Descrição de chapéu Livros LGBTQIA+

Bienal do Livro do Rio responde à censura de Crivella com edição militante

Prefeito Eduardo Paes abriu a edição esvaziada da pandemia com crítica velada ao governo Bolsonaro

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Rio de Janeiro

A Bienal do Livro do Rio de Janeiro abriu as portas na manhã desta sexta-feira (3) repleta de militância. Se dois anos atrás a feira sofreu censura quando o ex-prefeito Marcelo Crivella mandou fiscais irem até o Riocentro esconder em sacos pretos uma HQ que mostrava um beijo gay, sob protestos da organização, o evento agora será um palco para a diversidade.

Na cerimônia de abertura da feira, o episódio foi relembrado pelo atual prefeito carioca, Eduardo Paes, do PSD, que fez, sem citar nomes, críticas ao presidente Jair Bolsonaro. O presidente não participou do evento nem enviou ao local nenhum membro de sua Secretaria Especial de Cultura, chefiada por Mario Frias, ex-galã teen de "Malhação".

"É inacreditável que tenhamos vivido uma experiência como a da Bienal passada. Venho me desculpar pelos absurdos que aconteceram aqui", afirmou. "Como nação, nunca imaginamos que pudéssemos passar pelo que estamos passando. Sempre achamos que éramos uma gente que respeitava a diversidade. É assim que as pessoas olham para gente lá de fora, e é assim que devemos permanecer."

'O Primeiro Beijo de Romeu', escrito por Felipe Cabral, é destaque no estande da Galera Record na Bienal do Livro do Rio de Janeiro
'O Primeiro Beijo de Romeu', escrito por Felipe Cabral, é destaque no estande da Galera Record na Bienal do Livro do Rio de Janeiro - Pedro Martins/Folhapress

Ainda na cerimônia, restrita a jornalistas, políticos e integrantes do mercado editorial, quem primeiro subiu ao palco foi o grupo Slam das Minas. Vestidas de branco, saudando orixás, elas primeiro questionaram os convidados, quase que um a um, se tinham tomado a vacina contra a Covid-19 —uma das exigências para cruzar os portões do Riocentro.

Em seguida, gritaram por minutos a fio ordens de respeito numa batalha poética. "Viemos antes das regras da gramática", "aqui estávamos antes da tua escrita chegar para julgar nossos corpos estranhes que não seguem seus padrões estéticos". "Somos as verdadeiras imortais", concluíram, saudando Conceição Evaristo, uma das principais autoras negras do país, que recebeu apenas um voto dos imortais ao tentar se eleger para a Academia Brasileira de Letras em 2018 e que participa da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, neste sábado (4).

Atrás delas, o telão destacava palavras como "diversidade", "liberdade", "acolhimento", "sensibilidade" e "transformação", numa militância que também se espalha pelas prateleiras dos estandes de editoras e livrarias, repletas de livros protagonizados por personagens queer, ou seja, que não se encaixam em papéis de gênero e sexualidade impostos no nascimento.​

Seja por um honesto respeito à diversidade, seja porque quem lacra também lucra, estes livros nunca estiveram tão em alta, as listas de mais vendidos do país revelam. Boa parte deles por influência dos "booktokers", como são chamados os influenciadores digitais que apresentam livros no TikTok, mas também num efeito rebote à censura imposta por Crivella.

Em frente a um painel estampado por dois rapazes se beijando, ilustração da capa de "O Primeiro Beijo de Romeu", um livro inspirado justamente pela censura da feira passada, leitores tiravam fotos e gritavam que estavam "descrivellizando a Bienal". Assim que a feira abriu as portas, virou uma parada obrigatória entre os visitantes, como se fosse um ponto de peregrinação.

Esta edição da Bienal ainda é atípica noutro sentido. Com a pandemia ainda em curso, muitas das editoras que tinham os estandes mais aguardados pelo público, como a Companhia das Letras, a Rocco e a HarperCollins, preferiram ficar de fora. O número de estandes diminuiu pela metade, de 196 em 2019 para 85 nesta edição.

A quantidade de autores e influenciadores também caiu de 300 para 180. Todos os convidados internacionais, como Marina Enriquez, Julia Quinn, Matt Ruff e Josh Malerman, participarão apenas por videoconferência. São mudanças que devem reduzir a quantidade de visitantes. Ao longo dos próximos dez dias, os organizadores esperam receber 400 mil pessoas —200 mil a menos do que na última edição.

São os autores, afinal, que levam o público à feira, com sessões de autógrafos tão disputadas que, certa vez, adolescentes histéricas chegaram a arremessar sapatos umas nas outras para conseguir uma assinatura de Nicholas Sparks, à época um dos nomes que mais vendiam livros no país.

Todos os 16 autores da Três Pontos, agência literária que publica livros voltados ao público jovem, decidiram recusar convites para participar da feira por questões sanitárias. Entre eles, estão nomes como Vítor Martins, que teve seu romance de estreia, "Quinze Dias", publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra em paralelo a uma adaptação para as telas, que está a caminho.

Martins, que gravava vídeos sobre livros no YouTube, é presença constante em feiras literárias há quase uma década. Era um dos principais organizadores de encontros entre leitores e influenciadores digitais que chamavam atenção até da TV aberta. Desta vez, porém, preferiu ficar em casa. Não foi uma decisão das mais fáceis, explica sua agente, Taissa Reis, da Três Pontos.

"Durante o evento, a gente consegue vender cinco vezes o que se vende num mês normal em livrarias físicas e on-line. É uma decisão muito difícil num país em que pouquíssimos autores vivem só do que ganham com a escrita", diz. "Brasileiro abraça, beija, tira foto com uma cara apertada com a outra. Se em anos regulares a gente sempre tem a gripe pós-Bienal, imagina este ano?"

O jornalista viajou a convite da Bienal do Livro do Rio de Janeiro

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