'Poesia Acústica' mostra como o rap pode desbancar o sertanejo das paradas de hits

Projeto que chega à 12ª edição ajuda gênero a conquistar o mainstream, ainda que versos comecem a se afastar das raízes

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artistas em cenário atravessado por varais com bandeiras

Os rappers Caio Luccas, Budah, Filipe Ret, Teto, Borges, BIN, Luiz Mendes e Marina Sena no cenário da gravação de 'Poesia Acústica 12' Divulgação

Leonardo Lichote
Rio de Janeiro

No interior do velho casarão da zona portuária carioca, paredes com tijolos à mostra compõem com a cenografia que inclui caveiras mexicanas, bandeiras de países latinos, móveis de antiquário e até um carro conversível amarelo de 1968. No comando da equipe de filmagem, o diretor grita para os artistas que, em frente às câmeras, dublam a música que sai das caixas. "Empolgação! Vocês estão no ‘Poesia Acústica 12’."

A frase motivacional é mais do que jogo de cena. Ela tem apelo real, mensurável em números. A série de raps, sempre lançados com um clipe, teve em suas 11 edições anteriores 2 bilhões de visualizações no YouTube e 1 bilhão de plays nas plataformas de música. Ou seja, estar ali é uma garantia de visibilidade –moeda das mais valiosas no mercado musical atual.

Criada há cinco anos, e lançando agora a sua 12ª edição, "Poesia Acústica" é uma das pontas de lança de um movimento que aponta para a consolidação do rap brasileiro fora do nicho. Não é mais surpresa, por exemplo, ver o gênero disputando, sempre com o todo-poderoso sertanejo, posições entre as mais ouvidas do país.

"Malvadão 3", do rapper Xamã, está desde o início de janeiro no topo das paradas do Spotify —um top dez que inclui ainda os raps e traps "212", de Chefin, e "Pandora", de DJ Matt D, Menor MC, MC GP e Vulgo FK.

Outro indicativo deste momento é o Rep Festival, que em sua edição deste ano, realizada nos dias 12 e 13 de fevereiro, juntou um público de cerca de 80 mil pessoas para assistir a mais de 60 shows e 50 DJs, todos representantes da cena nacional. É bem mais do que os 15 mil da edição anterior.

"O aumento da presença do rap nos charts é uma confirmação do que os jovens ouvintes querem", afirma Eliton Nascimento, gerente de parcerias com artistas e gravadoras do Spotify, acrescentando que duas playlists de cultura hip-hop estão entre as dez mais ouvidas da plataforma no país. "Não é apenas algo viral, mas uma realidade."

"Estamos vendo agora o grande boom do rap nacional", afirma Fabrício Stofel, sócio-fundador do Rep Festival. "O rap foi o grande gênero da pandemia, impulsionado pelo apelo que ele tem em redes sociais como o TikTok. Matuê bateu recordes [seu álbum 'Máquina do Tempo', de 2020, teve a melhor estreia da história do Spotify no Brasil e superou Anitta], três edições seguidas do ‘Poesia Acústica’ bateram o número um nesse período."

Sócio da gravadora Pineapple Storm, que produz o "Poesia Acústica", Paulo Alvarez atribui o sucesso do projeto a uma série de razões. "O fato de reunirmos uma grande quantidade de artistas em cada edição soma o apelo individual de cada um. E, do lado deles, permite que alcancem um novo público. Até porque sempre reunimos artistas de diferentes vertentes do rap, como o trap por exemplo, com o de outros gêneros, como o funk e o pop", ele diz.

"'Poesia 12' chega a usar uma batida de samba a certa altura. Já tivemos Ludmilla, agora temos Marina Sena, consagrada como artista revelação pelo prêmio APCA 2021. O ‘Poesia’ marcou a virada de Xamã, e ajudou também a levar outros, como Orochi, ao mainstream", acrescenta.

Lançado agora, "Poesia Acústica #12 – Para Sempre" —provocação a quem dizia que a série criada em 2017 era febre passageira— reúne Filipe Ret, Caio Luccas, Luiz Lins, BIN, Budah, Borges e Teto, além de Marina Sena.

Contrariando os mandamentos da cartilha dos hits em uma faixa de pouco mais de oito minutos, eles se revezam para enfileirar versos de teor romântico e sensual. "O amor é um assunto que provoca uma identificação com qualquer público, não só o do rap", diz Paulo Alvarez, listando possíveis causas do sucesso da série. A letra de "Poesia Acústica 12" faz ainda referências a artistas da cena (MC Poze do Rodo) ou não (Bob Marley) e piscadelas à cultura digital ("tu quer um #tbt ou coisa mais pra frente?").

Mais do que fornecer munição poética, o ambiente digital plantou as bases do atual momento de popularidade do rap brasileiro. É o que defende o pesquisador de rap e cultura digital Rômulo Vieira da Silva, autor da dissertação "Flows & Views: Batalhas de Rimas, Batalhas de YouTube, Cyphers e o Rap Brasileiro na Cultura Digital". "O digital dá oportunidade do surgimento de novos atores, sejam rappers ou produtores, que em outra lógica não poderiam participar da indústria."

