Descrição de chapéu

'Que beleza' foi a última frase de Ruy Ohtake, e ela guiou toda sua obra

O raciocínio do arquiteto entrelaçava aspectos técnicos e sociais, além da percepção estética por parte do homem comum

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Abílio Guerra

Arquiteto e professor-adjunto da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É mestre e doutor em história.

Ruy Ohtake, morto na manhã deste sábado (27), nasceu em São Paulo em 27 de janeiro de 1938. Filho primogênito da artista plástica Tomie Ohtake e do agrônomo Alberto Ohtake, ele é irmão do arquiteto Ricardo Ohtake, além de pai da atriz Elisa, com a atriz Célia Helena, e do arquiteto Rodrigo, com a arquiteta Sílvia Vaz).

Na fase inicial de sua carreira, após ter se formado na FAU-USP, em 1960, é forte o impacto de Vilanova Artigas e da chamada escola paulista, com a predominância de obras pautadas pela expressão plástica do concreto armado, caso das residências Tomie Ohtake (1966), Nadir Zacarias (1970), Fabio Yassuda (1974), José Egreja (1975) e Luiz Izzo (1975), as quatro primeiras na capital, a última em uma fazenda em Penápolis, no interior do estado.

 O arquiteto Ruy Ohtake lê suas revistas " Senhor" compradas em um sebo, em uma poltrona na cobertura onde mora
O arquiteto Ruy Ohtake lê suas revistas " Senhor" compradas em um sebo, em uma poltrona na cobertura onde mora - Lalo de Almeida/ Folhapress

São desse período também suas primeiras obras de caráter público —a Central Telefônica da Telesp, em Campos do Jordão (1973), e as agências bancárias do Banespa do Butantã (1976) e de Goiânia (1977)— e quatro edifícios residenciais preciosos, projetados para serem construídos em São Paulo pela Cia. City —Quatiara, Riachuelo, Guarapari e Humaitá, todos de 1972.

Mas vai ser nos anos 1990 que Ruy Ohtake irá marcar a paisagem paulistana com três referências urbanas: os hotéis Renaissance (1993) e Unique (1995), e o Instituto Ohtake Cultural (1995), este último um dos mais ativos equipamentos de arte e cultura do país.

Há nesse período uma evidente mudança do caráter de sua obra, onde a curva e as cores, embora presentes desde o início de sua carreira, ganham maior protagonismo, conferindo maior dinamismo e exuberância aos projetos.

A fachada côncava com esquadrias vermelhas e a parede externa convexa, pintada de amarela, do auditório da bela Embaixada brasileira em Tóquio (1981) podem ser vistas como uma primeira experiência nessa direção.

São muitos os projetos que atestam a capacidade de Ohtake em controlar a escala urbana. O Parque Ecológico do Tietê, iniciado em 1976, mantém as características naturais do rio antes de ele ser canalizado em sua passagem pela metrópole, oferecendo à população da região equipamentos de lazer e espaços de recreação formidáveis.

O Parque Ecológico de Indaiatuba, de 1989, é uma invenção do arquiteto. Convidado para realizar o plano diretor, convenceu o prefeito da época a estruturar o desenvolvimento urbano a partir de um parque linear com 8 km de extensão ao longo do córrego Barnabé.

Já neste século, Ohtake realizará o Parque da Cidade, em Mogi das Cruzes (2014), com formas e cores marcantes no desenho dos inúmeros equipamentos de esporte e lazer. E o porte das vias elevadas e das duas estações terminais do expresso Centro-Sacomã (1997) se coadunam com o ritmo frenético e a escala metropolitana da cidade.

Prêmios foram uma constante durante a trajetória de Ohtake, tanto os do IAB e das Bienais de Arquitetura, como os conquistados em concursos de arquitetura. Seus projetos e obras foram publicados em dezenas de revistas e livros. Sua notoriedade extravasa o meio profissional e vai ser constantemente pautada pela grande mídia.

O reconhecimento de sua obra pela população é motivo principal para receber a medalha Anchieta, outorgada pela Câmara Municipal de São Paulo em 2012.

Contudo, a trajetória exitosa tanto no mercado imobiliário como no conjunto de obras públicas e institucionais, e a projeção de seu nome nos meios profissional e social, não se desdobraram em reconhecimento no âmbito universitário, aonde ainda é restrito o número de teses, dissertações e artigos, discrepância que deve ser ultrapassada nos anos vindouros.

Nos anos mais recentes, o maior orgulho do arquiteto era o conjunto de obras no bairro de Heliópolis, iniciado em 2004, com a pintura de fachada das casas, mas que culminou com o Polo Educativo e Social de Heliópolis e o conjunto habitacional, ao qual chamava carinhosamente de "redondinhos".

Durante o processo, Ohtake levou em visita à comunidade o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, assim como recebeu de Antonio Candido a lista de livros obrigatórios para a primeira biblioteca do local, improvisada em uma edificação preexistente. Suas frequentes visitas ao bairro se tornavam festas, com os moradores demonstrando carinho, respeito e reconhecimento pelo seu trabalho.

O lado engajado do cidadão Ruy Ohtake também se manifestou fora da arquitetura. Em 1986, na campanha de candidatos a deputados para a Assembleia Constituinte, ele assinou um documento de apoio a Fernando Morais (PMDB), junto com Chico Buarque, Milton Nascimento, Antônio Callado, Ignácio de Loyola Brandão, Cacá Diegues, João Batista de Andrade, Paulo Markun, Ruy Castro, Jorge Wilheim e Ruy Gama. Ohtake se manteve coerente ao longo dos anos e sempre apoiou partidos e bandeiras progressistas.

Ruy Ohtake foi um arquiteto completo. Seu raciocínio entrelaçava o desenvolvimento da forma, a preocupação com os aspectos técnicos e sociais, a percepção estética por parte do homem comum.

No seu dia a dia, ao comentar aspectos do projeto, invariavelmente se munia da lapiseira ou do bastão de giz, e desenhava na folha solta ou no quadro negro, croquis e esquemas explicativos, plantas e cortes com proporções precisas.

Seu trabalho e sua vida se pautavam por uma busca constante de harmonia entre forma bela, técnica apropriada e uso enobrecedor. Talvez isso jogue alguma luz sobre sua última frase, ouvida pelos parentes que o acompanharam até o fim: "Que beleza..."

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