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Livros

'Como Escrever Bem' vai além dos dogmas e tabus que cercam o ofício

Obra de William Zinsser que tinha virado artigo raro, com exemplares vendidos a mais de R$ 900, volta ao catálogo

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São Paulo

É extremamente difícil e, mais do que isso, até intimidador tentar escrever um texto sobre um livro que se chama "Como Escrever Bem". Trata-se, afinal, de avaliar um clássico que vem atravessando gerações, algo assim como a bíblia dos manuais de escrita, e falar dele não pode mesmo ser uma tarefa simples.

Essa poderia ser uma maneira de iniciar este texto. Seria, porém, uma maneira ruim. O parágrafo acima contraria a maior parte do que ensina William Zinsser em seu livro. Nele há advérbios, adjetivos, clichês, períodos longos demais —e uma autora insegura.

Foto mostra um homem idoso, com cabelos totalmente brancos e óculos, usando uma camisa branca; ele está sentado a uma mesa, numa sala que tem uma estante ao fundo, ladeada por duas janelas, e, ao seu lado, outra pessoa digita num laptop, mas somente suas mãos aparecem na imagem
William Zinsser, aos 90, em sua casa em Nova York, em 2013; à época o autor, que morreria dois anos depois, enxergava mal por causa de um glaucoma e dava aulas de escrita ouvindo os alunos lerem seus textos - Damon Winter - 23.abr.13/The New York Times

É verdade que analisar o livro de Zinsser pode intimidar. Por definição, para estar à altura da tarefa, a resenhista deveria escrever bem. E se, na leitura, descobrisse não ser o caso?

Também é verdade que "Como Escrever Bem" é um sucesso desde 1976. Zinsser o escreveu nas férias do ano anterior. Sua intenção era reunir em livro o material das aulas que dava na universidade Yale.

No Brasil, "o clássico manual americano de escrita jornalística e de não ficção" —esse é seu subtítulo— saiu pela primeira vez em 2017, pela Três Estrelas. Com o fim do selo editorial do Grupo Folha, o livro virou um artigo raro, com exemplares vendidos a mais de R$ 900 ainda neste ano. Uma nova edição daquela mesma versão do texto —Zinsser atualizou o original várias vezes ao longo dos anos— sai agora pela Fósforo.

Resumindo muito, o que Zinsser propõe é que se busque o essencial, sem firulas. E, aos que acham que cortar excessos vai estragar seu modo pessoal de escrever, uma advertência: enfeite não é estilo. Perucas se compram em loja. Cabelo, não. A analogia capilar em defesa da autenticidade é dele mesmo.

E o que é essencial, então, dos conselhos de Zinsser?

Seja claro. Escreva na ordem direta. Prefira frases breves com palavras curtas. Fuja dos clichês. Verbos são melhores que advérbios. Substantivos são melhores que adjetivos. Corte. Releia. Reescreva. E, sobretudo, confie no seu material.

É divertido ver expressadas nas palavras de Zinsser regras que jornalistas ouvem há anos. Terão vindo dele? Ou ainda da recriação que E.B. White, um dos autores prediletos de Zinsser, fez de outro manual, "The Elements of Style", os elementos do estilo, escrito por seu professor William Strunk Jr. em 1919? Será que repetimos sem saber, nos corredores de Redações, ensinamentos que vieram de um livro publicado nos Estados Unidos há mais de cem anos?

Mas Zinsser não quis fazer um livro de conselhos como os de White e Strunk. Sua intenção, afirma, era mostrar como aplicá-los em diferentes gêneros.

As primeiras duas partes do livro fixam as bases —não à toa se chamam "Princípios" e "Métodos". Vêm delas essas regras repetidas como se fossem dogmas. (Atenção, editores: é nelas também que Zinsser quebra certos tabus; saibam que não é pecado usar parênteses, travessão, dois-pontos ou ponto e vírgula —basta saber usar.)

Como prometido, porém, ele vai além. Sempre com humor —em certos momentos, é capaz de arrancar gargalhadas—, Zinsser fala da escrita de um ponto de vista mais pessoal. Nos exemplos que traz de sala de aula, de textos favoritos e de seus escritos, fica claro o prazer que tem no ofício, ainda que às vezes o prazer seja o de sair de um problema na escrita.

O capítulo chamado "Decisões de um Escritor" ilustra bem essa sensação —e também o orgulho que Zinsser tinha por saber que escrevia bem.

Zinsser desmonta um relógio na frente do leitor, explicando como as peças se encaixam para o bom funcionamento do mecanismo. O relógio, no caso, é o relato de uma viagem a Timbuktu que ele fez para a revista Condé Nast Traveller em 1988. O capítulo é uma boa síntese do que o autor pretende ensinar. Se o tema e o momento parecem distantes, as lições que ele propicia continuam vigentes.

Ao traduzir o livro, Bernardo Ajzenberg eliminou, com a permissão do autor, seções que não fariam sentido para o leitor brasileiro. O próprio Zinsser não queria ver analogias com o beisebol transformadas em comparações com futebol.

Ainda assim, é um livro bem americano —não porque ainda haja aqui e ali menções e metáforas vindas do esporte que é um dos mais populares dos Estados Unidos, mas porque Zinsser se dirige a uma figura abundante por lá, o "writer".

Enquanto nos Estados Unidos o escritor é um profissional, no Brasil ainda é mais um status do que a palavra que você usa ao preencher a ficha de hotel. Aqui, escritor é quase sempre um jornalista, tradutor, roteirista, redator publicitário que também se arrisca em livros ou em textos mais pessoais.

Aliás, eis outro conceito ao qual nós, brasileiros, somos ainda pouco afeitos. O "ensaio pessoal" é um gênero muito cultivado nos Estados Unidos. Aqui, é pouco praticado e às vezes até desprezado —o desprezo decorre da falta de prática que faz com que muitos pensem estar escrevendo ensaios pessoais quando estão escrevendo apenas textões. O empenho que Zinsser dedica às escritas mais íntimas, em particular às memórias, mostra que não são a mesma coisa.

E, para terminar desfazendo outra confusão comum, diga-se que, se Zinsser não bane a primeira pessoa, tampouco incentiva seu uso indiscriminado. É possível expressar opiniões sem cair na autoindulgência e ser pessoal —até para expressar temores como o de não escrever bem— sem apelar ao "eu".

Como Escrever Bem

  • Preço R$ 69,90 (280 págs.); R$ 49,90 (ebook)
  • Autor William Zinsser
  • Editora Fósforo
  • Tradução Bernardo Ajzenberg
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