O pesquisador aponta que a circulação das batalhas, em que dois rappers se enfrentam improvisando versos, no YouTube, foi fundamental tanto para a popularização como para a linguagem do rap hoje.

"É um espetáculo repleto de humor, agressividade, que atrai múltiplas audiências. O alcance do rap então se expande, chegando a grupos sociais e étnicos que não estão ligados àquele território. E o YouTube permite o fácil compartilhamento, tem um sistema de recomendação potente, que leva você a outros vídeos do tipo, permite a monetização. A temática das letras também é afetada nesse ambiente. Ela passa a incorporar a ostentação, drogas, armas, sexo, muito a partir do poética do trap."

Selos de rap como Mainstreet, Tudubom, Medellin e 30PRAUM ocupam papel central na ampliação do mercado, muitas vezes estabelecendo parceria com as grandes gravadoras. Mas são tocados por gente que vive o rap, e não por grandes executivos. "Os selos conectam a rua com o mercado, a grande grana", resume Filipe Ret, ele próprio fundador do Tudubom.

Matuê, rapper à frente da 30PRAUM, faz coro. "Todas as nossas ideias vêm de quem está dentro, vêm da rua. Mas o selo corta caminho. Você já pode pegar um artista novo como o Teto", diz ele, em referência ao rapper baiano de 21 anos que chamou a atenção com as prévias de suas músicas mostradas em lives do Instagram durante a pandemia, "e jogar lá em cima, com uma rapidez que não rolou na minha carreira".

"O rap fala para o jovem e pelo jovem", diz o cantor Luccas Carlos. O engajamento dos fãs do gênero, majoritariamente pré-adolescentes, adolescentes e jovens, também ajuda a alimentar a máquina do rap nacional.

O mais importante —sem demandar grandes investimentos em marketing, sobretudo se comparado a gêneros como o axé e o sertanejo. "Sou o quinto ou sexto artista do rap brasileiro hoje, e meus números nas plataformas são melhores do que os da Ivete Sangalo", compara Filipe Ret.

Paulo Alvarez reforça. "O rap é o maior fenômeno orgânico da música hoje. O ‘Poesia Acústica’, por exemplo, praticamente não tem investimento em marketing, toda sua audiência é espontânea."

O caminho para o crescimento fora do nicho, no entanto, não se dá sem tensões dentro do próprio movimento. Afinal, as crônicas secas e realistas de Racionais MC’s ou a máxima "o rap é a CNN dos pretos", cunhada por Chuck D, do Public Enemy, têm pouco a ver com "Malvadão 3" ("então viaja de avião/ mó princesa, mó pressão/ só vapo vapo do malvadão") ou com a ostentação do tripé do trap, com sexo, drogas e armas.

Matuê, que hoje diz encarar "com mais seriedade" a exploração dessa temática usual em seus hits, argumenta que a lógica por trás dessas letras é similar à do cinema pop. "É como fazer o filme de ação mais brabo. Tem que ter o quê? Sexo, violência, viagens." O apelo, como mostram os números, funciona.

Apesar das diferenças conceituais entre os primeiros ícones do rap nacional e muito do gênero hoje, há um reconhecimento da importância de quem veio antes.

"É claro que as redes sociais têm um grande papel. Mas há muito tempo foi feito um trabalho muito minucioso, com muito amor, para hoje, depois de 30 anos, o rap estar onde ele está. Devemos isso aos pioneiros", acredita Predella, do grupo Costa Gold.

Bivolt vai no mesmo sentido. "Espero que o rap continue crescendo, mas sem esquecer as nossas raízes, que fazem ele não ser só um gênero musical e sim um ritmo de expressão ativa."

"O que protege o rap nacional da descaracterização total é que, diferentemente do que se dá nos Estados Unidos, o cânone ainda é Racionais, Sabotage. Há uma cobrança do próprio movimento nesse sentido", afirma Acauam Oliveira, pesquisador de música popular e professor de literatura da Universidade Federal de Pernambuco.

"De qualquer forma, há uma tendência em se olhar para esse conflito de maneira dicotômica —se você faz sucesso com o rap, ou você está conquistando algo para o movimento ou está se vendendo e perdendo força crítica. Mas o próprio rap pensa isso de forma muito mais complexa. 'Negro Drama', dos Racionais, é isso, ‘entre o sucesso e a lama’."

O pesquisador nota ainda que alcançar popularidade jogando pelas regras do mercado não necessariamente representa uma vitória. "É como cantam os Racionais. ‘Um por amor, dois por dinheiro, três pela África, quatro pros parceiro.’ Ou seja, se você não contempla todas essas dimensões, você perde algo. Se o rap deixa de ser compromisso, se for pensado só como uma linguagem musical, isso é interessante, mas o rap perde enquanto projeto de emancipação política. E num momento como esse, em que o rap cresce no mercado, essa questão é posta de maneira ainda mais marcada."

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