Ruth Rachou, morta aos 94, introduziu e revolucionou a dança moderna no Brasil

A partir da década de 1960, bailarina trouxe métodos internacionais e lecionou com paixão que sobrevive até hoje

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São Paulo

Mãe e filho, ambos bailarinos, dividem o palco do teatro Anchieta, em São Paulo. Sentada em uma cadeira, uma das rainhas da dança moderna no Brasil, Ruth Rachou ondula tronco e braços, com o poder de suas mãos expressivas dominando o espaço.

Seu filho, Raul, a toma nos braços para uma valsa contemporânea, ao som de "Dance Me to the End of Love", de Leonard Cohen. O espetáculo encerrou a programação idealizada pelo Museu da Dança para comemorar os 90 anos da bailarina, coreógrafa e professora, em 2017.

A bailarina e coreógrafa Ruth Rachou, 94, que teve Covid-19 - Keiny Andrade/Folhapress

Ruth Rachou, morta na terça, aos 94 anos, poderia dançar até o final dos tempos. Em entrevista a este jornal, em julho de 2021, com dificuldade para andar após contrair Covid-19, disse ainda ter ideias para coreografias e sonhar em ter um grupo de dança.

Foi a última entrevista da artista, nascida em 1927 e que carregou muito da história da dança no país no século passado. Começou sua formação no balé clássico, sem saber que seguiria e transformaria carreiras na dança. Descobriu a vocação ao participar do Balé do Quarto Centenário de São Paulo. "Ali achei meu espaço, soube que iria continuar dançando para sempre, mesmo se a companhia acabasse", disse.

O Balé do Quarto Centenário, criado em 1953, na gestão de Jânio Quadros na prefeitura, foi o primeiro grupo profissional de dança de São Paulo, visando inserir a cultura brasileira nas tendências internacionais. Em 1955, a companhia foi extinta em plena temporada, sem aviso ou explicação.

Assim, a estreia de Ruth foi marcada pelos inúmeros obstáculos da dança no país. Mas seguiu e fez o caminho dos profissionais da época. Trabalhou com companhias de viés clássico, atuou como coreógrafa e diretora do núcleo de dança da TV Record —o que rendeu a ela o prêmio Roquete Pinto, em 1963—, deu aulas.

Nos anos 1960, começou a jornada para se tornar um dos maiores nomes da dança moderna. No final da década, viaja aos Estados Unidos, onde estuda a técnica Martha Graham. Conheceu os métodos de Merce Cunningham e José Limón e, de volta ao Brasil, fundou em 1972 uma escola onde pôde transmitir aos bailarinos e atores o que então transformava a dança no mundo.

No Espaço de Dança Ruth Rachou, alguns dos artistas mais importantes da dança nacional deram aulas –Klauss Vianna, Ismael Ivo, Edson Claro, Célia Gouvêa, Ivaldo Bertazzo, J. C. Viola, Mariana Muniz, Sonia Mota e muitos outros, além da própria Rachou. Também passaram por lá muitos atores e diretores de teatro, como Naum Alves de Souza (que a dirigiu em "Nijinsky") e José Possi Neto (diretor de "Sonho de Valsa", dança-teatro na qual Rachou contracena com Thales Pan Chacon).

Junto com o ensino, Rachou participou, produziu e dirigiu vários espetáculos. Além de atuar como assistente de Klaus Vianna no Balé da Cidade, ela se apresentou em festivais internacionais, fez coreografias para espetáculos como o "Evangelho Segundo Zebedeu", de 1971, de César Vieira, e atuou em filmes como "Asa Branca", de 1981, de Djalma Limongi Batista.

E continua estudando. Nos anos 1990, desenvolve estudos no métodos pilates, sendo também uma das pioneiras no ensino do método no Brasil, que traz para as salas de aula de sua escola —fechada em 2015.

Seus ensinamentos e sua dança continuam a ser transmitidos por muitos de seus ex-alunos e companheiros de palco. E Rachou continuou dançando, em participações especiais em espetáculos em sua homenagem, como o projeto sobre seus 80 anos, da Funarte, em 2008, e as comemorações de seus 90 anos, em 2017.

Há um mês e meio, Rachou foi internada no hospital Albert Einstein por problemas nos rins e morreu por falência geral dos órgãos, informa Bernadette Figueiredo, amiga íntima e autora de "Ruth Rachou - Biografia", junto com Izaías Almada. Ela deixa dois filhos, dois netos e seis bisnetos.

Cremada nesta quinta-feira, Rachou teve suas cinzas transformadas pela família numa urna ecológica, com terra e sementes de aroeiras que serão plantadas, eventualmente em um parque público, segundo Figueiredo.

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