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Cinema Oscar

Com 'Licorice Pizza', Paul Thomas Anderson pode levar o seu Oscar

Diretor de filme que chega aos cinemas repete a história de diretores esnobados como Hitchcock e Orson Welles

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cena de filme

Cooper Hoffman e Alana Haim em cena do filme 'Licorice Pizza', dirigido por Paul Thomas Anderson Divulgação

Há 25 anos, Paul Thomas Anderson recebeu sua primeira indicação a um Oscar, pelo roteiro original de "Boogie Nights: Prazer Sem Limites". Desde então, foram outras dez indicações, somando as categorias de melhor filme, direção, roteiro original e roteiro adaptado, em filmes como "Magnólia", de 1999, "Sangue Negro", de 2007, "Vício Inerente", de 2014, "Trama Fantasma", de 2017, e "Licorice Pizza", de 2021.

Se Anderson sair da próxima cerimônia do Oscar de mãos abanando, terá sacramentado seu nome como um dos mais esnobados da história do Oscar. Há profissionais que perderam mais vezes, como o sonoplasta Greg Russell, com 17 indicações sem vitória, e o compositor Alex North, com 15 —North levou um Oscar honorário em 1986. Mas tanto Russell quanto North trabalharam em dezenas —Russel, em centenas— de filmes. Anderson fez nove.

Ser esnobado pelo Oscar não é demérito, quando lembramos que cineastas como Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Sidney Lumet, Howard Hawks, Orson Welles, Spike Lee, Ingmar Bergman e David Lynch nunca receberam o prêmio de melhor diretor, e que Leigh Brackett, Buck Henry, Charles Lederer e David Mamet nunca venceram na categoria de melhor roteiro.

Muitas vezes, vencer um Oscar é uma questão de "timing". Se Paul Thomas Anderson tivesse lançado "Sangue Negro" um ano depois, em 2008, teria grande chance de vencer, já que a competição estava raquítica —o Oscar de melhor filme de 2008 foi para "Quem Quer Ser um Milionário?".

Em 2007, deu azar de ter pela frente "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Joel Coen e Ethan Coen, que levou as três estatuetas para as quais Anderson estava indicado —melhor filme, diretor e roteiro adaptado.

Algumas das derrotas de Anderson foram injustas. O roteiro que ele escreveu para "Vício Inerente" é brilhante. Foi o primeiro filme baseado num romance do escritor americano Thomas Pynchon, conhecido por narrativas densas, repletas de subtramas e povoadas por um grande número de personagens.

Ninguém havia se arriscado a adaptar Pynchon para as telas antes. Que Anderson tenha perdido o Oscar de roteiro adaptado para "O Jogo da Imitação", a cinebiografia do matemático britânico Alan Turing, é mais uma das incontáveis barbaridades perpetradas pelo Oscar.

Não que Paul Thomas Anderson precise de um Oscar para provar nada. É um dos cineastas mais talentosos em atividade e fez filmes que estão entre os melhores dos últimos 25 anos, como "Boogie Nights", "Magnólia" e, principalmente, "Sangue Negro". Nesse período, em Hollywood, talvez só Quentin Tarantino seja equiparável a ele, como cineastas que marcaram época e serão estudados por gerações futuras de cinéfilos.

Anderson e Tarantino têm características comuns. Dirigiram quase o mesmo número de filmes —Tarantino tem dez, um a mais que Anderson—, trabalham com as mesmas equipes há anos, escrevem os próprios roteiros e têm estilos de direção e narrativa facilmente reconhecíveis.

Você pode gostar ou não dos filmes deles, mas é inegável que são cineastas que veem o cinema como arte, fazem filmes adultos e parecem cada vez mais anomalias numa indústria dominada por filmes de super-heróis e adaptações de gibis.

O cinema e a TV estiveram sempre presentes na vida de Anderson. A mãe, Edwina, era atriz, e o pai, Ernie, um radialista e locutor de TV e rádio que, entre 1963 e 1966, interpretou "Ghoulardi", um bizarro apresentador de filmes de terror numa TV de Cleveland, no estado americano de Ohio.

Ghoulardi foi um ídolo para uma geração de jovens que cresceram ali e acabariam formando bandas famosas da cena punk-new wave, como Pretenders (Chrissie Hynde era uma grande fã), Devo, Dead Boys, Pere Ubu e The Cramps, além de cineastas como Jim Jarmusch. A produtora de Paul Thomas Anderson chama Ghoulardi Film Company em homenagem ao pai, que era um fumante inveterado e morreu em 1997 de câncer no pulmão.

O cinema de Paul Thomas Anderson deve muito à grande geração de cineastas que formou a chamada nova Hollywood, na virada dos anos 1960 para os 1970. Seus filmes são geralmente dramas com vários personagens de destaque e histórias que se misturam.

Boa parte deles se passa no vale de San Fernando, a região ao norte de Los Angeles onde Anderson nasceu e cresceu, e o cineasta mostra uma predileção por histórias passadas nos anos 1970, como em "Boogie Nights", "Vício Inerente" e, agora, "Licorice Pizza". Outra obsessão são histórias de bastidores sobre o showbiz, presentes em vários de seus filmes.

Alana Haim em cena do filme "Licorice Pizza", de Paul Thomas Anderson
Alana Haim em cena do filme 'Licorice Pizza', de Paul Thomas Anderson - Divulgação

Um das influências cinematográficas mais óbvias no trabalho de Anderson é o cineasta Robert Altman, de "Nashville" e "M.A.S.H.", conhecido por filmes de elenco numeroso e que prescindiam de uma trama central. É impossível assistir a "Magnólia", de Anderson, sem lembrar "Short Cuts: Cenas da Vida", de 1993, um dos últimos grandes filmes de Altman. Os dois têm estruturas narrativas e temas semelhantes, com diversas histórias que se intercalam e personagens melancólicos habitando os subúrbios de Los Angeles.

Agora, com "Licorice Pizza", outra história passada no vale de San Fernando nos anos 1970, Anderson recebeu mais três indicações ao Oscar –melhor filme, diretor e roteiro original. As duas primeiras categorias parecem ter dono com "O Ataque dos Cães" e sua diretora, Jane Campion, mas Anderson tem uma boa chance de finalmente ganhar o prêmio de roteiro.

Seu rival mais forte parece ser Kenneth Brannagh, por "Belfast". Brannagh recebeu três indicações neste ano, totalizando oito em sua carreira, e se tornou a primeira pessoa na história do Oscar a ser indicada em sete categorias diferentes. A exemplo de Anderson, Kenneth Brannagh jamais ganhou um Oscar.

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