Descrição de chapéu

Dave Grohl fala muito de família, mas pouco de música em biografia

'O Contador de Histórias' conta causos do Nirvana, mas é entediante nos longos trechos sobre as filhas do músico

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O Contador de Histórias - Memórias de Vida e Música

  • Preço R$ 59,90 (416 págs); R$ 39,90 (ebook)
  • Autoria Dave Grohl
  • Editora Intrínseca
  • Tradução Alexandre Raposo, Jaime Biaggio, Leonardo Alves

"A vida logo se tornaria uma longa sucessão de primeiras vezes. A primeira xícara de café desde que ele partiu. A primeira refeição desde que ele partiu. A primeira ligação. O primeiro passeio de carro, e por aí vai. Cada passo me levava um pouco mais longe da época em que ele estava vivo. Uma sucessão de momentos em que eu precisava reaprender tudo."

O trecho em que Dave Grohl descreve como se sentia logo depois da morte de Kurt Cobain é um dos mais bonitos de "O Contador de Histórias - Memórias de Vida e Música", livro de memórias do baterista do Nirvana e líder do Foo Fighters que sai agora no Brasil pela Intrínseca.

Nesse capítulo, quem se interessa pela história da banda grunge, uma das mais importantes dos anos 1990, acompanha de perto a avalanche de emoções que acometeu Grohl desde pouco antes da morte de seu amigo —Cobain havia sofrido uma overdose num hotel de Roma cerca de um mês antes de se suicidar com um tiro na cabeça.

Da mesma forma, Grohl descreve o curto e intenso processo de gravação do clássico disco "Nevermind", a plateia vibrando na primeira vez em que a banda tocou ao vivo "Smells Like Teen Spirit" e sua relação de amizade com Cobain, com quem virava as madrugadas jogando "Super Mario" no pequeno apartamento sujo em Seattle que eles dividiram por um tempo.

A narrativa de "O Contador de Histórias" é interessante na medida em que conta curiosidades da feitura de discos e músicas com os quais os leitores se relacionam, trabalhos que foram muito importantes no panorama musical das últimas décadas. Isso vale tanto para os capítulos sobre o trio de Seattle quanto para as páginas a respeito do Foo Fighters, grupo de pegada mais pop que Grohl fundou depois da morte de Cobain e no qual assumiu vocais e guitarra.

Mas parte considerável das mais de 400 páginas do livro são dedicadas à vida pessoal, à família e às peculiaridades de Grohl, como no trecho em que ele descreve como estabeleceu o tempo exato de uma hora para que suas filhas escolhessem um brinquedo numa loja de departamentos de Londres ou na interminável cena em que ele viaja da Austrália para Los Angeles para ir a um baile escolar com a filha pequena.

Nesses momentos, "O Contador de Histórias" só tem valor para quem quer saber detalhes de vida pessoal de Grohl ou se certificar do óbvio —astros do rock são pessoas como quaisquer outras quando não estão em cima do palco. Há dezenas e dezenas de páginas em que o texto causa tédio no leitor interessado em sua música, que se pergunta como todas aquelas variedades informam a obra do músico. Dica, não informam.

O tom do texto é leve e divertido, de modo que se tem a impressão de estar conversando com um amigo numa mesa de bar. Grohl se põe como um cara boa pinta e aprazível. Porém os capítulos trazem algumas frases moralizantes escritas em caixa alta, como para explicar ao leitor a lição tirada de cada história vivida pelo músico. Essas "pílulas de sabedoria" dão um tom infantil desnecessário a uma prosa em geral astuta e cheia de comparações engraçadas.

Escrito em ordem cronológica, da infância de Grohl no interior do estado americano da Virgínia até seus dias atuais como um roqueiro que lota estádios de 40 mil pessoas mundo afora, o livro traz ainda uma série de fotos pouco vistas, incluindo imagens das bandas nas quais Grohl tocou antes de entrar para o Nirvana.

"O Contador de Histórias" é uma boa leitura, mas ganharia potência se dedicasse mais páginas aos causos do rock e deixasse as histórias de família confinadas à intimidade dos Grohls. Quem está interessado em saber se a filhinha do músico prefere Lego ou Barbie?

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