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Cinema

Peter Bogdanovich amou e estudou a Hollywood clássica como poucos

Ainda que seus melhores filmes se restrinjam aos anos 1970, suas contribuições como estudioso foram fundamentais

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A filmografia de Peter Bogdanovich não é em nada desprezível. Não é difícil perceber, em seus filmes, o manejo de um grande conhecedor da linguagem cinematográfica, mas, sobretudo, de um apaixonado pelo cinema. O hollywoodiano, acima de tudo.

Aliás, talvez tenha sido esse excesso de paixão pela Hollywood clássica que o tenha atrapalhado, de certa forma, a atingir o mesmo nível de excelência e constância que vários de seus colegas de cinefilia que surgiram pela mesma época —nomes como Martin Scorsese, Brian De Palma, Francis Ford Coppola e William Friedkin, aquela geração de cineastas inovadores e ousados que, como diria o jornalista Peter Biskind, "salvou Hollywood" no começo da década de 1970.

O cineasta Peter Bogdanovich, morto aos 82 anos - Gabriel Bouys/AFP

Por algum tempo, Bogdanovich soube aplicar sua paixão pelo cinema hollywoodiano à sensibilidade de sua época, mas depois parece ter se perdido em sua própria obsessão. Seus filmes foram deixando de ter a capacidade de falar ao espectador —e à crítica. Enquanto Scorsese, Coppola e os demais conseguiam se equilibrar entre a reverência aos mestres e a uma linguagem autoral e antenada ao seu tempo, Bogdanovich perdeu o rumo.

Mas antes disso, teve instantes de glória. Seja no lirismo em preto e branco de "A Última Sessão de Cinema", de 1971 —ainda hoje é seu filme mais lembrado—, ou no humor anárquico de "Essa Pequena É uma Parada", de 1972 —outrora muito influente, mas hoje quase esquecido—, há nos seus primeiros filmes claramente uma câmera habilidosa e sedenta tanto por se comunicar com o público de sua época quanto por homenagear a arte que escolheu desempenhar. Com o divertido "Lua de Papel", de 1973, o caráter nostálgico de sua obra chegaria ao paroxismo.

Depois de dois grandes fracassos —"Daisy Miller", de 1974, e "Amor, Eterno Amor", de1975—, recobrou fôlego com uma nova empreitada no saudosismo cinematográfico, em "Nickelodeon – No Mundo do Cinema", de 1976, mas ali já estava evidente que seu cinema, na melhor das hipóteses, andava em círculos.

Mergulhos nostálgicos posteriores, como "O Miado do Gato", de 2001, apenas comprovam o quanto essa fixação pelo passado o embotou artisticamente. Fez também filmes "no presente", alguns com qualidades, como "Marcas do Destino" (1986), mas nada à altura do que o cineasta havia feito até a primeira metade dos anos 1970.

Mais feliz foi a trajetória de Bogdanovich enquanto estudioso do cinema. Na infância e adolescência, emendava uma sessão atrás da outra. Na década de 1960, quando se casou com a diretora de arte e roteirista Polly Platt, o casal era visto nos meios intelectuais como duas enciclopédias cinematográficas ambulantes.

Foi nessa época que Bogdanovich começou a entrevistar vários de seus ídolos, em um trabalho admirável que renderia livros como o importante "Afinal, Quem Faz os Filmes?", lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Na obra, ele reproduz conversas com mestres como Josef von Sternberg, Leo McCarey, Howard Hawks e Alfred Hitchcock.

De todos os principais cineastas de sua geração, foi Bogdanovich quem mais estudou o cinema e teve uma produção escrita de fato fecunda sobre ele. São muito relevantes seus livros específicos sobre grandes diretores, que tratam da obra de nomes como os já mencionados Hitchcock e Hawks, além de John Ford, Fritz Lang e Orson Welles —este último, seu amigo pessoal e outra de suas obsessões.

Quando em 1971, a crítica Pauline Kael lançou o ensaio "Raising Kane", em que dizia Welles não havia escrito uma linha sequer do roteiro de "Cidadão Kane", creditando todo o trabalho ao roteirista Herman Mankiewicz, Bogdanovich saiu em defesa do cineasta, em um artigo na revista Esquire —embora há quem diga que o próprio Welles escreveu o texto, e que Bogdanovich apenas emprestou o nome ao amigo.

Seja como for, é justamente a partir de Welles que Bogdanovich fez um de seus trabalhos mais respeitáveis: o monumental esforço de supervisão na finalização de "O Outro Lado do Vento", longa jamais plenamente acabado por Welles, na década de 1970.

Bogdanovich, que participa do filme como ator, era quem mais sabia detalhes sobre a produção e as intenções originais de Welles. O resultado final, exibido primeiramente no festival de Veneza de 2018, mostra que a paixão de Bogdanovich pela velha Hollywood pode até ter sido até excessiva, mas que também o ajudou bastante —e foi fundamental— em sua trajetória.

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