Tort, autora de 'Erva Brava', publicado pela editora Fósforo - Reprodução

O assunto é sempre gente derrotada, no amplo espectro desse processo. Jovens viciados em crack, a mãe deficiente que perdeu a filha menina para a fazendeira que a levou para a cidade grande, o jovem que consegue uma moto velha emprestada para namorar, a velha benzedeira que amalgama catolicismo com bendições afro-americanas, um velho camponês isolado. Até a esposa do prefeito, típico desse mundo de SUVs, ecocídio e indiferença social, é uma perdedora, com seu patético sonho de enfeitar a cidade com os pombos que viu em cidades grandes.

Há pontos altíssimos, em que o choque entre a memória de um tempo ameno e a modernização arrasadora alcança realização narrativa superior. Ninguém com o coração batendo conseguirá passar indiferente por contos como "Má Sorte", em que enredo —jovem contratado para entrar num imenso silo para desfazer com os pés grumos de umidade depois de chuvas— e forma —suspense no fio da navalha— convergem de modo genial.

A autora desenvolve ainda dois méritos notáveis. Um é a delicada tensão da superfície das palavras e frases: há clareza e precisão, e nunca há transbordamentos; nenhuma palavra rompe a superfície do texto, em contraste com a violência histórica implicada. A voz narrativa tem forte intimidade ética com os personagens, mas tem a sabedoria de não apelar para qualquer populismo piedoso. O efeito desse pacote reforça a experiência de desvelamento oferecida ao leitor.

O outro se encontra na escolha do conto. Não é que o mundo enfocado não renda romance —em estilos, proporções, épocas e alcances diferentes estão aí Bernardo Guimarães, Guimarães Rosa, Raduan Nassar, Itamar Vieira Júnior. Mas o conto tem a virtude, que é também um limite epistemológico, de dar protagonismo para o miúdo e para o culturalmente distante: o mundo dos derrotados do agro, por exemplo. No conto de Paulliny Tort cabe o desconsolo de Joaquim Baiano com a chegada do incompreensível turismo rural, como cabem os sonhos falhados de Neverson.

O derradeiro conto, no entanto, sugere algo além dessa coleção de casos particulares, ao imaginar uma catástrofe final, em que a cidade toda parecerá nunca ter existido. Uma espécie de luz derradeira, que ilumina de trás para diante, sem oferecer um plano unificador mas sugerindo um quase-romance, a ecoar o sentimento histórico de perplexidade que organiza cada uma das histórias.

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