Descrição de chapéu Livros Semana de 1922

Semana de 1922 tem festa, crítica e birra de modernistas em avalanche de novos livros

Centenário da Semana de Arte Moderna provoca onda de análises contemporâneas e de nomes como Oswald e Graciliano

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ilustração de mulher ruiva nua com três seios flutuando

Ilustração de Camile Sproesser para nova edição de "Macunaíma" que sai pela Antofágica Divulgação

São Paulo

Manuel Bandeira era um "triste politiqueiro", poeta que "tem um pequeno filão de ouro perdido num chumaço de poesia barata e conhecida". Graça Aranha escrevia com "uma absoluta ignorância do que se passava sob seus olhos". Victor Brecheret era "um idiota e um indigno". E, "ao contrário do que quer a crítica, sempre me julguei muito mais importante do que Mário" .

Quem escreve é o inconfundível Oswald de Andrade, autor que nunca economizou veneno para definir quem quer que fosse, em anotações esparsas feitas poucos anos antes de morrer. Registradas a título de comentário dos 30 anos da Semana de Arte Moderna, em 1952, elas vêm a público agora como apêndice anedótico da edição inédita de seu "Diário Confessional".

Segundo Manuel da Costa Pinto, responsável pela laboriosa organização do material escrito a mão por Oswald em diversos cadernos de 1948 a 1954, há que se diferenciar notas ferinas como essas do que seria ponderado num texto para publicação. Males de se aventurar por anotações íntimas. "São fragmentos de Oswald em estado bruto, antes de lapidar o seu texto. Matéria incandescente de um autor já virulento."

Neste redondo centenário da Semana de 1922, esses textos integram um entre as dezenas de lançamentos voltados a fazer algum balanço desse ponto crucial da cultura brasileira —muitos deles, olhando de esguelha para o evento.

Veja o exemplo de "O Antimodernista", que reúne uma série de manifestações de Graciliano Ramos em oposição à turma paulista, entre crônicas, artigos e entrevistas.

Em 1948, ao ser questionado pela Revista do Globo se teve influência modernista, o autor de "Vidas Secas" retrucou. "Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão."

A contrariedade vinha da percepção, por Graciliano, de que o modernismo não atacou os verdadeiros problemas sociais do país, se contentando "em investir contra a colocação pronominal", como escrevem os organizadores Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztayn. ("Como se pode ter talento sendo burro. O caso Graciliano Ramos", escreve Oswald em seus papéis.)

Além disso, o Velho Graça via com maus olhos o que seria uma ruptura artificial com o passado. "Querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva."

O maior mérito, segundo ele, foi abrir alas para uma literatura de verdadeiro valor que veio a partir da década de 1930, com Jorge Amado e José Lins do Rego na linha de frente. Oswald anota, de seu lado, que esse foi o começo do "retrocesso dialético na avançada que desfecháramos em 22".

Foi nesta época também que começou a publicar Carlos Drummond de Andrade, estudado em meio aos modernistas mineiros pelo professor Sergio Miceli, da Universidade de São Paulo, nos ensaios de "Lira Mensageira".

Drummond não se opôs aos paulistas da Semana de 22 —pelo contrário, teve uma comunicação fecunda e verdadeiro fascínio por Mário de Andrade, que, segundo Miceli, foi instrumental em sua "socialização literária".

Mas a experiência descrita pelo professor evidencia como o modernismo paulista era só um dos movimentos intelectuais em marcha no Brasil dos anos 1920, algo já defendido neste jornal com vigor por articulistas como Ruy Castro e Luís Augusto Fischer.

"Não é que São Paulo seja melhor por natureza, é uma conjuntura histórica", argumenta Miceli sobre os holofotes da Semana. "É uma cidade que, por força da imigração, da diferenciação das elites privadas e dos processos de industrialização e urbanização, cria uma efervescência que cruza os níveis político-econômicos e se reflete na área cultural. Isso não existia em nenhum outro estado."

Aprofundar o conhecimento crítico sobre 1922 exige, além de contextualização histórica e geográfica, uma análise em perspectiva sobre seus protagonistas e quais abordagens priorizaram e ignoraram. A tarefa é enfrentada nos 29 ensaios da coletânea "Modernismos", livro que, segundo sua organizadora, Gênese Andrade, vem para "preencher lacunas" dessa bibliografia.

"Durante muito tempo, tivemos uma crítica pouco crítica, laudatória", afirma a pesquisadora, que é doutora em letras pela Universidade de São Paulo e ensina literatura na Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap. "Conforme vamos nos distanciando, os olhares vão se modificando. Hoje, por exemplo, é mais fácil ter acesso a jornais daquela época do que 50 anos atrás."

Na obra aparecem, por exemplo, análises de Renata Felinto e Lilia Schwarcz sobre a abordagem da negritude por aqueles artistas —com atenção ao simbólico quadro "A Negra", de Tarsila— e de Marília Librandi sobre a apropriação da cultura indígena por autores como Mário.

'A Negra', obra de Tarsila do Amaral
'A Negra', obra de Tarsila do Amaral - Divulgação

Será que olhar a produção daquela época com a lente das pautas mais prementes de hoje não periga resvalar no anacronismo, cobrando daquela geração uma agenda que não está em seu horizonte?

Andrade, a organizadora, afirma que anacrônico seria definir de bate-pronto Tarsila como racista pela representação que fez da mulher negra em sua tela, inserida num contexto distinto e com objetivos artísticos específicos.

"Mas é importante ver essa produção com os olhos de hoje, respondendo a questões que não surgiram na época entre Tarsila e Oswald. O valor do modernismo está em continuar sendo reconhecido e valorizado mesmo diante de questões contemporâneas."

Mesmo Oswald de Andrade, no jorro desgovernado que são suas anotações de 1952, nunca se deixou levar pela amargura ou rejeitou o valor daquele episódio que "reuniu num mesmo momento as maiores figuras da poesia, do romance, da pintura, da escultura e da música de que o Brasil iria se orgulhar".

Segundo diz Manuel da Costa Pinto, 1922 serviu para consolidar vanguardas que se realizariam plenamente em obras posteriores daqueles artistas. Ou, nas palavras enviesadas do próprio Oswald, "não se pode negar a importância profética da Semana".

Diário Confessional

  • Preço R$ 99,90 (560 págs.); R$ 39,90 (ebook)
  • Autoria Oswald de Andrade (org. Manuel da Costa Pinto)
  • Editora Companhia das Letras

O Antimodernista: Graciliano e 1922

  • Quando Lançamento em março
  • Preço Ainda sem previsão (294 págs.)
  • Autoria Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztein (org.)
  • Editora Record

Lira Mensageira: Drummond e o Grupo Modernista Mineiro

  • Preço R$ 74,90 (264 págs.); R$ 49,90 (ebook)
  • Autoria Sergio Miceli
  • Editora Todavia

Modernismos 1922-2022

  • Quando Lançamento em fevereiro
  • Preço R$ 159,90 (896 págs.); R$ 49,90 (ebook)
  • Autoria Vários (org. Gênese Andrade)
  • Editora Companhia das Letras
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