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'A Filha Perdida' em filme traduz bem incômodo do livro de Elena Ferrante

Autora tem adaptações no audiovisual desde 1995, e longa de Maggie Gyllenhall fica entre as boas

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Fabiane Secches

Leda, uma professora universitária, vai para o litoral durante as férias escolares. Ela tem 48 anos, é separada, e tem duas filhas adultas: Bianca e Martha, com 25 e 23 anos. A princípio, parece curtir a liberdade dessa jornada, mas acaba obcecada por uma jovem mãe, Nina, e sua filha pequena, Elena, que sempre encontra na praia, acompanhadas pela boneca da menina.

Essas figuras arrastam Leda para uma imersão desconfortável em sua própria história de vida, em sua própria experiência com a maternidade, e a levam a cometer um ato impensado, que ela mesma não consegue compreender.

Quando a adaptação cinematográfica de "A Filha Perdida", romance de Elena Ferrante, foi anunciada, a expectativa de seus leitores, um séquito tão fiel e acalorado que originou o movimento denominado "Febre Ferrante", foi às alturas.

Pela primeira vez, uma obra da autora seria adaptada por uma mulher, a atriz Maggie Gyllenhall, em sua estreia como diretora, feito significativo por diversas razões. Uma delas a de que Ferrante prescruta temas muito caros às mulheres em seus livros, como a maternidade, e o faz por uma perspectiva poucas vezes vista, explorando a ambivalência dessa experiência sem igual.

A história das adaptações da obra de Ferrante para o cinema começa em 1995, com o lançamento do elogiado "Amor Molesto", filme de Mario Martone, inspirado no romance homônimo, o primeiro publicado pela autora —no Brasil, "Um Amor Incômodo". Dez anos depois, Roberto Faenza levou o segundo romance de Ferrante para as telas com "Dias de Abandono", versão um pouco mais controversa.

Em 2018, foi a vez da tetralogia napolitana, considerada a obra-prima da autora, ser transformada em série da HBO, criada por Saverio Constanzo —"A Amiga Genial", que em breve estreia a sua terceira temporada e tem sido muito comovente. Já a Netflix anunciou que fará a adaptação do último romance publicado pela escritora, "A Vida Mentirosa dos Adultos", no formato de uma minissérie.

Com a estreia de "A Filha Perdida" nesta sexta (31) na Netflix, a autora completa o feito de ter todos os seus romances adaptados para o formato audiovisual, alguns com mais, outros com menos sucesso —o filme inspirado em "Dias de Abandono" deixa muito a desejar.

No caso de uma autora tão querida como Ferrante, pode ser difícil se desapegar da obra literária para apreciar a cinematográfica sem tomar o romance como gabarito. Por isso, talvez seja importante assistir a "A Filha Perdida" ao menos duas vezes: a primeira para conferir como algumas passagens emblemáticas do livro foram traduzidas para a linguagem visual, e a segunda para fruir o filme por ele mesmo, como obra autônoma. O crítico e professor Ismail Xavier lembra, num texto sobre adaptações literárias, que a obra originária vale como ponto de partida, não como estação de chegada.

Em textos e entrevistas concedidas por email, Ferrante diz que para recriar uma história numa outra linguagem, muitas vezes é preciso não apenas inventar algo novo, mas também trair o material de origem. A primeira traição de Maggie Gyllenhall foi ter transportado a história da Itália para a Grécia, e o idioma, do italiano para o inglês, diferentemente das outras adaptações.

Para algumas pessoas, essa decisão compromete um elemento central dos livros de Ferrante: a cidade de Nápoles, com todas as suas particularidades, que é onipresente em seus romances e, digamos, constitutiva da obra.

Já a atuação de Olivia Colman como Leda tem sido ovacionada pela crítica —a própria Ferrante considera que ela está extraordinária no papel. Mas foi Jessie Buckley quem ganhou minha atenção. Ela, que interpreta Leda mais jovem, está realmente impecável em algumas cenas desafiadoras.

Quem leu o livro imagina o desafio de adaptar uma história sombria, ambígua, cheia de lacunas e entrelinhas como essa, narrada em primeira pessoa pela protagonista. Mas Gyllenhall fez isso com maestria, sem se apoiar no recurso de voice-over, com elementos próprios do cinema: ângulos improváveis, atuações primorosas, edição e sonoplastia que enriquecem muito a narrativa e transmitem, de outras formas, o incômodo que a leitura do romance provoca.

A diretora, que também é mãe, disse que se sentiu representada pela primeira vez ao ler o romance de Ferrante, que não hesita em sobrepor o belo e o feio de toda experiência humana, em especial da relação entre mães e filhas.

Fabiane Secches

Psicanalista, crítica literária e pesquisadora de literatura na USP

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