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Da polêmica com Carolina de Jesus à revolução na ABL, livros fecham ano com alívio

Livrarias voltaram a respirar em 2021 depois de um longo castigo pandêmico e mercado entra esperançoso em 2022

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Detalhe da capa de "A Visão das Plantas", livro elogiado que Djaimilia Pereira de Almeida lançou este ano pela Todavia Divulgação

São Paulo

"O sofrimento me deu uma lição mais forte do que qualquer outra", diz a personagem Estella numa das citações mais conhecidas de "Grandes Esperanças". "A vida me dobrou, me quebrou, mas espero que tenha me tornado uma pessoa melhor."

A narrativa do mercado editorial, dobrado e alquebrado por crise atrás de crise, não fica muito longe de um clássico de Dickens. Inclusive na conclusão alvissareira deste 2021 —doses de confiança provocadas pelo aumento significativo das vendas de livros, que no começo de novembro já superavam o total de 2020.

Adicione a isso a pujança da Bienal do Livro do Rio de Janeiro —lucrativa para as editoras que decidiram comparecer e tida como um ensaio para a volta dos eventos literários presenciais— e a normalização do movimento nas livrarias, desde que as regras sanitárias ficaram mais flexíveis, e conclua que os leitores estão animados não só para comprar, mas também para circular em ambientes tomados por livros.

"Estamos chegando ao fim do ano muito bem", resume Marcos Pereira, que encerra um ciclo de sete anos como presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros. "Aproveitamos bem essa retomada do hábito de leitura que houve na pandemia, e esse consumo hoje está em todo o varejo, não concentrado no online."

A fala se dirige a um dos temores reinantes da pandemia, o de que as livrarias independentes seriam esmagadas pelos mastodontes virtuais que dominaram as vendas durante a quarentena.

Exibindo menos alarme, Pereira aponta que as lojas que abriram durante a pandemia, sejam autônomas como a Megafauna e a Gato sem Rabo ou novas franquias como a Travessa e a Livraria da Vila, têm tido sucesso. "Minha previsão para 2022 é de agenda cheia."

Marcus Teles, recém-eleito presidente da Associação Nacional de Livrarias, concorda que o mercado está em franca recuperação. "A tendência é mais de abertura que de fechamento de livrarias."

"As vendas estão muito parecidas com 2019, que já era um ano de crescimento", diz o livreiro, sócio da rede Leitura, hoje a maior do país. "As lojas físicas têm um protagonismo muito maior nos lançamentos, basta conversar com as grandes editoras para ver."

Uma questão, agora, é que tipo de espaço ocuparão as livrarias. O hibridismo entre presença online e em carne e osso já é dado, mas há ainda uma aposta de que o modelo prioritário será de locais mais intimistas, que oferecem uma sensação maior de acolhimento e pesam menos no bolso de seus donos.

Teles, com a experiência de 93 lojas da Leitura, pondera que tudo depende do lugar e do público, sublinhando apenas que é improvável que se volte a apostar em lojas gigantescas, com mais de 2.000 metros quadrados.

E, afinal, que livros serão vendidos nesses lugares? Se usarmos 2021 de exemplo, veremos a proliferação de obras decoloniais, aquelas que se levantam contra o eurocentrismo e o olhar ocidental branco. Sinal de pico dessa onda foi a consagração de Abdulrazak Gurnah, tanzaniano nascido em Zanzibar, com o Nobel de literatura.

O pensamento centrado na África também guiou o prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, que elegeu pela primeira vez uma mulher do continente, a moçambicana Paulina Chiziane.

A literatura negra seguiu dominando livrarias e troféus no Brasil. Jeferson Tenório levou melhor romance no Jabuti por "O Avesso da Pele", Edimilson de Almeida Pereira foi destaque nos prêmios São Paulo e Oceanos com dois livros diferentes, Itamar Vieira Junior viu seu "Torto Arado" ir de queridinho da crítica a fenômeno pop, a angolana Djaimilia Pereira de Almeida trouxe ao país seu celebrado "A Visão das Plantas".

Quase todos esses autores foram destaques da Flip 2021, virtual pela segunda vez e interessada em propor um debate sobre a relação da literatura com as plantas e o meio ambiente, um tema que mesmo relevante acabou alijando parte dos espectadores tradicionais da festa.

Algo que tanto o festival paratiense quanto a Bienal tiveram em comum foi uma inédita curadoria coletiva, apontando para um esforço evidente por diversidade que parece agora um caminho irreversível na cultura.

Tema que, a propósito, também apareceu em lugares insuspeitos —como a Academia Brasileira de Letras. Ao preencher cinco vagas que abriram durante a pandemia, os acadêmicos se viram na mira dos holofotes ao escolher nomes estrelados como a atriz Fernanda Montenegro e o compositor Gilberto Gil.

Enquanto alguns se animaram com o que parecia uma abertura da instituição centenária a novos ares, outros criticaram o fato de ela privilegiar artistas de outras áreas a profissionais da escrita. Quem defendia uma Academia mais diversa também se frustrou com a derrota do autor indígena Daniel Munduruku para o médico branco Paulo Niemeyer Filho.

As polêmicas no meio literário, como de hábito, foram prolíficas. Talvez a mais rumorosa tenha sido a que envolveu a reedição da obra de Carolina Maria de Jesus pela Companhia das Letras. Os conflitos entre os herdeiros da autora e os de Audálio Dantas, o jornalista que a ajudou a se projetar, foram reacesos e inflamaram um debate sobre o quanto ele havia interferido nos escritos e no sucesso de Carolina.

Um debate correlato e igualmente intenso foi sobre a gramática usada por Carolina, opondo aqueles que defenderam a postura da nova edição de manter a grafia original da autora e aqueles que viram no texto erros de português que deveriam ter sido corrigidos.

Foi um ano que reeditou discussões antigas, a exemplo daquela sobre o que devemos fazer com uma obra quando seu autor é acusado de crimes —dessa vez, o pivô foi o autor da biografia de Philip Roth que saiu nos Estados Unidos— e do debate sobre o que devemos fazer com um livro infantil com representações raciais problemáticas —no caso, o "Abecê da Liberdade", que mostrava crianças brincando num navio negreiro.

Mas 2021 também fez reemergir coisa boa, dando novo fôlego a escritores fundamentais. O argentino Julio Cortázar pela primeira vez teve seus contos completos reunidos por aqui; a francesa Marguerite Duras deu o pontapé inicial numa nova coleção; Nelson Rodrigues teve romances antigos reeditados.

O que parece ter submergido, por enquanto, foram os ataques do governo Bolsonaro ao mercado editorial, vocais num início de ano que viu representantes do Estado rotularem livros como coisa de rico. A ideia de taxar o produto esmoreceu por ora, e Marcos Pereira, do sindicato dos editores, afirma que a ameaça teve o efeito contraditório de mobilizar a comunidade leitora em torno da valorização do livro.

É provável que o próximo ano ainda seja de preparar o escudo contra novas ofensivas. Não é como se tudo fossem flores, afinal. Mas a trama até agora aponta, quem diria, para um final dos mais esperançosos.

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