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Cinema

'Sars-CoV-2 - O Tempo da Pandemia' é um documentário necessário

Obra de Eduardo e Lauro Escorel mostra bastidores inimagináveis da luta contra a pandemia do coronavírus

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'Tudo pela Saúde'

  • Direção Eduardo e Lauro Escorel

O filme "Sars-CoV-2 - O Tempo da Pandemia" começa por ser um indisfarçável merchandising do banco Itaú. Mas digamos que é merecido. Foi quem enfiou R$ 1 bilhão para enfrentamento da Covid, quando nem tínhamos noção (nós leigos) da extensão do problema. Alguém dirá que não é tanto assim para um banco. Mas se outros botaram algum centavo para enfrentar os efeitos desse mal foram tão discretos que nem deixaram o fato ser conhecido.

Não vou abrir conta nesse banco por causa disso, mas seu empenho, ao reunir um comitê de dez médicos e confiar a eles essa dinheirama, denota resquícios de uma velha burguesia brasileira, civilizada e civilizatória, que hoje parece uma espécie em meteórica extinção.

Dito isso, o documentário de Eduardo Escorel e Lauro Escorel estará melhor se distribuído em milhares de escolas pelo país, para que os alunos de hoje saibam o tipo de esforço que foi desenvolvido para mitigar os males da Covid-19 quando mal se sabia o que era isso. E servirá aos estudantes do futuro para descobrir um pouco o que foi essa doença, para além dos noticiários necessariamente genéricos da TV. Em suma, é um belo exemplo do que possa ser um cinema educativo nos dias de hoje.

Através dessas imagens (e dos depoimentos dos médicos) podemos perceber a extensão do desastre que aconteceu no estado do Amazonas, por exemplo. Ou do tipo de sentimentos que médicos e enfermeiros nutriam durante as fases mais agudas da doença. Podemos testemunhar, por uma tomada aérea, a multidão de cruzes que cortam um cemitério recém-inaugurado, o tamanho do pesadelo que foi o enfrentamento dessa doença.

Mas não é apenas pela óbvia desumanidade com que foram tratadas milhares (milhões?) de pessoas que o filme se torna interessante. Existem questões de que nem sequer desconfiamos, como, por exemplo, a necessidade de mobilizar indústrias de tecidos para que se dedicassem a confeccionar máscaras, num momento em que não havia fornecedores no exterior que as vendessem. Ou os problemas logísticos que envolviam enviar cilindros por avião para localidades cujos nomes nós, das cidades grandes, mal sabíamos existirem.

Há pontos que permanecem obscuros. Por exemplo, o médico sanitarista Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa, nos ensina em dado momento que não há população mais pobre, entre todas as populações pobres, do que as que moram sobre palafitas. Seria dispersivo, não há dúvida, aprofundar o tema, mas a fala lança uma questão que mereceria ser mais aprofundada.

Seria preciso ter mais algumas horas de filme para deixar clara a extensão de uma tragédia cujos números, por aberrantes que sejam (ou justamente por isso), mal chegam à nossa compreensão. Mas alguns casos, como o de doentes que deveriam estar intubados sendo atendidos em UPAs, que não possuem equipamento para intubar doentes, devido à falta de leitos disponíveis nos hospitais, é de uma dramaticidade que fala por si mesma.

"Sars-CoV-2 - O Tempo da Pandemia" deixa ver, nas entrelinhas, algo mais que uma questão apenas médica. O mal que aflige o comitê de médicos pode ser ora ético, ora educacional. Ou, como se resumindo todos esses níveis, um dos membros do comitê nos lembra que existe uma conexão entre Covid-19 e destruição do meio ambiente.

Para resumir, antes de ser bom ou mau, inovador ou quadrado, este é um documentário necessário. Não se trata de uma pequena virtude.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto dizia que o título do filme era "Tudo pela Saúde". O título correto é "SARS-CoV-2 - O Tempo da Pandemia".

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